Terça feira, 18 de setembro de 2018 Edição nº 15053 01/09/2018  










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Eduardo Mahon conversa com o intelectual João Antônio Neto

Da Reportagem

Na entrevista da semana, Eduardo Mahon e Cristina Campos conversam com o maior intelectual mato-grossense em atividade – o poeta, pesquisador, historiador, educador, filósofo, jurista e professor João Antônio Neto.



Mahon: Você tem quantos anos?

João Antônio Neto: 99 anos. Faltam 3 meses para os 100 anos de idade! (risos)

Mahon: Você algum dia imaginou que chegaria aos 100 anos?

João Antônio Neto: Não. Isso acontece na vida. Para mim, aconteceu felizmente, para o bem. Eu tive, na verdade, uma vida de sucesso literário, filosófico e profissional. Fui Presidente do Tribunal de Justiça por duas vezes, fui Presidente do Tribunal Regional Eleitoral, fui Corregedor Geral de Justiça. A minha memória continua boa, não tenho grandes apagamentos, apenas pequenos lapsos. Minha memória continua direitinha, hein?! (risos)

Mahon: Você é mais jurista ou poeta?

João Antônio Neto: Profissionalmente sou jurista. Mas minha alma é de poeta. Quando penso na minha identidade, respondo logo – sou advogado, porque foi como advogado que comecei a minha carreira, antes de ser juiz ou desembargador. Mas muito antes de ser advogado, fui professor primário, secundário e superior. Dei aulas de português, literatura, filosofia, psicologia e regionalismo.

Mahon: E onde está o poeta nisso tudo?

João Antônio Neto: Ahhhhh, sou poeta desde o ginásio, poeta desde sempre. Publiquei meu primeiro livro “Vozes do Coração”, com 17 anos. Ser poeta é um condição inerente à minha personalidade. Ou somos ou não somos. Fui aluno do Cesário Neto e do Benedito Figueiredo, meu professor querido e amigo. Eram, de fato, muito capazes. Entendiam o que falavam que entendiam. Esses professores eram muito versados em História. Comecei a ler literatura junto com história, por influência deles. Iniciei com Machado de Assis, Gonçalves Dias e por aí fui. Mas o meu autor preferido é Augusto dos Anjos, o maldito! (risos)

Mahon: Por que é o seu autor preferido? Você gosta dos malditos? (risos)

João Antônio Neto: Ele penetrou fundo na filosofia. Não foi apenas um poeta superficial e sim existencialista. O Augusto dos Anjos mexeu no fundo da vida, ou seja, na morte. Não me atrai o fato dele ser “maldito”, mas por ter tanto a dizer.

Mahon: Mas como é que você, com a sua poesia curta, sintética, modernista, se encaixa com a poesia de Gonçalves Dias ou de Augusto dos Anjos? Você pertenceu ao movimento modernista em Mato Grosso. Como é que isso aconteceu como um admirador dos romancistas?

João Antônio Neto: Isso aconteceu em função na nossa busca pela realidade. O romantismo é invenção, enquanto a poesia moderna é sinônimo de realidade. É por isso que gosto de Augusto dos Anjos que cuida somente da vida, a vida finita, a vida verdadeira.

Mahon: Quando leio seus livros Insignificâncias, Poliedro, Banquete de Palavras, Palavras Grávidas, Revelação em Palavras, entre outros, fico me perguntando quando você fez a escolha pela poesia moderna?

João Antônio Neto: Isso não é uma escolha, é um acontecimento. É preciso seguir uma determinada tendência literária. Não fui eu quem criou essa tendência, mas me inseri nela e a poesia moderna foi proclamada.

Cristina: Como nasceu a Revista Ganga?

João Antônio Neto: Éramos um grupo de amantes da literatura moderna. O Rubens de Mendonça, o Gervásio Leite e muitos outros. Publicávamos tudo, até os sonetos. Eu era uma espécie de “capitão da literatura mato-grossense”. Eu sempre fui apreciado pelos mais velhos, quer dizer, o meu trabalho literário, em favor da literatura, independentemente da minha linha particular. Nos dávamos com todos e tínhamos companheiros modernistas radicais como o Freire, por exemplo.

