Quinta feira, 13 de dezembro de 2018 Edição nº 15115 07/12/2018  










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‘A Vida em Si’ de Dan Fogelman

Filme com Antonio Banderas, Oscar Isaac, Olivia Wilde e Anette Benning em exibição nos cinemas de Cuiabá
Caio Lopes


Do Observatório do Cinema

Se Dan Fogelman não fosse Dan Fogelman, roteirista por trás do seriado de sucesso This Is Us, teria conseguido fazer A Vida em Si? Sua cena de abertura leva a crer que veremos algo único ou pelo menos audacioso, com ares de Beleza Americana, mas logo tudo se mostra como perfumaria básica de roteirista. Revela-se um roteiro de drama que não se vende, com cara de projeto de paixão – o pior tipo deles, aquele feito apenas para seu autor.

Não fosse pelo status atual de seu criador, um elenco que inclui Antonio Banderas, Oscar Isaac, Olivia Wilde e Anette Benning provavelmente não embarcaria num barco furado como esse. A pretensão começa já no alarmante título, A Vida em Si, sugerindo uma missão mal-fadada de abraçar a vida em toda sua amplitude, claramente um passo maior que a perna – não só para Fogelman, mas para qualquer cineasta de sua experiência.

A trama é dividida em quatro capítulos inconsistentes, difíceis de descrever sem entregar spoilers. O primeiro, focado no casal interpretado por Oscar Isaac e Olivia Wilde, é o mais equivocado, ludibriando o espectador gratuitamente e encerrando numa cena que, diga-se de passagem, é discutível em seu melodrama. O segundo capítulo, que segue a filha dos dois, quase passa despercebido, dando no máximo quinze minutos de tela à atriz Olivia Cooke.

Fazendo um pulo radical para a Espanha rural, o terceiro capítulo soa inicialmente aleatório, como se Fogelman perdesse a linha do que queria dizer, mas é o mais feliz de todos só pela presença de Antonio Banderas, cujo diálogo com um empregado marca o ponto alto do longa. Já o quarto capítulo apenas está lá para dar continuidade ao anterior e amarrar a coisa toda num nó bonitinho, como num fim de redação escolar premiada com um adesivo da professora.

A Vida em Si sofre em querer ser Crash: No Limite e Babel – bem melhores que esse -, ou seja, com um autor que quer brincar de Deus. Fogelman cria uma série de conexões forçadas entre suas histórias para no fim chegar a conclusões óbvias. Sua mensagem – de que devemos sempre seguir um pouco mais à frente – é claramente bem-intencionada e menos niilista que a dos longas mencionados acima, mas fica enfraquecida por uma trama que dá voltas demais.

Não há pecado em ser um diretor manipulativo, mas a manipulação de Fogelman pode ser sentida a todo momento e anula qualquer espontaneidade do material, deixando-o apático – algo letal para um drama da categoria “tear-jerker”. A sensação é a de que vemos um roteiro de cinema, não a vida em si. Por exemplo, o incidente que catapulta o drama – um atropelamento – é um artifício muito comum a dramas americanos, e sua execução não o difere aqui, remetendo diretamente a cenas de obras como Encontro Marcado e Margaret.

Para acrescentar uma atitude, conceitos narrativos como o narrador não-confiável são discutidos de forma recorrente, talvez como desculpa para as maquinações que, sem qualquer sutileza, movem a trama. Porém é uma escolha que soa condescendente com o público. Além disso, Fogelman parece confuso quanto ao tom que quer adotar para cada cena, conduzindo certos momentos em chave de humor-negro para depois pesar a mão no drama.

A condução de Fogelman é fraca, geralmente registrando cenas de forma banal, com uma câmera na mão que busca os atores em cena. Outras escolhas são simplesmente óbvias – com relances de flashbacks em câmera lenta e lens flares para simular memórias, mais parecendo comerciais de operadora telefônica. Há, no entanto, algumas transições bem-executadas, como aquela que abre o longa ou o movimento horizontal que representa o crescimento de um personagem.

Alguns bons trechos chegam para iluminar a experiência, como aquele primeiro diálogo com Antonio Banderas, um dos poucos pontos que soam naturais e não calculados, e o monólogo final da mãe de Rodrigo, que apesar de manipulativo é decididamente bem escrito, encapsulando tudo que o roteiro quer transmitir – por tanto, torna obsoleta grande parte do filme disperso que veio antes.

A Vida em Si deixa a impressão de que, para Dan Fogelman, a vida é nada mais que um roteiro, um que nunca soa espontâneo e sempre parece calculado ao extremo, no qual o objetivo principal do roteirista é mostrar o quanto tem controle de seus pobres personagens, como um garoto mexendo com um formigueiro.



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