Sexta feira, 23 de agosto de 2019 Edição nº 15052 31/08/2018  










* MAURÍCIO MORAES** DANIELA COCOAnterior | Índice | Próxima

Tabelamento do frete

Ano após ano, o agronegócio brasileiro cresce e confirma seu protagonismo na economia nacional. Em 2017, por exemplo, o setor colheu a maior safra de grãos da história, impulsionando o Produto Interno Bruto (PIB) do país e interrompendo a recessão econômica que durava dois anos. Esses bons resultados só acontecem porque os agentes da cadeia de valor, desde os fornecedores de insumos e produtores rurais até a agroindústria, trabalham arduamente, independente das intempéries naturais, políticas e econômicas.

A turbulência mais recente enfrentada pelo setor foi a greve dos caminhoneiros, que expôs a grande dependência de diversos segmentos da economia – entre eles o agronegócio – do modal rodoviário. Segundo a Confederação Nacional de Transportes (CNT), 60% de todas as cargas no país são transportadas pelas rodovias. Esse fato explica o porquê de o governo adotar diversas medidas para encerrar a greve.

O tabelamento do frete, sancionado pela lei nº 13.703 (08/08/2018)¬, foi talvez a medida mais polêmica tomada pelo governo para assegurar a renda dos caminhoneiros e interromper a paralisação. A medida foi muito questionada principalmente pelo agronegócio, que alega que o tabelamento é inconstitucional e teme que o aumento dos custos logísticos reduza a competitividade do setor, especialmente no mercado internacional.

De acordo com a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), o aumento no custo do transporte de grãos com a atual tabela de fretes pode chegar a 51%, considerando o frete de retorno, e 152%, se considerado o retorno do caminhão vazio, sem carga. Nas exportações, o Brasil, que possui custos logísticos maiores que os Estados Unidos, poderá tornar-se ainda menos competitivo devido à política de preços mínimos. Conforme a Plant Project, enquanto o Brasil gasta US$ 102 para levar a soja de Sorriso (MT) até a China, os Estados Unidos gastam apenas US$ 56 para fornecê-la aos chineses a partir de Illinois.

Além de elevar os custos de transporte, a tabela de fretes também impacta a comercialização da safra de soja 2018/19, que ainda nem começou. O impasse sobre essa medida dificulta a precificação da soja no mercado futuro e diminui as operações de barter. Dados da Associação Brasileira dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja) apontam que, até julho, apenas 17% da safra de soja 2018/19 foram negociadas em operações de barter, quando a média para o período é entre 30% e 35%.

Diante dessas dificuldades, as empresas adaptam-se e avaliam alternativas de negócios. As que compravam os grãos com a retirada nas fazendas ou nos armazéns estão comprando as commodities somente com entrega nas fábricas e nos portos. Outras estudam a verticalização do transporte por meio do aluguel ou da compra de caminhões.

Outra possibilidade seria investir em novas tecnologias para aumentar a eficiência dos processos e reduzir os custos com o transporte de cargas e o impacto do tabelamento. Um exemplo seria o Supply Chain 4.0, conceito que, por meio das inovações da Indústria 4.0 – Internet das Coisas (IoT), robótica avançada, big data e blockchain – propõe a adoção de soluções integradas para mensuração de dados e análise dos resultados em todos os processos. Quando feito de forma correta, o Supply Chain 4.0 proporciona custos de logística menores, gestão operacional eficiente e satisfação dos clientes, garantindo o crescimento sustentável das empresas.

Enquanto o impasse sobre o tema não é resolvido, o agronegócio brasileiro enfrentará desafios para manter seu protagonismo. As empresas devem preparar-se para os possíveis cenários regulatórios, buscando alternativas ao modelo de negócio atual que permitam ganhos de eficiência no escoamento da produção com ou sem tabelamento de frete.



* MAURÍCIO MORAES, Sócio da PwC Brasil, líder da indústria de Agribusiness

* DANIELA COCO, gerente sênior da PwC Brasil, especialista em Agribusiness

dialum.redacao@gmail.com



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