Sexta feira, 22 de fevereiro de 2019 Edição nº 15157 09/02/2019  










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Infecção por dengue pode proteger contra zika, diz estudo feito no Brasil

REINALDO JOSÉ LOPES
Especial para o DIÁRIO

O temor de que os efeitos dos vírus da dengue e da zika interajam de forma perigosa no organismo das pessoas infectadas provavelmente é infundado, revela um estudo conduzido em Salvador durante o auge da epidemia de zika, em 2015.

Analisando amostras de sangue de quase 1.500 moradores do bairro de Pau da Lima, na capital baiana, cientistas do Brasil e dos EUA concluíram que a forte circulação do vírus da dengue antes que a zika chegasse à região não piorou o impacto causado pela nova doença.

Aliás, o contrário parece ter acontecido: pessoas que carregavam muitos anticorpos (moléculas de defesa) contra dengue tinham mais chance de evitar zika. Na prática, ter tido dengue várias vezes antes conferiu alguma proteção contra a zika. Os resultados estão descritos em artigo que publicado na revista Science.

"Estudos como esse são caros e exigem tempo. Estava mais ou menos claro que só entenderíamos melhor o que estava acontecendo no caso da zika quando a epidemia enfraquecesse. Mas tudo indica que a doença veio para ficar, então é importante compreendê-la", disse à reportagem o virologista Mauricio Nogueira, coautor da pesquisa e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.

A coordenação do trabalho coube a Federico Costa, da Fiocruz da Bahia, e a Albert Ko, da Escola de Saúde Pública da Universidade Yale, nos EUA.

Os especialistas usam a sigla ADE (potencialização dependente de anticorpos) para descrever uma infecção agravada por outra infecção prévia.

O processo de ADE parece estar por trás do risco que existe quando alguém é acometido por duas formas diferentes do vírus da dengue, por exemplo. Na segunda infecção, a possibilidade de sintomas sérios, que podem levar à morte, torna-se maior.

Nesses casos, os anticorpos produzidos pelo organismo durante a primeira infecção podem ser capazes de se conectar com a nova forma do vírus, mas não conseguem neutralizá-lo, e atuam como "cavalo de Troia", levando o vírus para dentro das células.

Como o vírus da zika é um parente próximo do causador da dengue, a possibilidade de que algo assim acontecesse existia. E os dados para analisar o fenômeno também estavam disponíveis, já que Albert Ko e colegas têm uma pesquisa em saúde pública de longo prazo em Salvador (o médico de Yale, aliás, morou no Brasil por 15 anos).

Graças a isso, a equipe analisou tanto a presença de anticorpos contra o vírus da zika, que indicam a ocorrência de uma infecção pelo patógeno, quanto a de anticorpos contra dengue (num subgrupo menor dos moradores, totalizando 642 pessoas).

A primeira conclusão é que o novo vírus realmente se espalhou com força tremenda pela população em 2015. Eles estimam que cerca de 70% dos moradores da área tiveram zika nesse período.

Do subgrupo de 642 pessoas, 86% apresentavam ao menos alguns anticorpos contra dengue. Isso não foi suficiente para tornar essas pessoas, como um todo, imunes à zika -mas, quanto mais alta a quantidade de anticorpos antidengue em seu organismo, menor a probabilidade de elas também terem sido infectadas por zika.

Quando esse subgrupo é dividido em três partes conforme o nível de anticorpos, o terço com mais anticorpos contra dengue tinha chance 44% mais baixa de ter zika quando comparada ao terço de pessoas com menos anticorpos, ou a quem não tinha nenhuma defesa contra a dengue.

Segundo Ko, o resultado é uma boa notícia para os testes de vacinas contra a dengue. Como o papel delas é estimular a ação do sistema de defesa do organismo e a produção de anticorpos, havia o temor de que eles pudessem causar o efeito não intencional de potencializar a zika.

E os dados talvez ajudem a explicar porque milhares de casos de microcefalia apareceram no país, e em especial no Nordeste, após o auge da epidemia, com um retorno posterior ao patamar esperado do problema. "A taxa incrivelmente alta de infecção em comunidades como a do nosso estudo certamente foi a principal razão", diz Ko.

"Se a proporção de 70% da população for representativa, pense no que isso representa só para o Nordeste", diz Nogueira. Seriam 40 milhões de pessoas. "Com tantos casos, efeitos raros da infecção começam a ficar visíveis."

Após a primeira infecção, tudo indica que a pessoa se torna imune a novos ataques do vírus da zika, o que impediria que o fenômeno se repetisse com a mesma intensidade nos próximos anos. Com o passar do tempo, porém, após o nascimento de pessoas cujo organismo não teve contato o patógeno, cria-se um reservatório de possíveis vítimas. É por isso que é importante estar preparado para futuros ataques.



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