Mahon: Em todas as pesquisas acadêmicas, percebemos a predominância literária de D. Aquino e José de Mesquita no princípio do século XX. São marcos ou cânones, como se costuma dizer. Como você se relacionava com eles?

João Antônio Neto: O José de Mesquita era muito mais talentoso, adiante do tempo. Ele produzia prosa e história. No sentido mais moderno e abrangente, era melhor que D. Aquino. O Mesquita encarava a juventude com o maior interesse e amor paternal. Nunca ele defendeu um determinado lado, ele estava ao lado da cultura em geral. O Wlademir, por exemplo, era um criador original. Não tinha muita cultura, mas era de uma originalidade ímpar. Extremamente criativo, atividade mental moderna, diferente, criadora.

Mahon: Qual era o diferencial do Mesquita?

João Antônio Neto: O José de Mesquita se eternizou não por ser católico, como era comum naquele tempo. Ele não foi um “escritor católico”, e sim um escritor leigo, independente. Desligou-se dos critérios religiosos, do padrão tradicional. Ele era, antes de tudo, universalista, queria ver cultura, conhecimento, queria atividade. Não estava preso apenas ao modernismo ou ao classicismo. De jeito nenhum! Os novos elementos que chegavam nasceram sob a bandeira de Mesquita, aliás ele mesmo tinha muita coisa de moderno.

Mahon: Nesse contexto, como nasce a Academia de Letras?

João Antônio Neto: A Academia era uma coisa dominada pela elite. Não era pura valorização da literatura, mas aproveitamento político. Ela era composta por homens que governavam o Estado. Eu participei de uma mudança, de uma guinada. Muita gente nova e diferente, ligada à literatura, foi apoiada por mim. Quem deve entrar na Academia é quem tem conhecimento literário ou histórico, ou seja, ter conhecimento universal, essencialmente ligado à cultura. Eu acho que a Academia é uma casa cujos méritos são relativos. Tivemos acadêmicos ignorantes, que não tinham um livro sequer. (risos) O interesse político era importante pro camarada dizer: “eu sou isso, sou aquilo e sou acadêmico de letras”.

Cristina: Que horror!

Mahon: Em São Paulo, o modernismo chocou com Anita Malfatti e continuou desagradando o gosto aristocrático da elite paulistana. Como o modernismo foi enxergado em Mato Grosso: com afeto, com oposição ou com estranhamento?

João Antônio Neto: Com um certo estranhamento dos próprios intelectuais do Estado. O Gervásio Leite era um dos líderes modernistas, inclusive com um sujeito chamado João Antônio Neto (risos). Quando eu desconstruía o verso ou usava de recursos gráficos, diziam que era oportunismo. Esperavam que prevalecesse a corrente dominante que era o soneto. Eu não reagia. Segui o meu próprio método, o meu próprio caminho – dispensei a rima para adotar a poesia! Isso aconteceu com muita gente. O mundo que eu fazia parte, o jurídico, era essencialmente conservador, engessado. Mas a força do próprio movimento intelectual, que sobe a vai adiante, desconhece qualquer objeção por mais conservadora que seja. O movimento literário que cresce tenta amealhar o maior número de companheiros e “compreendedores” da questão moderna. O modernismo sublimou o mundo do Direito. O mais engraçado é a questão literária no Direito que serve apenas para alimentar prestígio: “ah, o fulano que é jurista escreve uns versinhos” (risos).

Mahon: Gostaria de entender a diferença entre os próprios modernistas.

João Antônio Neto: A cultura é o que estabelece a diferença. A leitura, a bagagem de cada um. É ela quem determina a superioridade ou inferioridade. Há algumas exceções. Pode ser que um grande poeta não tenha lido muito. A bagagem de leitura, claro, é muito relativa. Há muitos escritores medíocres lidos, eruditos. E há grandes escritores que não têm tanta leitura. Mas, no geral, o que determina a qualidade de quem escreve é a própria leitura.

Cristina: Além de Freire, de Gervásio, de Rubens, de Wlademir, quais outros que você cita ou qualifica como modernistas? Um Newton Alfredo? Otoniel Silva?

João Antônio Neto: A nossa geração era mais ou menos homogênea. É difícil destacar alguém além dos que você destacou. Eu lembraria de Maria Dimpina.

