Terça feira, 25 de setembro de 2018 Edição nº 15053 01/09/2018  










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Morre Wlademir Dias-Pino, aos 91 anos

Poeta e artista visual viveu grande parte de sua vida em Cuiabá;
Trabalhou na UFMT na década de 1970 e era um dos idealizadores da universidade na selva


ARQUIVO
O artista plástico Wlademir Dias-Pino criou a logomarca da UFMT
Da Redação

Morreu nesta quinta-feira, no Rio, aos 91 anos, Wlademir Dias-Pino, pioneiro da poesia visual. O artista não resistiu a um quadro de pneumonia, e o velório está marcado para o próximo sábado, às 16h, no Memorial do Carmo. Dedicado à arte até seus últimos dias, Dias-Pino estava preparando uma exposição para o Centro Pompidou, em Paris, até então sem data definida.

Nascido em 1927, no Rio, mudou-se ainda jovem para Cuiabá, onde fundou um movimento pioneiro de poesia experimental nos anos 1940, o intensivismo. Foi um dos seis poetas participantes da Exposição Nacional de Arte Concreta de 1956, ao lado de autores como Augusto e Haroldo de Campos e Ferreira Gullar. Na década seguinte, liderou vanguardistas de todo o país no grupo Poema/processo.

Nos últimos anos, continuava produzindo em sua casa, no Rio, trabalhos que desafiam limites entre gêneros, como a “Enciclopédia visual”, série de centenas de colagens que revê a história das imagens na cultura ocidental.

“Sou um pensador gráfico. Nunca me interessei pela dimensão narrativa da literatura, quis explorar a dimensão visual. Se alguém disser que o que faço não é literatura… Não ligo para gêneros. Mas a base de tudo para mim é o poema”, disse em entrevista ao DIÁRIO, em 2015.

Apesar de sua amplitude e de sua importância na história da literatura, das artes plásticas e do design gráfico no Brasil, a obra de Dias-Pino era pouco conhecida pelo grande público.

“O fato de Wlademir ter vivido muito tempo fora do eixo Rio-São Paulo, sua timidez e sua originalidade radical fizeram com que ele seja menos lembrado hoje do que deveria. Ele sempre seguiu um caminho singular”, avaliou Evandro Salles, curador da retrospectiva no Museu de Arte do Rio (MAR), com mais de 800 peças do artista, em 2016.

Esse caminho começou no Rio, onde Dias-Pino nasceu, em uma família de anarquistas. Filho de um tipógrafo, desde a infância gostava de brincar com tipos metálicos na gráfica do pai. Aprendeu a ler com a mãe, que o ensinou a desconfiar dos métodos escolares tradicionais. Dias-Pino atribuía a essa criação um traço fundamental de sua carreira, a busca por uma arte que escape da “prisão do código alfabético”, disse em 2015.

Nos anos 1930, a perseguição política do governo Vargas levou a família a se mudar para Cuiabá. Aqui, Dias-Pino publicou na gráfica do pai seu primeiro volume de poemas, “Os corcundas”, em 1939, quando tinha apenas 12 anos. Dias-Pino só lançou nacionalmente esse livro nos anos 1950, quando foi saudado pela audácia formal. A exposição sublinha o pioneirismo desse trabalho precoce e de outros, como “A fome dos lados” (1940) e “A máquina que ri” (1941).

A busca por novas formas de leitura levou Dias-Pino a criar o inovador livro-poema “A ave”. O autor produziu os 300 exemplares da única tiragem da obra entre 1948 e 1956. Nela, versos como “A ave voa dentro de sua cor” têm as palavras espalhadas pelas páginas, que vinham soltas, numa caixa, permitindo ao leitor recriar o poema de várias formas.

Nos anos 1960, depois da cisão entre os concretistas paulistas e os neoconcretos radicados no Rio, o autor buscou uma terceira via. Ela se cristalizou no movimento Poema/processo, criado em 1967, que aglutinou poetas de todo o Brasil em torno da idéia de que “o poema” podia estar em qualquer lugar: na arquitetura, na matemática, em performances ou imagens. Até o fim das atividades do grupo, em 1972, seus integrantes criaram obras como um poema-casa e uma intervenção que rasgou livros de Drummond e João Cabral de Melo Neto, acusando-os de serem “poetas discursivos”.

“Minhas obras estão todas ligadas num projeto que está sempre em processo. Nada tem conclusão em mim”, resumiu.

Durante os anos 1973 e 1978, fez parte do quadro técnico da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, e tentou implantar a chamada Universidade da Selva, um projeto utópico que seguia critérios de uma geografia, cultura e antropologia permeadas de pensamento indigenista, do qual dão fé inúmeras peças gráficas (revistas, livros, cartazes, boletins).

Em seu definitivo retorno ao Rio, em 1994, continuou trabalhando em várias frentes, especialmente em seu maior projeto, a "Enciclopédia Visual", da qual saíram seis volumes anunciando seu perfil heterodoxo.

Já nos anos 2000, voltou a ter destaque com a mostra individual de poemas eletrônicos (em parceria com Regina Pouchain, artista e companheira sentimental), "Contrapoemas & Anfipoemas" (2008).

Em 2015, ganhou reconhecimento na UFMT com mostra antológica, mas foi a partir da exposição retrospectiva "O Poema Infinito", no Museu de Arte do Rio (MAR), em 2016, que ganhou reconhecimento e divulgação.

Fruto disso, na sequência, foi convidado a participar da 32ª Bienal de São Paulo (já tendo participado das edições de 1967 e 1977) e, posteriormente, teve seu trabalho exibido no Centro Georges Pompidou, em Paris, e no Museu Reina Sofía, em Madri, que tem agendadas exposições de sua obra para este ano e o seguinte.

Sendo sempre uma figura cultuada, sobretudo dentro da poesia visual mais expandida, é objeto de numerosa fortuna crítica, incluindo Antonio Houaiss (que o saudou como "um dos melhores pesquisadores visuais" do país), Álvaro de Sá e Eduardo Kac, entre outros.

Apesar do reconhecimento dos últimos anos, ainda não existe nenhuma obra bibliográfica completa e à altura de sua prolífica diversidade. Uma aproximação valiosa, focada no período construtivo e posterior, é a publicação "Wlademir Dias-Pino: Poesia/Poema" (2015), organizada por Rogério Camara e Priscilla Martins.

Apesar da idade avançada, o poeta e artista visual trabalhava incansavelmente, com seu fiel assistente Otavinho, no projeto mais ambicioso das últimas décadas, sua "Enciclopédia Visual", composta por mais de 100 mil imagens, uma obra-arquivo rara avis, verdadeira linha de horizonte. Como poeta visionário, deixa um legado revolucionário, um além de confins imagéticos.



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