Sexta feira, 18 de janeiro de 2019 Edição nº 15137 12/01/2019  










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Eduardo Mahon conversa Antônio Ernani Pedroso Calhao

Da Redação

Nessa semana, Eduardo Mahon conversa com um dos fundadores do Muxirum Cuiabano, Antônio Ernani Pedroso Calhao. Ernani é aposentado da UFMT e professor de Direito da Universidade Mackenzie, em São Paulo, autor de livros jurídicos e o mais recente, de cronicontos “O Zunzum do rio”, pela editora Lúmen Juris.



Mahon: Cuiabania ou cuiabanidade?

Calhao: Cuiabania foi uma expressão que Freire desenvolveu. Cuiabanidade era a mais comum. As duas expressões são, para mim, muito carinhosas e simpáticas. Não faço restrições. Pode haver até alguma distinção linguística, mas de qualquer maneira são maneiras de mostrar afeto, respeito.

Mahon: Não é também uma forma de exclusão?

Calhao: Eu não aceito a ideia do pau-rodado. Fui compreendendo melhor todo o processo de formação étnica do povo. quando eu percebi que o dono da terra era o indígena, não tenho como criar ou apoiar estigmas. Todos nós somos migrantes. Ao olhar para o terceiro século de Cuiabá, estamos numa outra realidade.

Mahon: De onde veio esse sentimento de identidade? E de hostilidade?

Calhao: O pau-rodado era o forasteiro, o aventureiro. É do cuiabano a crítica mordaz. Essa é uma tendência do jornalismo mato-grossense de fazer uma crítica fina. A ameaça que o forasteiro trazia era retratada de forma negativa. A formação moral do povo cuiabano era muito forte e ligado à pólis, à cidade. Então, essa crítica foi perdendo esse sentido original e passou a ser uma forma de discriminação, uma caricatura. A migração é um fato que nasce com a cidade e vai continuar. Todos chegaram, com exceção dos povos indígenas. Portanto, não aceito mais qualquer dimensão negativa do migrante – é uma irresponsabilidade. O mundo está cheio de sectarismos. Não dá pra suportar mais um divisionismo.

Mahon: Mas essa questão ainda existe?

Calhao: Ainda existe, claro, mas essas pessoas ligadas nessa crítica caricata falam sozinhas, estão muito solitárias em suas convicções. Não há mais lugar pra gente amarga dessa forma. Não podemos mais criar estigmas.

Mahon: Qual a sua visão, enquanto cuiabano, sobre o “novo Mato Grosso”?

Calhao: A Cuiabá do passado fica na memória. Não tenho ressentimento ou nostalgia. Mato Grosso é um verdadeiro caleidoscópio de vários povos. Precisamos levar essa identidade cuiabana ao chegante, ele não tem obrigação de adivinhar onde está a cultura cuiabana.

Mahon: O elitismo cuiabano – falar francês e tocar piano – originou uma pseudo-aristocracia na cidade, sendo que essa classe se apropriou do sentimento de cuiabania (que, na verdade, chegava até o entorno, na baixada cuiabana, digamos assim). Isso foi um erro de interpretação, um profundo equívoco. Esse centro fincado na cidade faz, até hoje, que Mato Grosso continue um ilustre desconhecido para essas pessoas que parecem viver numa caverna.

Calhao: Até a década de 60, Cuiabá era um pequeno quadrilátero. O governo era na Barão de Melgaço e o Tribunal, na Getúlio. Havia um convívio entre funcionários públicos, pequenos comerciantes e fazendeiros. Era uma concha onde todos se comunicavam e a comunicação repercutia. Não havia estradas. Elas vão começar na década de 70, muito depois de Brasília. Com o transporte tão precário, formou-se uma cultura endogâmica, cujo apelo aos mais letrados era estudar dentro e fora da cidade, no Rio de Janeiro. Por que piano? Porque havia pouco rádio e nenhuma televisão. Era uma forma de convivência. Claro que estamos falando de algumas classes sociais – que não eram ricas, mas eram refinadas. O grupo de pessoas que serviam não entravam na cuiabania, muito embora houvesse muita acomodação entre as famílias. Não posso citar, mas há várias figuras ilustríssimas que são filhos bastardos de outras figuras célebres que foram integradas perfeitamente na sociedade.

Mahon: E por que não se pode citar? Ainda é um tabu?

