Segunda feira, 19 de agosto de 2019 Edição nº 15014 10/07/2018  










FRANÇA x BÉLGICAAnterior | Índice | Próxima

Hoje sai o primeiro finalista

Multiculturais, França e Bélgica buscam unidade nacional na Copa

FIFA
Romelu Lukaku, da Bélgica
ALEX SABINO, DIEGO GARCIA E LUIZ COSENZO
Da Folhapress – São Petersburgo

Lilian Thuram, 46, campeão mundial de 1998 com a França, costuma dar palestras em escolas para crianças. Na periferia de Paris, de preferência.

Ele começa as apresentações mostrando um mapa do mundo de ponta-cabeça. Com uma régua, aponta para o continente africano na parte de cima do globo, não na debaixo, onde costuma estar.

A imagem é banal, mas a mensagem é poderosa. É uma maneira de ver o mundo ocidental de uma forma diferente, onde todos eles vivem.

"Quando as coisas vão bem, leio jornais e eles me chamam de Romelu Lukaku, o atacante belga. Quando as coisas não vão bem, eles me chamam Romelu Lukaku, o atacante belga de ascendência congolesa", disse o centroavante, artilheiro da Bélgica na Copa, com quatro gols, para o site The Player's Tribune.

Quando França e Bélgica entrarem em campo nesta terça (10), em São Petersburgo, para decidir uma vaga na final da Copa, ambas podem conseguir chegar perto de algo mais além da glória esportiva. O sentimento de unidade. Algo que os belgas, em uma sociedade das menos nacionais da Europa, nunca sentiram. Mas a França já, há 20 anos.

"O futebol tem a capacidade de ir além da questão esportiva e de deixar uma imagem que dura para sempre. A Copa pode ser uma ferramenta poderosa", disse antes do torneio o técnico da seleção belga, o espanhol Roberto Martínez. Um inédito título poderia ser o catalisador da união que a Bélgica, um país dividido até na língua, jamais viveu.

Existe a maioria flamenga, que fala holandês, e a minoria valona, que usa o francês. A capital, Bruxelas, é oficialmente uma cidade bilíngue, embora exista legião de tecnocratas da União Europeia que trabalha e vive na cidade sem falar nenhum dos dois idiomas, cercada por imigrantes trabalhadores de países africanos.

É desse caldo que saiu a geração de jogadores que chegou à semifinal na Rússia. Dos 23 convocados por Martínez, dez são filhos de imigrantes do Congo, Marrocos, Portugal, Martinica, Mali, Sérvia ou Kosovo.

A boa fase calou a boca dos que defendiam, nos momentos ruins, que a maioria flamenga deveria montar sua própria seleção. Uma espécie de variação da queixa feita por Lukaku de que, na derrota, ninguém é apenas belga.

É sentimento parecido com o francês, com a diferença de que o país já viveu o apogeu da unidade nacional após a conquista do Mundial de 1998.

Era o time "arco-íris", em alusão ao sentimento de que não importava a cor da pele dos jogadores. O astro, Zinedine Zidane, era filho de argelinos, e o homem que colocou o time na final com seus primeiros gols com a camisa azul, vermelha e branca (contra a Croácia), Liliam Thuram, nasceu em Guadalupe, no Caribe.

"Mesmo quando vencemos, a mensagem foi equivocada. Essa deveria ter sido que a França integra todas as pessoas, não importando suas crenças, origem, pele... O que ficou foi que o esporte é capaz de fazer isso, como se os imigrantes não esportistas não tivessem chance", afirma Thuram, hoje ativista de movimentos contra o racismo.

A seleção de 2018, comandada por Didier Deschamps, é mais multicultural do que o elenco campeão há duas décadas. São 19 jogadores filhos de imigrantes da África e de outros países da Europa. Apenas o goleiro Lloris, o lateral Pavard, o atacante Giroud e o meia Thauvin não se encaixam na descrição.

"Quando eu vejo essa seleção, eu não vejo a França representada. Nem a mim mesmo", afirma Marine Le Pen, política e líder da extrema direita no país.

Era um pensamento parecido com o do seu pai e mestre político, Jean-Marie Le Pen, para quem a seleção de 1998 não tinha muito de francesa.

Quando a equipe derrotou o Brasil por 3 a 0 na final com dois gols de Zinedine Zidane, o filho de argelinos, cerca de 1 milhão de pessoas tomaram o centro de Paris para festejar a conquista. Foi a maior aglomeração na cidade em tempos de paz.

Imigração é tema eleitoral em diferentes países da Europa. A França entre eles. Calais se tornou centro para africanos que tentam (invariavelmente sem sucesso) atravessar a estrada para o Reino Unido. Até os acampamentos serem derrubados pelo governo do país, a região mais próxima da fronteira era apelidada de "a selva".

"Eu acredito que as pessoas que viveram aquele momento em 1998 foram positivamente influenciadas pelo que sentiram", completa Thuram, na esperança de que a história possa se repetir e de forma mais duradoura a partir de Moscou, onde acontece a final, no domingo (15).

É algo que o futebol pode proporcionar também aos belgas, que contaram especialmente com filhos de imigrantes no trabalho de renovação de longo prazo da seleção local. Isso graças a um programa do uso do esporte para integrar imigrantes recém-chegados ao país.

Não que o futebol belga jamais tenha dependido de gente com ascendência estrangeira antes disso. Quando a equipe obteve seu melhor resultado em Mundiais, o quarto lugar de 1986, o astro da companhia era o irascível meia Enzo Scifo, filho de pais italianos nascidos na Sicília.

Desta vez seria algo muito mais forte. Porque a Bélgica não pensa em repetir a campanha do Mundial do México, há 32 anos, e estar na semifinal não basta. Ela sonha com um título para sua multicultural seleção.



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