Mahon: Há estudos que indicam que Maria Dimpina rezava na cartilha do conservadorismo e, talvez por isso, teve a aceitação e a longevidade cultural que teve. Tenho cá minhas dúvidas dessa tese mequetrefe. O que você acha?

João Antônio Neto: Não. De jeito nenhum. A Maria Dimpina foi importante pela criatividade. Era uma pessoa extremamente moderna.

Mahon: Por que antigamente era comum colocar na capa dos livros “Da Academia de Letras” e na maioria dos seus livros, não há essa identidade?

João Antônio Neto: As pessoas se apresentavam assim porque era o costume. O livro precisava ter “um nome”, a pompa. Como se fosse um carimbo. Algumas vezes, o talento era inventado. (risos) As reuniões da AML na minha época eram muito abertas. Existia literatura, história e histórias. Era raro um debate formal. Fazíamos propostas para a cultura e isso era importante. O José de Mesquita era figura indispensável e universal. Quando ele morreu, no começo, houve um choque muito grande. Depois, conseguimos nos recuperar.

Mahon: Deve ter sido mesmo. O Mesquita, além de fundador, presidiu a Academia de Letras de 1921 a 1961, data da morte dele. Depois dele, quem foi o responsável pela recuperação, pelo fôlego novo da AML?

João Antônio Neto: Eu acho que a figura principal foi Gervásio Leite. Porque ele dominava o ambiente pela cultura que tinha e pela característica popular. Um sábio nascido do povo. Rompia com o elitismo na Academia, era povão. Ele era de origem humilde, negro, muito culto. Mas ele era tratado pelo talento, pela revelação da cultura geral que ele demonstrava.

Mahon: Agora vou te provocar, mas no seu próprio tempo. A AML não teve muitas mulheres no século XX. Ela foi composta amplamente por homens. Mas, em Cuiabá, havia mulheres como, por exemplo, Maria Dimpina. Por que tão poucas mulheres no seu tempo?

João Antônio Neto: Porque elas mesmas não se interessavam pela disputa, porque temiam a influência dos “donos da Academia”. Havia mulheres talentosíssimas que evitavam até falar sobre candidatura, sobre uma entrada. Não entrariam mesmo, de qualquer forma.

Mahon: E os outros segmentos populares?

João Antônio Neto: Sim, havia bastante tolerância e reconhecimento, mas entre homens. Não tinha qualquer restrição entre homens. A Academia era uma instituição “macha” (risos).

Cristina: É preciso imaginar o que era Cuiabá na década de 40 ou 50. Uma cidade pequena, com o pensamento provinciano. O costume, a tradição era não ter mulher como protagonista.

Mahon: E o Ricardo Guilherme Dicke? O que se pensava do Dicke?

João Antônio Neto: Achavam que ele era um pobre qualquer, sem representatividade. Mas nós modernos lançamos o nome dele, cultivamos o nome dele, reconhecemos o nome dele. Ocorre que era um camarada sem exigência pessoal, não disputava nada, ele apenas esperava. Dicke foi convidado para entrar na Academia, tentou se aproximar mais de uma vez. Mas não chegou. Exatamente por causa da questão conservadora.

Mahon: Qual a sua avaliação sobre a literatura mato-grossense? Superior? Inferior? Não deve nada a ninguém...

João Antônio Neto: Ela é mais regional e menos nacional, mas há valores universais. Porque tem muita coisa original, criada pelos escritores mato-grossenses. A obra de D. Aquino e do Mesquita é nacional. Mas o Mesquita era muito melhor. Isso é verdade.

Cristina: Mas o outro era mais político.

Mahon: A capa religiosa ajudava...

João Antônio Neto: O D. Aquino tinha autoridade, o título de “ar-ce-bis-po”, o bispo efetivo. Mas ele realmente tinha valor, mas não era vaidoso.

Mahon: Aí eu discordo. Quem sai de casa 6 horas da manhã com a batina engomada e aceitava ser chamado de “príncipe dos poetas”, é porque é muito vaidoso.

João Antônio Neto: Falo no sentido de que ele não abusava do próprio conhecimento que tinha. Era um sujeito extremamente culto, dominava várias línguas e, além disso, um grande companheiro. Não era preconceituoso. D. Aquino tinha posição e isso não é presunção.