Calhao: Vou te explicar. Essas histórias ainda provocam dor no seio das famílias. Mas um fato posso revelar: em 1992, comemoramos 100 anos da República Transatlântica. Quando D. Maria Muller estava viva, fui chamado para integrar a comemoração desse fato histórico. Fizemos um VT para a Centro América. Ao invés da homenagem ser recebida com festa, houve um protesto violentíssimo. Aconteceram reuniões e reuniões na Academia de Letras, um racha quanto a existência da República Transatlântica. Depois, fui à casa de um dos membros da AML para entender a resistência. Ocorre que o bisavô dessa pessoa havia participado do movimento separatista. O medo era que o ascendente dele fosse declarado inimigo da pátria e, por isso, um grupo não queria tocar no assunto. Então, o episódio foi tão inusitado para mim que percebi a resistência com certos temas históricos.

Mahon: O cuiabano não é o maior inimigo do cuiabano? É incrível como o cuiabano se boicota, torpedeia o próprio parente, o próprio amigo mais chegado. A autofagia é o resultado negativo dessa endogamia, parece-me. O cuiabano não assimilou a dimensão do que foi a migração e acabou perdendo o mando econômico, nas décadas de 80 e 90 e político, de 2000 em diante.

Calhao: O cuiabano tem um comportamento curioso – não aceita crítica. É mais fácil viver com gente de fora que não conhece a história doméstica. O outro cuiabano sabe perfeitamente de detalhes da vida do vizinho. Nas calçadas, havia o comentário, mensurando o salário alheio e a capacidade de ter determinados bens ou ir ao cinema, por exemplo. O norte não representava nada para o cuiabano, era apenas um cerrado, um mato fechado. Não havia tecnologia para que essas terras fossem interessantes. O olhar econômico de Cuiabá era voltado quase sempre para o Pantanal. O resto era o resto. Profissionais liberais, servidores públicos e donos de terras no Pantanal. Apenas isso.

Mahon: Como funcionou a integração do migrante?

Calhao: Até os anos 60, não havia problema nenhum. Continuávamos uma cidade pequena. A hospitalidade cuiabana era constante. A questão foi ficando mais difícil quando o cuiabano começou a sofrer alguns golpes financeiros. Veio o que chamávamos de “frente fria”, o paranaense que vinha com cheque sem fundo do Bamerindus. Minha avó alertava – cuidado com o “homem de pasta”. Isso ficou no imaginário cuiabano.

Mahon: Fenomenal isso! Esse é um grande registro!

Calhao: Veja o caso do Campo de Aviação. Qual era questão? Algumas moças cuiabanas iam ao aeroporto esperar os moços aviadores. Muitas engravidavam. Acompanhei um caso em que a moça foi rejeitada. Quanto chegou à porta da casa dela, apanhou de toda a família até chegar ao quintal. “A menina se perdeu”, era a justificativa que davam ao episódio. Mais tarde, o filho nasceu e, infelizmente, cresceu com uma esquizofrenia. Isso acontecia também no Grande Hotel. Encontros proibidos entre as moças e os rapazes de fora. Essas mulheres eram profundamente discriminadas pela sociedade.

Mahon: Dunga Rodrigues, guardadas as proporções, retratou isso na Marphysa. Os golpistas eram chamados de “cavalheiros de indústria”. Quando não havia mais ambiência na cidade, iam embora. Nesse universo, como você cresceu?

Calhao: Meu pai tinha uma condição muito boa, diferenciada. Estudávamos em Cuiabá (Colégio Modelo etc) e eu fui para São Paulo entre 9 e 10 anos. Quando voltei, estava no 2º ano do ginásio, tive professores maravilhosos: Josephina Paes de Barros, uma das fundadoras do Muxirum, Aída de Figueiredo, Ranulpho Paes de Barros, Rafael Rueda. Enfim, finalizado o científico, fui estudar economia na Universidade Federal de Mato Grosso. Logo depois, fui aprovado no concurso para professor. Em 78, me casei com Silvana, cuiabaníssima, bisneta de Ovídio Correa de Paula, irmão do Philogonio.

Mahon: Quando surgiu o Muxirum, a ideia original era reagir à migração, não?

