Quarta feira, 20 de fevereiro de 2019 Edição nº 15052 31/08/2018  










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Paul McCartney de volta com "Egypt Station"

Em novo álbum, inesgotável habilidade de McCartney se choca com teimosia

THALES DE MENEZES
Da Folhapress - São Paulo

Antes de classificar de bom ou ruim o novo disco de Paul McCartney, "Egypt Station", vale destacar como o trabalho consegue espelhar o melhor e o pior nas escolhas recentes do ex-Beatle.

De positivo, a inesgotável capacidade de criar preciosas harmonias assoviáveis. De negativo, uma teimosia de querer soar moderno, em associações com figuras bem-sucedidas das novas gerações.

Em faixas mais rock, como "Who Cares" ou "Come On to Me", dá algum trabalho identificar a pegada certeira do compositor em arranjos que deixam tudo meio parecido com a mesmice recente. Ouvir ecos de Coldplay em um disco de Paul McCartney ganha ares de sacrilégio.

Da fatia mais acelerada do novo disco, melhor dar atenção a "Hunt You Down-Naked-CLink", com riff pesado de guitarra e citação a "Back in the U.S.S.R.", culminando num longo solo de sotaque blues. São como três músicas diferentes agrupadas na mesma faixa.

Uma ótima notícia é perceber a volta de outro talento particular do compositor, que é a capacidade de emendar andamentos e harmonias muito diferentes dentro da mesma canção. Ele cria assim uma espécie de ópera rock em miniatura. E faz isso em sete minutos, no melhor momento de "Egypt Station".

"Despite Repeated Warnings" é o nome da complexa peça musical que vai direto para a mesma prateleira na qual Paul guarda dois de seus maiores hits, "Band on the Run" e "Live and Let Die". Parece ser a única canção com voltagem suficiente para funcionar em grandes estádios, e talvez ela faça este álbum ser menos esquecível do que o anterior de material inédito, "New" (2013).

Mas quando Paul resolve fazer o que faz melhor, não tem pra ninguém. Ele continua mestre na arquitetura das tais "silly love songs" ("tolas canções de amor", título de um de seus clássicos em carreira solo). É o caso de "Do It Now". Mesmo quando carrega bastante no tom meloso, como em "Hand in Hand", a melodia gruda imediatamente no ouvido.

O problema é que há muita coisa sobrando no álbum. A começar por "Opening Station" e "Station II", vinhetas sem maiores atrativos. Mais duas faixas não dizem a que vieram: "Confidante" e "Happy with You", essas estruturadas sobre batidas de violão, momentos nada inspirados.

Outras músicas são medianas. É inevitável perguntar se Paul ganha alguma vantagem com a produção de Greg Kurstin, nome por trás de inúmeros hits recentes, mas sem uma assinatura artística evidente. O sujeito produz de Foo Fighters a Adele, tentando colocar todos num mesmo caixote.

Em "Fuh You" há outra aposta de produção, dividida com Ryan Tedder. Líder da banda de rock rasteiro OneRepublic, é outro que trafega por vários estúdios deixando artistas cada vez mais palatáveis para os ouvidos urgentes do público jovem. Definitivamente, Paul não precisa disso e a faixa é a pior do álbum.

Ainda há a insistência em músicas de mensagens panfletárias otimistas, outra gaveta já meio lotada de Paul. "People Want Peace" aponta para a repetição de algo que ele já fez de forma marcante.

E o ponto mais curioso tem ligação direta com os brasileiros, tantas vezes visitados por Paul em suas turnês recentes. "Back in Brazil" conta uma historinha de garota encontra garoto, numa base de piano e alguma batida eletrônica. Tenta ser sacudida, em tributo ao Brasil, mas nessa tarefa o ex-Beatle poderia ter pedido ajuda a Sergio Mendes.

Com exceção de "Despite Repeated Warnings", nas futuras turnês de Paul as canções de "Egypt Station" que ele incluir no show serão um convite para o público ir tranquilo buscar uma cerveja, para depois voltar a se concentrar nos hits dos Beatles.



EGYPT STATION

ARTISTA Paul McCartney

LANÇAMENTO Universal Music, a partir de 7/9

AVALIAÇÃO Bom



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