Segunda feira, 19 de novembro de 2018 Edição nº 15059 12/09/2018  










AUREMÁCIO CARVALHOAnterior | Índice | Próxima

Tragédia anunciada

O atentado sofrido pelo candidato Jair Bolsonaro, ontem em Juiz de Fora/MG, ataque a faca, demonstra o clima, de há muito em gestação, da divisão do país, entre santos e pecadores. Aliás, clima esse que vem, ao menos, desde 2014, com a eleição de Dilma Roussef ao Planalto: agressões, baixarias, ataques à honra, à família, por ambos os principais candidatos - Dilma e Aécio.

Há quatro anos, a então presidente Dilma Rousseff (PT) venceu Aécio Neves (PSDB) no segundo turno por apertada diferença, em uma campanha marcada por agressões de ambos os lados. A polarização se acentuou após o resultado com a divisão da sociedade em torno do processo de impeachment da petista. A campanha de 2014 foi extremamente violenta na retórica dos candidatos. E, às vezes, essa retórica violenta ultrapassa o bom senso e chega às ruas, às redes sociais e à mídia, de forma geral. É a atual divisão entre “o nós contra eles”, petralhas e tucanalhas, coxinhas e mortadelas, a desqualificação pessoal do adversário: um momento vai parar na violência física e não apenas do discurso e dos post das redes sociais.

Portanto, uma tragédia anunciada; só não sabíamos qual candidato seria o alvo preferido. Agora o sabemos: um candidato de uma retória discutível, mas legítima como garantia de manifestação de pensamento e liberdade de expressão, que vem sendo visto com o perfil para salvar o Brasil da terrível situação política e moral que atravessamos; com uma violência incontrolável contra os cidadãos comuns, a ponto de bandidos serem os governantes “de fato” de grandes áreas territoriais, não somente no Rio de Janeiro, mas, no Amazonas, Ceará, Alagoas e outros Estados, regiões onde o Estado não se faz presente.

Apenas para lembrar, a presidente do PT - senadora Gleisi Hoffman, ao dizer: "Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar", comparando com a fala de Bolsonaro no Acre, esta semana: “Vamos fuzilar a petralhada toda aqui do Acre!". Este é clima e linguagem desta campanha, embora isso não autorize qualquer tipo de violência, muito menos física, contra qualquer candidato. "Esse ataque pode colocar o Bolsonaro no papel de vítima, causando uma reação dos seus apoiadores parecida com a que ocorre com parte dos defensores de Lula, que vê o petista como perseguido político", afirma um cientista político da Tendências. (G1).

Informa a mídia, Adélio Bispo de Oliveira é solteiro, de 40 anos, e morador de Juiz de Fora/MG e pedagogo. Suas postagens no Facebook indicam um perfil político mais à esquerda, porém com alguns elementos contraditórios como apoio à redução da maioridade penal, tema mais frequentemente defendido pela direita, e rejeição generalizada a políticos - ("Poderiam colocar os governantes do Brasil no paredão, e, claro, isso para a polícia seria bom, pois (a polícia) já está cansada de prender hoje, e a justiça soltar amanhã"), e contra a maçonaria- ("Até 2012, o índice de assassinatos em Montes Claros era terrível, teve queda de cerca de 50% depois que eu comecei a acusar a maçonaria de estar por trás deste genocídio", escreveu em 9 de julho). Associação absurda e sem qualquer indício histórico e factual sobre essa entidade.

Em sua página no Face book, ele aparece em uma imagem ao lado de uma manifestante que segurava uma placa com "Renuncia Temer". Em outra, um manifestante segura um cartaz com a frase "Políticos Inúteis". Em uma terceira imagem, dois manifestantes estavam vestidos com camisas a favor da soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba. Portanto, nada de anormal nesse tipo de conduta adotado por milhares de manifestantes, exceto o nível de violência que usou. Possivelmente, agiu, como se diz, “como um lobo solitário”.

Mas o fato nos leva a refletir sobre o clima de violência política atual do Brasil e se é isso que queremos. Política atual é essa violência - aliás, vista diariamente nas falas dos candidatos no horário eleitoral, inclusive em Mato Grosso - ou, a apresentação de propostas e políticas públicas de que tanto carecemos: saúde, educação, segurança pública, infraestrutura e outras, para o Brasil e Mato Grosso?

Temos assistido, em geral, não a apresentação de propostas sérias, mas de ataques pessoais denegrindo a imagem do adversário, tanto a nível nacional como local. É falta de conhecimento da realidade - do Estado ou do país - ou estratégia política para alcançar o eleito desinformado? Radicalismos, sejam de esquerda ou direita, desestabilizam a frágil democracia que ora experimentamos, depois dos anos ditatoriais. Eleição se ganha com voto, não com faca, tiros, mentiras e baixarias. Este triste episódio, por certo, vai levar os demais candidatos a repensar suas estratégias e discursos de desconstrução dos adversários, através de dossiês, ataques à vida privada, ao passado, fake news, e outros meios; pois, o povo/eleitor, possivelmente, vai olhar o Bolsonaro como vítima desse tipo de política, podendo até aumentar o seu apoio: “querem mata-lo para o Brasil não consertar”, ouvi de um motorista de aplicativo.

Fica difícil e arriscado, bater num candidato nessa situação de fragilidade física; afastado involuntariamente dos palanques talvez por cerca de um mês. Como comentou um amigo, “essa facada feriu de morte a democracia e pode enterrar muito candidato, que esperava usá-lo como escada para o poder. Desconstruindo sua imagem”. As eleições de 2018 são uma charada difícil de decifrar: ou vamos dar um salto de qualidade, ou vamos continuar como estamos por mais um bom tempo.

O cenário não é promissor; antes, pessimista. Não sei se a eleição vai resolver, mas, entendo que seria um passo bom no caminho de nossa recuperação ética, moral, política, econômica, dependendo do eleito ou, a escalada para o fundo do poço. Dependerá do eleitor/a: conhecer, analisar vida, atuação, preparo dos candidatos, para não votar no escuro ou por vingança ou ódio. Voto nulo ou branco, é jogar gasolina na fogueira, vai servir apenas aos donos do poder. Não comparecer para votar é adotar a prática da avestruz - enterrar o pescoço na areia para não ver a tempestade. Já que estamos no barco, vamos enfrenta-la. O futuro do Brasil agradece.



* AUREMÁCIO CARVALHO é advogado

auremacio.carvalho@hotmail.com



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