Calhao: Sim, claro. Na década de 80 em diante, o abandono dos valores cuiabanos era total. Começaram a se proliferar os núcleos de tradições gaúchas, mineiras, nordestinas etc. Não se comemorava nada no aniversário da cidade. Nada. Não havia nada mais sobre a cidade. Fizemos uma reunião para discutir o que poderia ser feito. A ideia nasceu da reação desse grupo: Pepito Cândia, nós os Calhao, Vanda Leite da Silva (ainda não era Marchetti), Josephina Paes de Barros, Adi de Figueiredo etc. Pretendia-se levantar as verdadeiras tradições cuiabanas e dar a elas divulgação para que as outras pessoas pudessem entender. Os próprios cuiabanos viviam com vergonha dos seus hábitos, fora do contexto, digamos assim.

Mahon: Há muita discordância sobre a proposta do Liu Arruda. Alguns dizem que a Comadre Nhara era uma forma de valorização ou de resistência cultural e outros afirmam que Liu buscava um espelho social através da sátira.

Calhao: Para mim, nem uma coisa, nem outra. Conheci Liu na época, estava começando. Nas primeiras reuniões, apareceu no Muxirum. Questionou a razão do nosso movimento, já que não éramos artistas. Coloquei as coisas nos devidos lugares – cada um dá a sua contribuição. Estávamos abrindo espaço para que ele mesmo pudesse sobreviver. Na verdade, o que o Liu fazia era a história da vida dele. “Nhala” era madrinha dele e morava perto. Dedê era a faxineira, Ramona eu conheço quem é – professora Maurília, ultravanguarda, crítica, estudiosa, competente. Então, ele dava vida a essas personagens do quotidiano dele. No fundo, Liu fez com que nós cuiabanos nos reencontrássemos com as nossas verdades.

Mahon: Quando eu era pequeno, assisti um show do Liu em que sacaneava o governador na frente dele. Fiquei perplexo com a esculhambação. Achava impossível que ele continuasse morando na cidade.

Calhao: Na Casa Cuiabana, recebi dois artistas. Um deles esculhambou uma senhora da alta sociedade. Eram coisas muito fortes para determinados ambientes. Todo mundo fazia aquela cara que não ouviu nada e as coisas iam se acomodando. Foi um processo difícil esse nosso porque nasceu autodidata, sem pauta nenhuma. O Muxirum nasceu amador e foi mal compreendido, inicialmente. Sobretudo pelo pessoal da arte. No geral, o povo de Cuiabá apoiava – nós precisávamos nos reconhecer novamente, muito embora não era todo mundo que concordava com isso. Tínhamos que encontrar uma pauta. A primeira delas foi a festa de santo. A festa do Senhor Divino estava praticamente extinta. Recriamos a quermesse cujas barracas eram de responsabilidade das famílias tradicionais, a procissão etc. Refizemos até a estola para a confraria, quando fui Imperador do Divino. Você sabe como era a procissão com o quadro?

Mahon: Não sei, mas vou saber!

Calhao: Eram quatro varetas, com quatro pessoas carregando. Os festeiros ficam no centro, protegidas pelas varetas de madeira, para separar do povão. Era uma forma de destacar as autoridades eclesiásticas. O quadro... não esqueço nunca daquilo! Bem, começamos a investir nas festas religiosas, inicialmente. O Ulisses teve uma experiência grande na França, com a questão do trato turístico que se dá aos monumentos, à identidade em geral. Aqui ele teve essa sacada e largou a vida profissional para se dedicar inteiramente ao Muxirum. Em seguida, começamos a falar da memória arquitetônica da cidade com a implantação de placas de identificação nos casarões. E, ainda, chegamos a Vila Bela da Santíssima Trindade para fazer o levantamento das tradições etc. Fomos crescendo com televisão e página de jornal. A mídia comprou a ideia por ser muito simpática. O Batista, o Batista Jaudy foi o último presidente que adoeceu e não continuamos mais com o movimento, a partir de 2002. O Ulysses investiu tanto nisso que chegamos à Globo com a Cristina Franco.

Mahon: E daí? O que aconteceu com o Muxirum?

Calhao: Tivemos sucesso. Fizemos pressão popular no governo. Naquela época, havia apenas a Fundação Cultural. Com o movimento, foi instalada a Secretaria de Cultura do Estado e do Município. Fizemos a mesma coisa que você faz com relação à literatura, uma sensibilização. Alguém tem que sair à frente! Vim para São Paulo em 2002 e o Muxirum entrou em repouso.

Mahon: E o nome? Me atrai muito esse nome.

