Quarta feira, 22 de maio de 2019 Edição nº 15204 23/04/2019  










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A língua

Diz o ditado que quando a gente aponta o dedo para alguém, outros três se voltam para a gente. Certo dia, quando me dirigia para o trabalho, ouvi o radialista Kid Noel narrar a mensagem “Esopo e a Língua”, da qual vou transcrever alguns trechos a seguir. Achei oportuno e acho que vale a pena refletir.

Esopo era um escravo de rara inteligência que servia à casa de um conhecido chefe militar da antiga Grécia. Certo dia, em que seu patrão conversava com outro companheiro sobre os males e as virtudes do mundo, Esopo foi chamado a dar sua opinião sobre o assunto.

- Tenho a mais absoluta certeza de que a maior virtude da Terra está à venda no mercado.

- Como? Perguntou o amo surpreso. Como podes afirmar tal coisa?

- Não só afirmo, como, se meu amo permitir, irei até lá e trarei a maior virtude da Terra. Com a devida autorização do amo, saiu Esopo e, dali a alguns minutos, voltou carregando um pequeno embrulho. Ao abrir o pacote, o velho chefe encontrou vários pedaços de língua, e, enfurecido, deu ao escravo uma chance para se explicar.

- Meu amo, não vos enganei, retrucou Esopo. Para mim, a língua é a maior das virtudes. Com ela podemos consolar, ensinar, esclarecer, aliviar e conduzir. Pela língua os ensinos dos filósofos são divulgados, os conceitos religiosos são espalhados e as obras dos poetas se tornam conhecidas de todos.

- Boa, meu caro, retrucou o amigo do amo. Já que és desembaraçado, que tal trazer-me agora o pior vício do mundo?

- É perfeitamente possível, senhor. Esopo saiu novamente e dali a minutos voltava com outro pacote semelhante ao primeiro. Ao abri-lo, os amigos encontraram novamente pedaços de língua. Desapontados, interrogaram o escravo.

- Por que vos admirais de minha escolha? Do mesmo modo que a língua, bem utilizada, se converte numa sublime virtude, quando relegada a planos inferiores se transforma no pior dos vícios, disse Esopo.

Segundo ele, através da língua tecem-se as intrigas e as violências verbais. Através dela, as verdades mais santas, por ela mesma ensinadas, podem ser corrompidas e apresentadas como anedotas vulgares e sem sentido. Além disso, estabelecem-se as discussões infrutíferas, os desentendimentos prolongados e as confusões populares que levam ao desequilíbrio social.

Por fim, a conclusão: “Clareia e adoça tua palavra, para que o teu verbo não acuse nem fira, mesmo quando falares a verdade. Fala pouco. Pensa muito. Sobretudo, faze o bem. A palavra sem ação não esclarece a ninguém”.



JOANICE DE DEUS é repórter

joanice@diariodecuiaba.com.br



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