Quarta feira, 14 de novembro de 2018 Edição nº 15055 05/09/2018  










MARINALDO CUSTÓDIOAnterior | Índice | Próxima

Vila dos Confins, 62

O romance Vila dos Confins, primeiro da lavra do mineiro [do Triângulo] Mário Palmério já chegou arrasando, contagiando corações e mentes no Brasil inteiro – depois, também, em diversos outros países, traduzido para diferentes línguas. Foi publicado pela José Olympio Editora em 1956.

E vejam só: a mim também contagiou até por uma particularidade escassamente lembrada e apreciada mundo afora: a do escritor que produz e publica pouco.

O autor, com efeito, publicou pouquíssimo. Afora correspondências e outros escritos de não ficção, só publicaria, depois, o segundo romance, Chapadão do Bugre, sem deixar cair nem um pouco a qualidade. E nem um só livro a mais.

Mas se hoje volto a lembrar de Vila dos Confins e a sentir vontade de sobre ele escrever, não é obviamente para, ainda uma vez, destacar suas qualidades e o prazer de ler, e sim porque todas as suas linhas narrativas remetem a um mural em que pontuam as futricas e escaramuças de uma eleição municipal do interior mineiro.

Falamos dos sertões das Minas Gerais de um tempo em que certamente a intolerância entre as gentes não era nem sombra da atual, mas já havia gente que se engalfinhava e até chegava a se matar por seus interesses, riquezas, posição social, em defesa dos seus clãs encastelados entre cercas e porteiras e currais.

As fake news daquele tempo eram em princípio ingênuas e brejeiras, fundadas muito mais nas manhas e artimanhas de coronéis e de seus paus-mandados, os capiaus, do que na maldade e no cálculo, e não passavam dos limites de um distrito, um município, no máximo uma comarca, levadas no boca a boca, no famoso correio sem selo dos chefes de partidos e cabos eleitorais, no disse-me-disse das comadres e dos mascates que vez em quando cruzavam aquelas brenhas a vender suas bugigangas, sonhos e ilusões.

A vila do título nada mais é que o lugarejo inventado por Mário Palmério para ambientar o seu magnífico romance, lugar onde se desenrolam, além da disputa eleitoral, o romance do deputado Paulo Santos com a perigosa Maria da Penha e a contenda, a princípio improvável, do valentão Filipão com o minúsculo Xixi Piriá, encaminhando-se para um final apoteótico e terrível ao mesmo tempo.

E eu, hoje em dia, cansado de tanta sujeira, do esgoto das redes sociais e da quase desesperança que insiste em nos trazer a cada dia um tempo assim, parafraseando outro escritor, Domingos Pellegrini Junior, ando com uma vontade doida de me mudar não pra Felicidade e sim, mesmo, pra Vila dos Confins.



MARINALDO CUSTÓDIO, escritor, é mestre em Literatura Brasileira pela UFF

mcmarinaldo@hotmail.com



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