Sexta feira, 16 de novembro de 2018 Edição nº 15055 05/09/2018  










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O último voo do poeta Wlademir Dias-Pino

Com obra original e extensa, ele foi um dos nomes mais influentes e menos conhecidos da arte brasileira

EVANDRO SALLES*
Especial para o DIÁRIO

O poeta, artista e pensador Wlademir Dias-Pino, morto na quinta-feira aos 91 anos, foi um dos artistas mais influentes e menos conhecidos da história da arte brasileira. Dos mais influentes, porque sua obra está na raiz e se confunde com a origem das articulações conceituais e teóricas das vanguardas surgidas depois dos anos 1950 na literatura e na arte do Brasil. Penso na desconstrução total da narrativa para além da palavra, na transformação do poema em estrutura de inscrição e leitura no espaço tridimensional, da antecipação da lógica computacional na inscrição do poema (poema-índice, poema-máquina) e na formulação do conceito de arte como processo. E é dos menos conhecidos porque, diante da importância, originalidade e extensão de sua obra, esta deveria ser amplamente celebrada e estudada. Decorridos 70 anos da elaboração de seu livro fundamental “A ave”, esta obra extraordinária segue parcamente (re)conhecida e divulgada.

A exposição “O poema infinito de Wlademir Dias-Pinto”, realizada no Museu de Arte do Rio (MAR) em 2016, buscava mudar esta realidade. Seguiu-se sua participação na 32ª Bienal de São Paulo e as duas exposições nas quais trabalhava no último ano, a serem realizadas no Centro Georges Pompidou, em Paris, e no museu Reina Sofia, em Madri. Com intensidade e energia incansáveis, o artista/poeta, em contínuo trabalho de produção, também dedicava-se atualmente a outras tarefas: poemas computacionais para o YouTube, edição de livros feitos em colaboração com outros escritores, além de seu maior e infindável projeto, iniciado ainda nos anos 1960, o de uma enciclopédia que se diferencia de todas as outras existentes.

Ela teria como princípio de catalogação uma ordenação cardinal, e não ordinal. E, como matéria-prima, a visualidade, e não o texto, sendo, por isso, batizada de Enciclopédia Visual Brasileira. Constituída por 1.001 volumes, a enciclopédia pretendia abarcar a história humana do ponto de vista de sua visualidade, contendo, assim, temas que incluem a estrutura gráfica da escrita, o sentido linguístico e simbólico da vestimenta, a arquitetura como construção em torno do vazio, a pintura corporal e as representações do corpo no esporte.

Dono de uma personalidade extremamente complexa, de inteligência vertiginosa, de brutal agilidade mental, Wlademir podia transitar com facilidade da doçura extrema à agressividade ácida, de fabulações maravilhosas sobre a origem e o sentido da escrita a previsões políticas catastróficas para o Brasil. Apaixonado pelo mundo vegetal, realizava em sua casa experimentos botânicos inusitados com cruzamentos de espécies e a “invenção” de novas plantas.

Neto de exilados anarquistas e filho de militantes comunistas perseguidos pela polícia de Getúlio Vargas, teve seu primeiro livro publicado por seu pai, um tipógrafo, quando tinha apenas 12 anos, em 1938. “Os corcundas”, considerado obra precursora da poesia pós-Geração de 1945, foi tomado erroneamente pela crítica como obra madura. Wlademir escondera propositalmente sua idade.

Sua origem, cheia de percalços e dificuldades, forjou uma forte timidez e um espírito aguerrido, muitas vezes turrão. Não fugia de uma briga, mas sabia perdoar e esquecia com gosto. Foi sujeito em brigas históricas. Sempre surpreendente, debruçava-se sistematicamente sobre o novo, o futuro, o inesperado. Mas conseguia sempre abarcar e pensar a História, tocar a origem das coisas e fazê-las vivas de novo, com o novo. Grande antropófago da cultura universal, uma boa definição para Wlademir pode ser encontrada no título de um dos capítulos de sua própria enciclopédia: “O olho dentro do olho: a pergunta se transformando em sugestão. O órgão-testemunha atravessando a história da humanidade. A descoberta da forma: diversidade e mutação.”

Morre (ou voa?) um gênio brasileiro. Triste agosto.



* Evandro Salles é diretor cultural do MAR e curador da mostra ”O poema infinito de Wlademir Dias-Pino”



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