Quinta feira, 20 de setembro de 2018 Edição nº 15053 01/09/2018  










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RESENHA/ OLGA MARIA CASTRILLON MENDES

1. O ser atemporal (desterrado) na poesia de Everton Barbosa



A primeira criação poética de Everton Barbosa vem à luz pelo Prêmio Mato Grosso de Literatura, em 2016. Costumava lê-lo em crítica literária, especializando-se na obra de Ricardo Guilherme Dicke, com o qual percorreu a formação em nível de mestrado e doutorado. Everton torna-se conhecido, não apenas pelo que é (que pouco conheço) e faz como professor da Universidade do Estado de Mato Grosso, em Tangará da Serra, mas porque optou, como alma migrante, aventurar-se, acertadamente, nas searas da poesia. Encontro em Norte, (Cuibá: Carlini & Caniato, 2016), livro de estreia, aspectos de um hibridismo latente vindos de um ser atemporal. O homem desterrado, aquele que busca algo que nem ele mesmo sabe ou conhece, mas é pulsante, grita entre as entranhas que são ramos de árvore, chão, galhos que se lançam para lugares não pensados, soltam-se para se apegar (será?!).

Um primeiro livro, se não é suficiente para o julgamento crítico, é um desafio à leitura. Saído quentinho do forno, exala o resultado do cozimento. O exato tempero é o que se degusta aqui: a instigante maceração do alimento que brota da terra como advertência que “em mim aterra a terra de lá”. O que faço com a matéria que me impregna vira sonhos em que “deslizam minhas esperanças [...] em campinas livres”. E com ele (poeta) me apego à terra dos meus pais onde, diferente dele, sempre estive alimentando-me e me abrasando de sol e luares. Daí, talvez, a identificação leitor/texto, esta dupla que racha o chão da palavra, liberta e prende, traga e retorna das mais diferentes/disformes entranhas: “Libertar-me é retornar-me,/descobrindo o canto alegre /de meus avós, de minha voz /que encontra um Norte... /sempre um Norte /a orientar minha vista dirigida/para todos os outros cantos do infinito”.

Estes podem ser os fios que (des)tecem histórias de vida, épicas e memoráveis. Podem também ser a simbólica representação sertaneja, como em Beradêro/pau rodado, no melhor ritmo e na inexata forma de pensar o estar no mundo dos migrantes nordestinos em Mato Grosso: “Estes eram os matutos meus parentes...”; “Estes eram os candangos meus parentes...”; “Estes eram os paus rodados meus parentes...”; “Minha árvore primordial é um pedaço de pau rodado”. Benditos sejam na nova terra! Bendita seja a palavra dita no melhor apelo da criação poética.



2. Entre os nadas e a efervescência poética de Bicho-grilo



Em escritos poéticos inspirados e inspiradores, Bicho grilo, (Cuiabá: Carlini & Caniato, 2016), de Cristina Campos, traz o inusitado a cada desfolhar de páginas ricamente ilustradas. Som e palavra desfilam em “enxames-cardumes-alcateias-incêndios de imagens”, entremeados por “raio de sol molhado de chuva”, ou por “uma folha solitária [que] abana o rabo”. É pura potência imagética, polissemia geradora de símbolos. Rizomas a brotar do “inconsciente em constelações caleidoscópicas num pluri-espaço-tempo”. Enxurrada verbivocovisual de palavras ensandecidas, saltitando nas folhas, chamando o leitor à (de)composição.

O livro de tão simples, é complexo. A poesia fala por si: “é espinha de peixe fisgada na glote”, ou “semente alada embriagada de vento”, ou ainda “dor de uma árvore, que deixa os olhos perdidos no infinito de outros olhos e se perdem no infinito do meu ser”. Resta-nos sair por aí semeando raios do por-e-nascer-do-sol refeitos em palavras aladas, feito sementes em voos imaginários. Que leitor não se encanta?!

O livro tem ares de leveza, mas também de embriaguez pelas infinitas possibilidades da palavra alada, com halos e sentimentos: “A flor / é a dor / da árvore”. O eu poético se reveste de comunhão com o invisível, o etéreo, como se o infinito ser se banhasse das relações mais íntimas, no olho, espelhando almas que se completam (ou não!).

Há momentos em que o material se une ao inefável sem perder o sentido da relação homem/mundo natural: “Tenho um amigo/que ganha a vida/vendendo por-de- sol”. Entre o estar e o ser, há os quereres humanos que se extravasam em movimentos construtores da própria razão do existir. A poesia está, assim, para a vida, sibilando sons que muitas vezes incomodam, mas trazem mistérios, esperanças e fazeres humanos. Não é possível não perseguir o grilo.



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