Quarta feira, 14 de novembro de 2018 Edição nº 15083 17/10/2018  










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Série da Netflix 'Maniac' aborda a falência das relações humanas

Da Folhapress – São Paulo

"Maniac", novidade exibida na plataforma de vídeos sob demanda Netflix (netflix.com.br), é daquelas séries que fazem o telespectador querer voltar cenas para apreender referências -e, ainda assim, perder muitas delas. Centrada nas experiências de Owen (Jonah Hill) e Annie (Emma Stone), é uma imersão em profundezas psíquicas dos personagens, com alusão ao universo literário, sem perder o tom do humor.

Com estética dos anos 1980, embora situada em um tempo futuro, desprende-se do realismo e conduz o público a jornadas fantásticas, que muito sugerem sobre a existência vazia e virtual da sociedade de hoje -pela rotina e os traumas da dupla.

Na trama, tanto Owen quanto Annie se sentem deslocados no meio em que vivem. Também têm em comum a ideia de não pertencimento à família. Solitários e depressivos, acabam virando cobaias de um medicamento que promete sanar transtornos mentais.

O tratamento a ser testado por um excêntrico laboratório é feito em três fases e promete acabar com a forma tradicional de terapia: a pastilha A é o diagnóstico, o resgate de histórias pessoais; a B expõe os mecanismos de defesa de quem a toma, o chamado ponto cego; e a C coloca os pacientes em confronto com conflitos internos.

Sempre que toma as pílulas, o casal protagonista convida o público a embarcar em um lúdico mundo de sonhos e símbolos que dão pistas do que os aflige na vida real.

Uma peculiaridade, porém, instiga os cientistas: no transe, uma ligação incomum faz com que Annie e Owen acessem a mente um do outro -logo eles, tão descrentes nas relações humanas ("Duas pessoas se cuidando? É estúpido", diz o jovem, a certa altura da série).

Quando Annie entra em uma rodoviária que é também biblioteca pública, uma direção é dada a quem a acompanha. Não à toa, suas histórias são ricas em referências literárias. Já as de Owen, que encara com parentes ricos um embate jurídico, estão em ambientes requintados e mafiosos. Constante é a questão familiar.

A premissa de "Maniac" não é exatamente original (os filmes "Quero Ser John Malkovich" e "A Origem", entre inúmeras referências, já visitaram cômodos da mente humana). Nem por isso, deixa de ser irresistível percorrer seus capítulos.

A construção visual da série, algo entre a distopia [ambiente caótico de um estado falido] e uma visão retrô de cyberpunk [quando personagens são oprimidos diante de avanços tecnológicos], ajuda a narrativa, de modo que todos parecem presos ao passado -até o saudosista telespectador.

A angústia de uma sociedade doente e exposta se manifesta em tom crítico, e nem um computador sai ileso de um bug emocional.

Vale atentar às soluções arcaicas dadas a facilidades modernas, como GPS, anúncios e buscadores de internet e redes sociais.



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