Quarta feira, 14 de novembro de 2018 Edição nº 15083 17/10/2018  










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Discurso de Cid coloca em xeque 'frente democrática'

MARINA DIAS
Da Folhapress – Brasília

Integrantes da campanha de Fernando Haddad (PT) admitem que o duro discurso que Cid Gomes (PDT), irmão de Ciro Gomes, fez contra o PT na segunda-feira pode ter colocado um ponto final no plano petista de formar com o ex-adversário uma frente democrática para se contrapor a Jair Bolsonaro (PSL).

Durante evento no Ceará em apoio a Haddad, Cid fez uma fala crítica ao PT, na qual chamou militantes que o vaiavam de "babacas" e disse que a sigla do ex-presidente Lula merece perder a eleição.

"Não admitir os erros que cometeram é para perder a eleição. Vão perder feio", afirmou o ex-governador do Ceará, cobrando um mea culpa dos petistas.

A postura de Cid alarmou ainda mais o QG de Haddad, mas esse não foi o primeiro sinal de que a frente desejada pelo petista está fazendo água a 12 dias do segundo turno.

Em coletiva à imprensa ontem, em São Paulo, Haddad disse que não comentaria a fala de Cid, porque não tinha assistido ao vídeo na íntegra, mas afirmou que a discussão é "meio acalorada".

"Essa coisa é meio acalorada, mas eu não vou ficar comentando isso até porque eu tenho uma amizade pessoal com o Cid, ele fez elogios à minha pessoa, prefiro sempre olhar o lado positivo", declarou.

Diante da insistência dos jornalistas para que ele falasse sobre os efeitos do discurso de Cid em sua campanha, completou que não comentaria mais o assunto. "Não vi todo o vídeo e, no que me diz respeito, a amizade e o apreço com Cid são os mesmos".

Na semana passada, Haddad ficou bastante preocupado com a viajem de Ciro para a Europa após o partido do cearense, o PDT, anunciar apoio crítico à sua candidatura.

Naquela ocasião, auxiliares do herdeiro de Lula entenderam que seria cada vez mais difícil levar Ciro para o comando da campanha, com uma participação ativa, como era o desejo de Haddad.

O petista, porém, ainda nutria esperanças de que o ex-adversário, terceiro lugar no primeiro turno, pudesse compor a frente democrática. Mas a fala de Cid foi considerada a senha de que o PT não deve esperar mais nada de Ciro.

Publicamente, no entanto, os petistas vão insistir que as conversas continuam.

Articulador político da campanha de Haddad, Jaques Wagner chegou a dizer ontem que desconhecia a ideia de formação de uma frente democrática -ecoada pelo candidato e seus aliados desde a semana passada como principal objetivo da candidatura petista - e que a tese é "ampliar com a sociedade".

"A gente conversa com todo mundo", disse Jaques, escalado justamente para tentar compor a frente neste segundo turno.

"O Ciro já declarou que não vota no outro [Bolsonaro], então vota na gente", completou. Jaques disse não saber se haverá um apoio público de Ciro, mas que já deu o recado "para todo mundo".

"Se eles quiserem dar a declaração pública, seria melhor. Nós já mandamos o recado para todo mundo, aí fica na consciência de cada pessoa", finalizou o senador eleito pela Bahia.

Para tentar evitar o desmoronamento completo do plano de formar a frente, Haddad acelerou a aproximação com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e telefonou, na segunda, para o superintendente do Instituto FHC, Sérgio Fausto.

Em entrevista ao jornal O Estado de S Paulo, o ex-presidente afirmou que havia a possibilidade de uma "porta" de diálogo para Haddad - mas não para Bolsonaro. O tucano e o petista têm boa relação e conversavam diretamente de tempos em tempos antes da campanha.

Após as declarações do tucano na imprensa, Haddad respondeu que iria "abrir a porta" e telefonou a Fausto para tentar uma conversa direta com FHC.

O petista nunca acreditou em uma declaração de apoio público à sua candidatura por parte do ex-presidente, mas avalia que o tucano, ao rechaçar Bolsonaro, pode participar de uma plataforma em defesa dos valores democráticos.

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