Quarta feira, 22 de maio de 2019 Edição nº 15203 19/04/2019  










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Tributo ao Rei: Nando Reis lança disco que recupera músicas menos conhecidas de Roberto Carlos

LEONARDO LICHOTE
Da Agência Globo - Rio

A primeira memória que Nando Reis tem de Roberto Carlos nem é de uma canção, mas de uma presença —materializada numa calça Calhambeque (produto derivado do sucesso da Jovem Guarda) que ele, criança, gostava de usar.

“Tinha um calhambequezinho no zíper. A lembrança é difusa. Ouvia as músicas da Jovem Guarda na casa da minha prima, as amigas dela deviam usar botas brancas de cano alto. Era um pré-Roberto Carlos, antes de eu saber quem era Roberto Carlos”, recorda Nando.

Nos anos seguintes, Nando aprendeu quem era Roberto. Conheceu na pele a alfabetização sentimental que ele (como um Paulo Freire da canção) promoveu no país, teve noção da grandeza de Erasmo Carlos na construção desse reinado, exercitou o olhar generoso sobre o outro ao se deparar com as posições conservadoras do ídolo (opostas às suas). Agora, ele devolve o que recebeu num tributo personalíssimo ao Rei, “Não sou nenhum Roberto, mas às vezes chego perto”, que chega às lojas e plataformas digitais na sexta-feira. Em 12 faixas, Nando passa por um repertório intrinsecamente ligado à sua vida (ou ao que absorveu sobre canção ao longo da vida), em arranjos que se referem a artistas que o formaram, como João Gilberto, Gal Costa, Bob Dylan e Janis Joplin.

“Tenho uma voz singular, e a força de minha interpretação sempre esteve relacionada ao meu conhecimento das minhas próprias canções”, avalia Nando. “Então entendi que minha seleção tinha que se basear em canções que conhecesse tão bem quanto as minhas, como “Nosso amor” (de Mauro Motta e Eduardo Ribeiro) e “Vivendo por viver” (de Marcio Greyck e Cobel)”, conta.

O álbum, portanto, não é apenas sobre o Roberto compositor, mas sim o “Roberto artista com A maiúsculo”. Das 12 canções, oito são dele (sete com Erasmo, uma com Ronaldo Bôscoli). A natureza íntima do repertório trouxe sucessos como “Amada amante” e “Todos estão surdos”, mas principalmente “lados B”, como “Alô” (1994) e “Você em minha vida” (1976).

“Foi basicamente meu gosto, o que me emociona. Nunca gostei de Jovem Guarda, acho muito ingênuo. Ter os anos 1970 era algo muito claro pra mim, faz parte da minha formação, adolescência e início da idade adulta. É difícil algo nos impactar tanto quanto nessa época da vida (10 das 12 canções do disco foram lançadas entre 1971 e 1980). E outra coisa: pra mim tudo é melodia. O exemplo máximo disso é “Nossa Senhora” (de 1993, na qual Nando não canta os versos, apenas a melodia em “na nana ”). Aquela letra só pode ser cantada em sua magnitude por um devoto. Sou ateu, mas sou devoto dessa melodia. E amo a devoção de Roberto por Nossa Senhora, que está ali implícita”, explica Nando.

Nando também tomou como critério o fato de conseguir “encontrar o arranjo que transmitisse essa emoção que sinto ao ouvir essas músicas, pra que, se eu não for nenhum Roberto, que ao menos chegue perto”, brinca. O título do disco, aliás, foi retirado de um verso de uma canção de Nando que carrega muito de seu objetivo como compositor: “Aspiro alcançar esse grau de comunicação e de realização da canção. E esse verso tem um gracejo com o desejo, a modéstia e a falsa modéstia. Por que pra fazer qualquer coisa é necessário se ter a ilusão de que você é mais do que é”.

Os arranjos(o disco tem produção de Pupillo e direção musical de Marcus Pret), portanto, têm esse norte. São povoados de referências que localizam Roberto no mapa afetivo de Nando. Para “Nossa Senhora”, ele queria a sonoridade de João Gilberto em “Valsa (Como são lindos osy ou guis )”. “Guerra dos meninos” bebeu de “Wigwam”, de Dylan. “Nosso amor” tema estruturada primeira gravação de Gal para “Vapor barat ”. E o artista brinca que o texto que fez para “Me conte a sua história” é “meio Isaac Hayes”: “Hayes, Reis, Rei, o disco tem muitas rimas internas”.

Mesmo onde Reis e Rei parecem não rimar , como nas posições de Roberto a favor da censura (do filme “Je vous salue Marie”, de Godard, em 1986; de sua biografia escrita por Paulo Cesar de Araújo, em 2007), Nando evita o olhar simplista: “Roberto é ambíguo. Compôs “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” para o exilado Caetano. Sou fã de reggae, mas vai lera biografia de Bob Marley e Peter Tosh, a barra pesada que era na Jamaica. Não dá pra ficar na abordagem maniqueísta de que um Roberto anula o outro”, defende. “Escrevi “Igreja” (dos versos “Eu não gosto de padre/ Eu não gosto de madre”) muito instigado pelo posicionamento do Roberto no caso de Godard. Mas não estamos falando aqui de “você é feio, bobo e chato”. É o mundo adulto, complexo”, explica.

Uma complexidade que, em canção, se traduz em sofisticada simplicidade: “Detesto conceito, não acredito em mensagem. Quis me aproximar de Roberto naquilo que ele tem de extraordinário, no que atinge primeiro o coração, depois a mente. No que faz ele não ser uma unanimidade. Porque ele não é um pastiche, tem a força da individualidade. Por isso uns gostam, outros não.



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