Quinta feira, 20 de setembro de 2018 Edição nº 15059 12/09/2018  










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Morto há 20 anos, Akira Kurosawa ainda tem a força de samaruai

HUGO SUKMAN
Especial parara o DIÁRIO

Quando Akira Kurosawa morreu, há exatamente 20 anos, outro gigante do cinema, Steven Spielberg, comparou-o em um só tempo a Shakespeare e aos pintores impressionistas.

Como acontece com Spielberg, aliás, não há muitas alternativas para os filmes de Kurosawa senão amá-los daquele amor puro que o século XX devotou a certos artistas sem par que se dedicaram ao cinema, um Chaplin, um John Ford, um Fellini, um Truffaut, um Almodóvar, ou ao nosso Glauber Rocha, aquele amor de fila na porta do cinema a despeito de se estar diante de um grande artista.

Kurosawa foi único, muito por sua biografia: filho de uma família de samurais — o ético e disciplinado guerreiro medieval japonês, figura que seria central em sua obra —, estudou para ser pintor, teve um irmão de certa forma morto pelo cinema (se suicidou ao perder o emprego de “narrador” ao vivo de filmes quando do advento do cinema sonoro), foi leitor voraz da literatura ocidental e percebeu, ao fim da Segunda Guerra e da bomba de Hiroshima, já cineasta, a urgência de um diálogo cultural humanista com o Ocidente.

São inúmeros os exemplos desse diálogo, mas “Os sete samurais” (1954) é paradigmático. Trata-se de um filme de samurais estruturado (confessadamente) como um western de John Ford no conteúdo e na forma. A trama acompanha um samurai (cowboy) solitário que convoca outros seis para ajudar a salvar um pequeno e isolado povoado do iminente ataque de bandidos, com o aproveitamento dramático do espaço e da paisagem. Após conquistar plateias do mundo inteiro, seria devolvido ao western na refilmagem de John Sturges: “Sete homens e um destino” (1960).

Kurosawa de fato levaria Shakespeare para o seu universo, transformando “Macbeth” em “Trono manchado de sangue” (1957), e “Rei Lear” em “Ran” (1985). Assim como encarou Dostoievski em “O idiota” (1951) e Górki em “Ralé” (1951), ou mesmo transformou um pequeno romance policial americano de Ed MacBain numa ácida crítica ao capitalismo japonês em “Céu e inferno” (1963).

Mas onde talvez ele tenha sido mais literário – e shakespeariano – seja em seu primeiro filme a chamar a atenção no Ocidente, “Rashomon” (1950). Nele, ao contar a mesma história do assassinato de um samurai e do estupro de sua mulher por quatro inconciliáveis pontos de vista — entre o quais o do próprio morto, por um médium — Kurosawa inventa linguagem, transforma o relativismo e a incerteza tão próprios da modernidade em narrativa dramática.

“Rashomon”, o termo, se transformaria no Ocidente em expressão popular para definir situação na qual há pontos de vista divergentes e irreconciliáveis, tal a dimensão dessa forma narrativa.

Em sua vasta filmografia, Kurosawa realizou muitas proezas, mas fazendo jus ao panegírico de Spielberg ele foi sempre isso mesmo: um pintor impressionista no sentido do apuro plástico e da tradução de uma subjetividade pictórica (vide “Sonhos”, de 1990, coproduzido pelo próprio Spielberg, imagens de seus sonhos transformadas em drama); e um Shakespeare moderno, no sentido de criar um mundo dramático que desse conta do seu tempo, inspirado no passado mítico e com força para — 20 anos depois de sua morte podemos confirmar — levar os samurais e o cinema para o futuro.



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