Quarta feira, 20 de fevereiro de 2019 Edição nº 15139 16/01/2019  










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Livro ilustrado sobre autora suméria é um desbunde visual

BRUNO MOLINERO
Da Folhapress – São Paulo

É verdade que nada se cria, tudo se transforma - ou tudo se copia, se você estiver mais para Chacrinha do que para Lavoisier. Mas isso não é necessariamente verdade para Enreduana. Um de seus poemas diz: "Algo foi criado que ninguém antes criou".

Não se sinta culpado se nunca ouviu falar dessa escritora. Filha do rei Sargão, ela nasceu por volta de 2.300 a.C., na Mesopotâmia, e foi sacerdotisa de Ur, na Suméria (atualmente, sul do Iraque).

Mas o que deixou seu nome relevante até hoje foi a literatura. Autora de diferentes textos, como poemas e obras em devoção à deusa do amor e da fertilidade, Enreduana é tida como uma das primeiras escritoras e filósofas da história da humanidade.

Agora, mais de quatro milênios depois, no florescer da primavera feminista e do movimento #MeToo, Roger Mello apresenta essa personagem em um livro ilustrado.

Com texto poético, que mistura versos e uma prosa recheada de cadência, o autor fala sobre a relação de Enreduana com o pai, o casamento com a deusa Inana, a entrada na política local e a posterior expulsão de Ur, imposta por seu próprio irmão.

Mello é um dos mais premiados ilustradores brasileiros - sendo o único do país a vencer o Hans Christian Andersen na categoria visual, considerado o Nobel da literatura infantojuvenil.

Mas, curiosamente, não é ele quem assina os desenhos do novo título. Todas as imagens foram feitas por Mariana Massarani, que se inspirou na arte suméria para criar um desbunde visual.

Ilustrações, traços feitos na areia e esculturas de argila compõem as páginas, que têm, ao mesmo tempo, cores vibrantes e tons que levam o leitor a uma viagem ao deserto mesopotâmico.

A parceria, porém, não é inédita. Mello e Massarani repetem em "Enreduana" a dobradinha que fizeram em "Inês" - livro lançado também pela Companhia das Letrinhas, em 2015, também sobre uma personagem feminina.

Nesse caso, a portuguesa Inês de Castro, amor proibido do príncipe Pedro, que foi assassinada a mando do rei. Segundo diz a lenda, ao assumir o trono, o apaixonado teria ordenado que ela fosse desenterrada, coroada rainha e tivesse a mão beijada por seus súditos. A história se tornou uma das mais conhecidas de Portugal, contada até em "Os Lusíadas", de Camões.

Talvez por terem sido planejadas por dois ilustradores, tanto a obra sobre a rainha portuguesa quanto a da poeta suméria são formadas por imagens e texto praticamente siameses, impossíveis de serem separados. E podem ser lidas por crianças, adolescentes e adultos de qualquer idade, como costuma ocorrer com os bons livros ilustrados.

No caso de "Enreduana", algumas frases e palavras tornam a narrativa um pouco difícil para os menores, fazendo com que a leitura mediada e a companhia de um adulto sejam parte integrante.

É como entrar em um deserto e desbravar suas partes impenetráveis. Não à toa o narrador do livro é um grão de areia. É esse pedacinho quem ganha voz e apresenta Enreduana - fazendo com que, voltando ao Chacrinha, ela se comunique e não se "trumbique" com o leitor de hoje.

ENREDUANA

AUTOR Roger Mello.

ILUSTRADORA Mariana Massarani.

EDITORA Companhia das Letrinhas.

PREÇO R$ 49,90 (44 págs.)

AVALIAÇÃO Muito bom



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