Quinta feira, 22 de agosto de 2019 Edição nº 15043 18/08/2018  










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Um relógio bem passado

CRISTINA CAMPOS
Especial para o DIÁRIO

Para Aclyse Mattos

Teresa queria ir à missa, como em todos os domingos. Precisamente naquela semana de agosto, a filha e o genro encontravam-se em Miami fazendo compras. O marido Edgar inventara uma pescaria de fim de semana da qual não abriria mão, afinal estava dando peixe e os amigos se reuniriam na chácara do Pedro, com a intenção de cartear e pescar. Advertira-lhe com antecedência:

— No próximo fim de semana, você se vire com sua missa, porque já marquei pescaria.

— E jogo, né? Sei... E quem vai me levar à igreja?

— Que tal pegar um táxi, ou melhor, um Uber? Se vira, não conte comigo...

— Eu pareço viúva de marido vivo... — queixou-se, e ele nem tchum.

No sábado, Tetê ainda roncava quando Edgar saiu de fininho pela madrugada rumo ao Barranco Alto, em Santo Antônio do Leverger, munido de sua tralha de pesca e um engradado de cerveja. Gelo e isca compraria na estrada.

Ela acordou tarde, sorvendo um raro sossego silencioso que reinava em casa. Decidiu que, no dia seguinte, iria à missa de ônibus só pra variar, relembrar a juventude, quando este era o seu transporte corriqueiro para a escola e o trabalho. Durante o dia, preparou massas, assistiu a alguns filmes na companhia do ronronante gato Bombom. Antes de se deitar, regulou o despertador para as 06h00, a fim de tomar seu café da manhã sem pressa e se arrumar com tranquilidade. Deixou o relógio de pulso Baume & Mercier, em aço e ouro, estimado presente de bodas de prata que usava diariamente, na mesinha de cabeceira, os brincos e a maquiagem sobre a penteadeira, para ganhar tempo no dia seguinte. Tomou seus remédios e foi dormir.

Acordou no domingo assustada com o trrrrriiiiiiimmmm furioso do despertador. Levantou-se ligeiramente e fez um café que ingeriu com torradas, mel e queijo, comeu mais algumas frutas, aprontou-se e foi andando uma quadra até o ponto de ônibus. Resolveu assistir à missa na matriz, no centro de Cuiabá.

Apesar de cedo, o calor cuiabano já fazia jus à sua fama. Teresa tomou uma água de coco ao chegar na praça da matriz e foi para a igreja com a alma de fiel que se sacrifica para cumprir seu dever cristão. O sermão do padre versava sobre o amor paterno e como Deus, o Pai, ama tanto a humanidade que ofereceu o próprio filho em sacrifício para a remissão dos pecados de todos.

— Ótimo sermão, não? — comentou com uma conhecida que se sentara ao seu lado.

— Sim, este pároco é maravilhoso! — respondeu-lhe a outra.

Trocaram mais algumas palavras, despediram-se e ela se dirigiu lentamente ao ponto de ônibus. O calor aumentara, então abriu a sombrinha.

Tomou o ônibus e reparou que estava quase vazio. Passou a roleta e foi se sentar no penúltimo banco à direita. Pensava, magoada, na falta de consideração do marido por deixá-la sozinha no fim de semana quando notou, surpresa, que o relógio sumira de seu pulso.

“Meu Deus, fui roubada!” O coração acelerou, parecendo que ia saltar da boca. Buscou se acalmar e relembrar todos os seus passos até ali. Não se encontrara com ninguém, exceto o seu Manuel, do coco, e sua amiga Eulália na igreja. Não, não tinha sido antes e nem durante a missa. Só podia ter acontecido no próprio ônibus. Olhou em volta desconfiada e percebeu que havia uma mulher sentada mais à frente e dois jovens, que já se preparavam para descer. Eles tinham entrado no veículo depois dela e nem se esbarraram, então só podia ser a tal moça. Fixou os olhos na dita cuja e – voilá! – viu seu relógio no pulso da meliante. Que ódio! Com o coração mais acelerado, não sabia ainda ao certo o que fazer, mas não deixaria a ladra furtar-lhe um bem tão precioso, de estimação... Não mesmo!

De repente, a moça se levantou preparando-se para descer. Rapidamente, Tetê criou coragem, chegou-lhe por trás e encostou a ponta da sombrinha nas costas da criatura, dizendo com firmeza:

— Me passa o relógio! Rápido! E desça logo, senão atiro!

A outra, trêmula, tirou o relógio do pulso e entregou-lhe, sem olhar para trás, descendo do ônibus. Ficou olhando apalermada até o veículo desaparecer no horizonte.

Com as pernas bambas, Tetê desceu no seu ponto e correu até a casa. Abriu a porta com as mãos trêmulas mal conseguindo enfiar a chave no buraco da fechadura. Entrou, trancou a porta, passou o ferrolho de segurança e despencou no sofá. Achou que ia ter um enfarte. Após algum tempo, dirigiu-se à cozinha, tomou um copo de água com açúcar e voltou à sala. Abriu a bolsa, tirou de lá o relógio e contemplou-o. Só aí percebeu algumas particularidades: parecia mais velho que o seu, o vidro continha um risco, provavelmente em virtude de alguma queda, o fecho estava meio frouxo, enfim havia algo de errado.

Desconfiada, foi até o quarto e ficou surpresa ao constatar que o seu Baume & Mercier continuava sobre o criado-mudo, exatamente como o deixara na noite anterior.



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