Segunda feira, 19 de agosto de 2019 Edição nº 15043 18/08/2018  










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À margem

RODIVALDO RIBEIRO
Especial para o DIÁRIO

Mal abro os olhos e o turbilhão retorna. Desta vez dará certo. É fácil e pouco pra lembrar. Preciso me vestir. Não. Preciso tomar banho. Não. Antes devo escovar os dentes. Não. Antes devo comer alguma coisa. Melhor separar as roupas de hoje primeiro. Não. Primeiro mijar. Alívio. Podia durar. Quando dou por mim, já tomei banho (espero) e estou vestido no portão. Não dá pra sair, esqueci as chaves. Volto pra dentro de casa. Encontro o pão com manteiga e o resto de mortadela que seriam meu café da manhã. Consigo comer metade. O coração acelera um segundo antes do telefone começar a tocar. Maldito pressentir. Sempre causa decepções. Melhor retomar a saga da saída, escovo os dentes por via das dúvidas (foda-se. É melhor duas vezes que nenhuma), procuro e procuro as chaves e finalmente as encontro. No meu bolso lateral.

Novamente ao portão, espero que quem me ligou entenda. Não posso atender. Em algum lugar entre a cozinha, o corredor, o pão, o banheiro, eu me afoguei. A voz ainda está embargada demais, como sempre fica quando volto da morte. Pra piorar, minha paciência está no contrário exato disso. Só espero que ela entenda. Não queria deixá-la esperando a noite toda por um telefonema. Também não queria pensar em ligar. Sei que mesmo esperando ela não iria atender. Queria ouvi-la dizer perdão. Eu fingiria não ouvir e nos abraçaríamos. Essa porra de Uber nunca chega. Achei que fosse o portão, mas é a cozinha de novo. Não sei o que as chaves fazem na minha mão. A porra do Uber chegou. Não. Eu esqueci de chamar. A camiseta está do avesso, diz sorrindo uma vizinha. Eu lembro dos cadarços desamarrados. Ela pergunta se está tudo bem. Claro que minto.

Voltam a ligar e agora não há mais opção de não atender. Perguntam se está pronto. Eu digo uma meia verdade. Está sim (não falo que só falta escrever ou que sequer sei o que. Esqueci). Uma mensagem nova no Gmail. Abro pensando ser outra coisa. Novamente o coração dispara. Alarme falso. Só o livro. Agora voltou pra editora porque os filhos da puta da transportadora não conseguiram achar o endereço do antigo trabalho. E eu só queria esquecer essa merda toda de lançamento. Meter fogo em tudo. Como era na juventude.

Sou impedido por um contrato que me obriga a realizar ao menos uma noite de autógrafos e ainda participar de compromissos que marcarão pra mim.

Finalmente estou à porta de minha casa. Quando enfim vou entrar no Uber, um peixe gigante me engole. Não dá pra respirar aqui dentro. Meu peito quer explodir. Nada de Assíria ou cantos de marinheiros antigos pra mim. Quem dera ouvir cantar sereias. Não sou levado a Nínive. Só ao caralho do rio a 300 metros da minha casa.

Começo a me perguntar como ou por que o miserável do peixe nadava pelo ar e agora precisa de água. O telefone toca de novo e agora eu agradeceria mil vezes se tivesse ar pra falar, porque o vazio em meus pulmões e coração há muito ultrapassou a escala conhecida de dor. No fundo do rio, atravessando a pele fina do peixe, algo brilha no escuro. Penso na hora naqueles olhos idênticos a pérolas escuras. Espera em vão. Nada além de cascudos. E eles carregam toda sabedoria do mundo.

Um discursa longamente sobre a importância do desapego no existir fugidio e líquido da vida. O outro relembra a fragilidade de grãos de areia à presença de qualquer coisa. Água, vento, fogo, tudo transforma, dispersa, esparrama, desfaz. Conhece metáfora melhor para nossos sonhos e vida?

“Pouco importa o que ou o quanto se acreditou ser pra sempre. Só há duas constantes na existência. O nadar e o sofrer. Nenhuma das duas leva a lugar algum”. Mas o que sabem os peixes afinal? Ainda mais limpadores de fundo de rio?

Meu peito explode. Sangue é espirrado pra todos os lados em filetes simetricamente perfeitos. Minha carne se espalha como se eu fosse gado no açougue. À espera de separarem meus cortes. Conforme eu puxo ar, os finos jatos rubros aumentam consideravelmente de intensidade. Não sei como esse bicho não me vomita. Olho pra baixo de mim e vejo vísceras, nervos, minhas costelas. Penso num Pollock. Nunca entendera aquela porra. Dá vontade de rir.

O telefone de novo. É ela. Minha chefe. Pergunta se esqueci da pauta. Minto. Ela é cúmplice. Me manda pelo WhatsApp o local do tal evento e o assunto. Só preciso tomar banho. Comer algo. Me vestir. Encontrar as chaves. Malditas chaves. Roupas. Comida. Tudo parece ter vida própria. E tem por única diversão o esconder-se de mim.



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