Segunda feira, 20 de maio de 2019 Edição nº 15205 24/04/2019  










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Roberta Sá não brilha em álbum com canções inéditas de Gil

LUIZ FERNANDO VIANNA
Da Folhapress - São Paulo

Ao que consta, Roberta Sá e Gilberto Gil se aproximaram nos almoços em que o jornalista Jorge Bastos Moreno (1954-2017) misturava artistas e imprensa em sua cobertura na Gávea, na zona sul do Rio de Janeiro. A presença de Roberta no oba-oba mostra o quão distante ela estava da cantora cult de "Braseiro" (2005), seu ótimo CD de estreia.

As tardes lhe renderam um repertório com 11 composições inéditas de Gil, reunidas em "Giro". Seria algo notável para qualquer intérprete brasileira em qualquer tempo. É ainda mais agora, estando Gil com quase 77 anos, consagrado, desobrigado de se lançar numa empreitada como essa.

Para ver o que há de consistente, é preciso afastar a cortina festiva que cerca o projeto, adocicado por textos de apresentação da atriz Maria Ribeiro e da jornalista Andréia Sadi, musas de "Lia e Deia", canção do mais recente CD de Gil, "Ok Ok Ok" (2018).

Há, por exemplo, nova versão –agora só na voz de Roberta– da bela música que é "Afogamento", lançada em dueto no disco de Gil. A transição que letra e melodia fazem da sombra à luz reforça o que Roberta é: uma cantora solar, com mais vocação para a alegria do que para sambas-canção.

Além de Gil figurar como autor em todas as faixas –sozinho (quatro) ou com parceiros (sete), inclusive Roberta (quatro)–, ele marca presença com seu violão inconfundível do início ao fim do CD. É discreto muitas vezes e evidente em momentos como o xote "Cantando as Horas" e o samba "A Vida de um Casal".

Outra etapa a se ressaltar é "Autorretratinho", nítido e até sensual perfil de Roberta feito para ela cantar em primeira pessoa.

Mais um ponto: o ijexá "Outra Coisa", com a graça de usar "lhe" em vez do correto "te", seguindo a fala baiana.

E há o bolero "Nem", tão com jeito de João Donato e com letra que, embora levezinha, tem a engenhosidade de brincar com monossílabos e dissílabos.

A cantora não brilha no disco. O que se quer dizer com isso é que sua voz límpida, envolvente, não é forte –quanto à interpretação, não à técnica– a ponto de sobressair em relação ao repertório. Ela serve a ele, o que não é pouco, ainda mais se tratando de Gil. Mas ganhou destaque menor agora do que teve em projetos de autores variados: "Braseiro", "Que Belo Estranho Dia para se Ter Alegria" (2007), "Segunda Pele" (2012), "Delírio" (2015).

Roberta está à vontade nos sambas, gênero mais presente em sua carreira: "O Lenço e o Lençol" e "A Vida de um Casal". Também está em "Ela Diz que me Ama", mas é uma faixa toda preparada (violão de Gil, arranjo) em louvor a Jorge Ben Jor, parceiro na música e que participa discretamente com a voz.

No samba-de-roda "Giro", faixa-título do álbum, o melhor é o todo, as palmas que evocam o seminal gênero baiano convivendo com o uso feliz e, no caso, não convencional de sopros.

A cantora nascida em Natal também tem rodagem em ritmos nordestinos, e lhe caem bem "Cantando as Horas", "Fogo de Palha" e "Xote da Modernidade". A intimidade com o assunto é reforçada pela presença dela entre os autores das três canções.

Ótimos e entrosados músicos, como Bem Gil (também produtor do disco), Alberto Continentino e Domenico Lancellotti, conferem coesão e inventividade a um trabalho marcante na trajetória profissional de Roberta, embora ela não avance tanto como intérprete.



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