Calhao: Saíram dois nomes, inicialmente. Lufada – é o movimento forte de peixes contra a corrente para a desova ou o Mutirão. O nome é do Júlio De Lamonica que batizou como Muxirum, no sentido de mutirão, ajuntamento, doação. Não havia, todavia, abertura alguma no Estado. Havia ações isoladas de um pesquisador ou de outro, mas apoio nenhum. Isso só ganhou força com o povo e a imprensa cobrando as autoridades.

Mahon: Nunca flertaram politicamente com o grupo?

Calhao: Tínhamos um pacto – proibida a política. Tínhamos pessoas ligadas à política. No início, as pessoas aderiram com essa condição. O movimento trabalhou 10 anos ininterruptamente, gastou muito do nosso dinheiro e nunca tivemos retorno. Enfrentávamos inveja, uma oposição besta. Ulysses brincava – quem nos manda dinheiro é Cuba! A gente não aguentava mais esse tipo de coisa, de comentário maldoso quanto aos recursos. No ano passado, 2017, recebi a demanda de um pesquisador e vi que estava na hora de recomeçar. Em 2019, fazemos trinta anos de Muxirum! Estou recuperando os arquivos de televisão. Faço questão que você veja a polêmica sobre a República Transatlântica. Isso tudo compõe a nossa memória.

Mahon: Vamos mudar de assunto. A sua área de atuação se relaciona aos Direitos Humanos. Como é que há brasileiros que negam a própria História? Que negam a existência de um período de ditadura militar?

Calhao: Nós tivemos uma ditadura e estou pesquisando muito sobre isso. Há pouco tempo, me assustei com uma entrevista com o Gabeira. Dizia ele que a guerrilha não tinha nenhum compromisso com a democracia e sim com a implantação de um regime socialista no Brasil. Talvez aí esteja o contexto da sua pergunta. As pessoas não compreendem os crimes praticados pela ditadura porque havia uma oposição que realmente estava comprometida com a revolução socialista. No entanto, as forças armadas tinham mesmo que tomar alguma providência quanto o caminhar comunista no Brasil.

Mahon: Você acha que o Jango seria maluco de implantar o socialismo no Brasil?

Calhao: Acho que sim. Para mim, ele abandonou o país com medo de que isso pudesse acontecer. Não sabiam onde ele estava, se no Rio, se no Rio Grande do Sul. A própria classe política pediu a intervenção dos militares. Eles deveriam ter organizado o país e entregue o poder novamente aos civis. Mas não fizeram isso. Usaram a força e mataram muita gente. Volto à sua pergunta – mas por que as pessoas não entendem isso? Porque não notavam a diferença da vida no quotidiano. Tanto que, agora, houve esse movimento forte pela volta dos militares. As pessoas estão descrentes da democracia. De outro lado, a corrupção chegou aos atuais patamares que são insustentáveis. Certo dia, fui advertido pela Prof. Maria Garcia sobre o papel dos militares na Constituição. Toda nação precisa das Forças Armadas. Comecei a refazer as minhas opiniões. A demonização dos militares acabou com uma disciplina que, na minha visão, não poderia acabar – OSPB.

Mahon: Organização Social e Política Brasileira? Não creio. O militar precisa ser disciplinado com o estimulo patriótico contínuo. Isso é evidente, porque pode enfrentar uma guerra e sacrificar a própria vida. O que não suporto é a patriotada militar. Tenho sérias dúvidas se as coisas resolvem com aquela espécie de adestramento do OSPB, o que me leva à outra questão: tem sentido o patriotismo na pós-modernidade?

Calhao: Pergunte ao norte-americano se ele não defende o país dele. Na Europa, os povos são extremamente reativos. Um excesso de apego nacional. A Europa defende os direitos humanos até o momento em que o refugiado chegou lá. Isso tudo também responde à questão do pau-rodado que falamos anteriormente. Mas voltando à questão: a ditatura é horrível, mas o que nós vivemos também não é democracia: vivemos um estado autoritário, um estado corrupto, um estado intervencionista.

Mahon: A ignorância nacional, a corrupção nacional, não nos dá oportunidade de vivenciarmos uma democracia plena. E digo mais: o Poder Judiciário não está nos dando qualquer segurança jurídica para vivermos de forma estável.

Calhao: Essa era a questão política em Cuiabá – a política não era para enriquecer. Era para ter respeito. Honorabilidade, entende? Ninguém saía rico do cargo público, mas saía respeitado.



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