Sábado, 20 de julho de 2019 Edição nº 15205 24/04/2019  










CONFLITOS POR TERRAAnterior | Índice | Próxima

Do centro-oeste, MT lidera violência contra a pessoa no campo

No Estado, foram registrados dois assassinatos e uma tentativa de homicídio, além de quatro ameaças de mortes

JOANICE DE DEUS
Da Reportagem

Em 2018, Mato Grosso apresentou elevado índice de violência no campo. Do centro-oeste, o Estado liderou o ranking de conflitos com 54 ocorrências, envolvendo 28.598 pessoas, seguido do vizinho Mato Grosso do Sul, com 36 casos. No mesmo ano, 550 famílias foram expulsas de suas terras distribuídas, especialmente, em 36 municípios mato-grossenses que registraram ataques ou violência de direitos por terra.

No Estado, ocorreram ainda dois assassinatos e uma tentativa de homicídio, além de quatro ameaças de mortes e dois casos de agressão. Ao todo, 574 famílias foram expulsas no centro-oeste, região com a maior concentração do bioma cerrado no Brasil. As demais (24) foram no Mato Grosso do Sul.

Comparado com 2017, o aumento na região foi de 14.350%, quando ocorreram quatro expulsões feitas por fazendeiros, empresários ou supostos donos que, com jagunços, obrigam por conta própria a saída das pessoas. Mato Grosso, consequentemente, puxou o índice registrando incremento de 13.650% de famílias expulsas da terra. O cerrado é o segundo bioma que mais sofre com os conflitos do campo, ficando atrás somente da Amazônia.

Os dados fazem parte do Caderno Conflitos do Campo Brasil 2018, lançado ontem pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). No país, houve um aumento de 59% nas expulsões, saltando de 1.448, em 2017, para 2.307, em 2018. “O que aconteceu em Mato Grosso nesse ano de 2018 foi gravíssimo. Houve um ataque mais perverso contra os mais vulneráveis do campo, da terra e do território, como nós vemos, os indígenas, os camponeses, os posseiros, assentados e sem-terra”, disse o coordenador da CPT, Cristiano Cabral.

Segundo ele, as causas para tanta violência é a forma de organização ou ausência da reforma agrária no país. “Principalmente em Mato Grosso, onde a concentração de terra cria um impacto muito grande sobre as pessoas. Além disso, as leis que vão sendo criadas, como mais uma agora em abril que é questão fundiária pelo Intermat (Instituto de Terra de Mato Grosso), que legaliza e legitima a terra na mão de grileiro, que representa o maior número de conflito no Estado”, disse.

Ainda no Estado, 633 famílias foram despejadas (determinado pela justiça) no ano passado, um aumento de 88,39% em relação a 2017. Outras 859 sofreram ameaças de serem retiradas de suas terras, além de 725 tentativas. Ao longo do ano, 440 casas, uma roça e outros bens foram destruídas em um total de 47 ocorrências envolvendo 5.454 famílias vítimas da violência no campo, no território mato-grossense.

De acordo com o relatório da CPT, as ocorrências de conflitos no campo vão desde a luta pela terra, pela água e ainda trabalhistas. No Estado, por exemplo, foram três conflitos por água, envolvendo 264 famílias. “A ação de pistolagem a 1.174 famílias, que sofreram ação no Estado, que teve um aumento de 103%”, destacou Cristiano Cabral.

Realidade gritante e ameaçadora segundo os camponeses e indígenas. “Desde 2011 estamos nesse acampamento e, em 2014, entramos para a área, onde moramos um ano. Em 2015, a juíza deu uma liminar e tirou as 100 famílias que estavam morando na terra. Eu tinha arroz, feijão, milhão e mandioca, galinha e porcos e não pudemos tirar nada”, contou um dos acampados de uma área localizada na região de Novo Mundo. Por razões de segurança, ele preferiu não ter o nome divulgado.

Segundo o camponês, as famílias não conseguiram retirar nada devido à violência por parte de pistoleiros e a ação de policiais, o que fez com que muitos passassem até mal. Após o despejo, apesar da justiça ter determinado que nada fosse destruído, eles perderam tudo o que já haviam plantado ou construído. “Já tínhamos casas erguidas e teve gente que largou tudo para trás, mas três dias depois vimos uma fumaça na área e tinham queimado tudo. Foram 86 casas queimadas e não sobrou nada. A gente achou cachorro morto a tiros”, relatou.

Outro caso grave foi um confronto entre indígenas e funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai), registrado em outubro do ano passado, em Colniza (1.065 quilômetros, a Noroeste de Cuiabá), que resultou em um homem morto e outro ferido. Na ocasião, os índios se deslocaram até o posto da Funai para reivindicar por terras e o ataque ocorreu depois que um morador da região organizou um grupo de pessoas armadas e avisou sobre o ataque.

O grupo teria dado vários tiros contra a base, que reagiu atirando para o alto. Um morreu no local e outro foi encaminhado para o Hospital de Juína em estado grave. De acordo com as informações, os índios da etnia arara exigem um pedaço de terra indígena da etnia de índios isolados conhecido como kawahiva do Rio Pardo, de 412 mil hectares.



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