Quarta feira, 26 de setembro de 2018 Edição nº 15056 06/09/2018  










ROBERTO B. DA SILVA SÁAnterior | Índice | Próxima

Educação no pré-sal

A cada dois anos, ficamos sabendo dos novos (e constantemente piores) resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), divulgados pelo MEC. A cada nova edição do Saeb, uma velha constatação: o aprofundamento da falência do ensino brasileiro. Mesmo assim, o país não tem conseguido debater o problema de modo eficaz. Daí os equívocos no percurso.

Sobre os mais recentes – e estarrecedores – índices, até o ministro da Educação reconheceu estarmos diante de uma falência; de estarmos no “fundo do poço”.

Palavras fortes, pois são vindas de um ministro, mas suaves perto das que já usei em artigos escritos há anos. Lembro-me de ter registrado que, em breve, nossa educação, principalmente a pública, ultrapassaria as profundezas do pré-sal; e pasmem: ainda não atingimos essa profundeza toda. Desceremos mais.

Por que essa certeza?

Porque ainda há “gordurinhas do saber” a serem queimadas. Ainda há uns poucos alunos que nos salvam do desastre total e irreversível, mas ele virá, e em breve.

Comprovo isso, tomando o ensino de Língua Portuguesa no Ensino Médio, que é fulcral na grade escolar. A continuar como está, entraremos no estágio ingovernável da barbárie, pois, no universo de cem estudantes, sabem quantos apresentam nível adequado no aprendizado de nossa língua?

Resposta: 1,64%; ou seja, nem dois estudantes. Suas notas variam de 7 a 9 nessa disciplina.

Do lado oposto, estão 70,88%. Eles obtêm de zero a 3 em português. Nada mais. Desse contingente, 23,9% (quase 24 estudantes) não saem da nota zero. Esses brasileiros são verdadeiramente analfabetos, mesmo estando no final do Ensino Médio. Dessa forma, jamais terão quaisquer chances de ascensão social.

No nível básico da língua, cujas notas variam de 4 a 6, encontram-se 27,5%. São os alunos medianos: aqueles de voos baixos. Da perspectiva semântica, eles não dominam o significado sequer de 500 palavras de nossa língua, que tem aproximadamente 100 mil vocábulos. A eles, é praticamente impossível a compreensão de um texto qualquer. Esse contingente é incapaz de ler e entender este artigo.

Para a superação disso, há muito que ser feito.

No plano político, a valorização do professor deve caminhar junto com a garantia de boas condições de trabalho, no que se inserem as novas tecnologias em salas de aula, as bibliotecas e os laboratórios.

As aprovações automáticas, as “enturmações”, e outros engodos, precisarão desaparecer do cenário. A escola precisa voltar a ser vista com seriedade por todos. Se ela continuar desmoralizada, como se encontra, não há porque tê-la.

No plano teórico-pedagógico, insisto: ou nos livramos das farsas acadêmicas ou nos atolaremos de vez. Desse plano, infelizmente, todas as licenciaturas são corresponsáveis pela tragédia.

No que tange ao ensino da língua portuguesa, os cursos de Letras devem voltar a tratar a formalidade da língua com respeito, alegria e rigor, e não com o escárnio de teóricos que, na essência, mais se parecem com aquela “Falsa Baiana” de Geraldo Pereira.

Diante dessas pesquisas, nos cursos de Letras não se pode mais continuar confundindo, p. ex., teorias sociolinguísticas – que resguardam a lógica da alteridade – com o ensino de língua formal, que é o grande instrumento, por excelência, de todos os estudantes brasileiros. Sem o pleno domínio desse instrumento, todos estarão fadados à ignorância infinda. Seria como se perder no deserto, e sem nenhum cantil.

A tarefa é árdua, mas precisamos vencer todas as adversidades.



* ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

rbventur26@yahoo.com.br



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