Mahon: Vamos voltar ao Silva Freire. Como vocês encaravam um jovem produzindo de uma maneira absolutamente diferente. Qual foi o impacto da entrada dele na Academia?

João Antônio Neto: Ele foi aceito porque era uma figura histórica, já havia de tempos atrás dominando a cultura mato-grossense, naturalmente dentro dos limites dele. Não era uma pessoa orgulhosa, de jeito nenhum. Tive um conhecimento pessoal e muita amizade com ele.

Mahon: Hoje você tem um filho poeta – o Fábio Guimarães faz poesia de qualidade – tem netos e bisnetos. Qual a diferença entre o interesse pela literatura no passado e na atualidade?

João Antônio Neto: Não como antes. Aconteceu um recuo do interesse pela cultura. Depois, a vida material cresceu em detrimento da vida intelectual.

Mahon: Eu quero lembrar do prólogo do Bobo, de Alexandre Herculano. Esse trecho sempre me marcou. Ele compara a velhice a um edifício antigo que olha em torno de si e não se reconhece mais na cidade. Você olha em volta e se reconhece como deste tempo?

João Antônio Neto: Eu sou deste tempo!

Mahon: E isso que é o seu diferencial! Essa foi a maior herança do modernismo – a sensação de eterna contemporaneidade. Qual a sua sensação sobre o passado?

João Antônio Neto: Não vejo o passado de forma melancólica. Vivo o presente, sou deste tempo. Não tenho saudade.

Mahon: Eis aí o gérmen modernista novamente! O romantismo acha sempre o passado melhor.

João Antônio Neto: Eu estou muito bem no presente.

Mahon: Você se reconhece como um intelectual?

João Antônio Neto: Sim, eu sou um intelectual. O meu interesse principal é o problema da inteligência. Sou escravo do livro, do conhecimento, da curiosidade, da necessidade deste estado de espírito.

Mahon: E se eu te disser que você é o maior intelectual vivo em Mato Grosso?

João Antônio Neto: Não, não tenho essa pretensão e nem essa vaidade de ser o maior. Eu sou um dos vivos. Apenas um dos vivos.

Cristina: Sobre o que você escreve hoje?

João Antônio Neto: O meu interesse é sobre história e filosofia. Sou escravo da história. Não paro de consultar meus livros de filosofia. Eu gosto de tudo, dos clássicos à Kierkegaard, Schopenhauer. A minha poesia é filosófica, não é poesia de amor, do clássico romântico.

Mahon: Você tem uma poesia que reproduzi num dos meus livros: “oco, frio, cheio de vazio”. Acho isso o máximo. A palavra é genial, simplesmente genial. A exploração do pequeno, a brincadeira com a linguagem, com forte complexidade, com intensa significação, com tensão entre os paradoxos linguísticos.

João Antônio Neto: Ela é intencional. Fico muito atraído pelas palavras. Continuo escrevendo o Dicionário de Insignificâncias.

Mahon: Essas insignificâncias, o que elas têm de Manoel de Barros?

João Antônio Neto: Eu acho que o Manoel de Barros é um super criador, não só na forma, mas também no conteúdo. Ele não é para se ler brincando, é para se ler com seriedade.

Mahon: É muito engraçado porque as pessoas acham que a poesia dele é a busca do simples. Penso o contrário – chegar ao simples é um processo que demanda altíssima complexidade, profunda sofisticação.

Cristina: As pessoas gostam do laudatório, né? Eu também gosto da síntese.

Mahon: Você quer atingir a mente ou o coração das pessoas?

João Antônio Neto: Os dois. Tem que ser cérebro e coração. Eles estão juntos para corresponder à realidade. A vida é cérebro e coração.

Mahon: Você está satisfeito com a sua vida?

João Antônio Neto: Eu sou um homem feliz, tenho uma família formidável, tenho uma mulher que está morta, mas vivíssima. Olha aqui – ainda uso a aliança.

Mahon: Como você acha que será lembrado? O que dirão a seu respeito?

João Antônio Neto: Isso aí é muito relativo. Talvez digam: “olha aí o João Antônio, uma figura curiosa” (risos). Vão falar que sou um sujeito diferente.



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