Sexta feira, 22 de março de 2019 Edição nº 15180 16/03/2019  










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Documentos revelam vida secreta do artista como um burocrata

JOÃO PEDRO PITOMBO
Da Folhapress – São Paulo

Enquanto rodava seus primeiros filmes na Bahia no início dos anos 1960, o cineasta Glauber Rocha também batia cartão e cumpria expediente na prefeitura.

Documentos inéditos obtidos com exclusividade mostram que Glauber atuou como técnico de informação e divulgação na extinta secretaria de Administração e Finanças da capital baiana entre 18 de março de 1960 e 1º de maio de 1963.

Na mesma época, atuou como jornalista em periódicos como o Jornal da Bahia e o Diário de Notícias, nos quais escrevia sobre cinema, e rodou o seu primeiro longa-metragem "Barravento", gravado na praia de Buraquinho, na Grande Salvador.

"Glauber era muito ativo, plural e tinha múltiplos talentos", diz o jornalista João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, que foi amigo do cineasta baiano e escreveu a biografia "Glauber, Esse Vulcão".

O jovem cineasta atuou na prefeitura nas gestões do então prefeito Heitor Dias, da UDN, e do seu sucessor Virgildásio de Senna, do PTB. Trabalhava na antiga sede da prefeitura que ficava no Paço Municipal, mesmo prédio onde hoje funciona apenas a Câmara de Vereadores de Salvador.

Dentre os documentos descobertos pelo setor de gestão documental da prefeitura, há fichas financeiras, de cadastro, de frequência, guia de inspeção de saúde, memorando e folha corrida do então jovem Glauber Rocha.

As fichas mostram que Glauber morava numa casa na rua General Labatut, nos Barris, e entrou na prefeitura sob contrato individual de trabalho. Ganhava um salário bruto de 20 mil cruzeiros -pouco mais do que o dobro do salário mínimo instituído em 1960, que era de 9.600 cruzeiros.

O dinheiro era curto para a época. Se quisesse comprar um Fusca, que então era vendido por 540 mil cruzeiros, teria que guardar integralmente o equivalente a 27 meses de salário.

Na prefeitura, Glauber teve como chefe dois dos mais importantes intelectuais baianos da época -Rosalvo Barbosa Romeo e Manoel Pinto de Aguiar.

O advogado Barbosa Romeo, que nos anos 1990 seria vice-governador da Bahia, foi amigo e uma espécie de padrinho do jovem cineasta. Além do emprego, conseguiu recursos para a criação da cooperativa Yemanjá Filmes, na qual Glauber rodou seus primeiros trabalhos.

"Barbosa Romeo foi um dos homens mais inteligentes e cultos que a Bahia já teve", lembra o ex-prefeito de Salvador Mário Kértesz.

Ele lembra que Glauber costumava frequentar a casa de Barbosa Romeo, no bairro da Pituba, onde conversava com outros políticos, como o então jovem deputado federal Antônio Carlos Magalhães. "Claro que isso foi antes do golpe. Depois tomariam rumos opostos", diz Kértesz.

Glauber também chegou a ser chefiado por Manoel Pinto de Aguiar. Advogado e professor, o secretário também era um dos principais editores de livros da Bahia, à frente da editora Progresso.

Ambos já se conheciam antes da prefeitura. Fernando Rocha, amigo de Glauber e seu colega no colégio Central da Bahia, era cunhado de Pinto de Aguiar e trabalhou com ele na editora. Bem relacionado, Pinto de Aguiar chegou a ajudar a levantar fundos para imprimir a revista Mapa, periódico feito por Glauber Rocha e outros jovens que também se reuniam em torno das jogralescas -espetáculos que encenavam poemas modernistas.

Os documentos da prefeitura ainda revelam que, quanto mais mergulhava no cinema, mais dificulda de Glauber teve em conciliar seus filmes com o serviço público. Uma folha de ponto de abril de 1963, por exemplo, mostra que ele faltou oito vezes naquele mês, o que lhe custou um desconto de 5.300 cruzeiros no salário.

Em maio, pediu demissão da prefeitura e em julho seguiu para uma jornada que mudaria sua vida -aviagem para a cidade de Monte Santo, sertão da Bahia. Ali, rodaria "Deus e o Diabo na Terra do Sol".



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