Quarta feira, 24 de abril de 2019 Edição nº 14978 17/05/2018  










EDUARDO GOMESAnterior | Índice | Próxima

De retrógado

História não se reescreve, se transcreve. Digo isso em relação a 1964 em razão de fatos inventados, distorcidos ou descontextualizados que são apresentados décadas depois de sua suposta existência, e em tom vingativo acima do marco regulatório da anistia ampla, geral e irrestrita em mão dupla como o próprio nome sugere. Entendo que a luz sobre a imaginária linha que separa o suportável do insuportável – no contexto do país enquanto Estado – permanece apagada enquanto as trevas rondam o Brasil

Quem viveu 1964 sabe que à época o mundo estava à sombra da guerra fria. À frente do governo, Jango Goulart, comunista, apoiado por uma minoria ideológica que assustava por seu discurso de ódio entre classes, pelo propósito de quebrar o direito de propriedade e de fuzilar fazendeiros, empresários, religiosos e políticos democratas. Contra a esquerda, civis e as Forças Armadas derrubaram Jango e o cuiabano 16º Batalhão de Caçadores do Exército (16º BC) tendo à frente o coronel Meira Mattos ocupou o Palácio da Alvorada.

Castelo Branco assumiu o poder ungido pelo Congresso. A resposta foi imediata: entraram em cena grupos guerrilheiros. O mineiro Gilnei Viana ganhou fama na guerrilha; condenado por assassinato de inocentes (o fim justifica os meios) foi trancafiado até o indulto de anistiado leva-lo de volta à luz do sol. Em Mato Grosso, pelo PT, Gilnei disputou a prefeitura de Cuiabá, foi deputado federal e estadual. Mesmo com as mãos manchadas pelo sangue, Gilnei nunca foi cobrado por seus crimes: sempre prevaleceram as regras da anistia.

Estamos numa quadra delicada em função dos ataques ao Exército e a política de desconstrução de Geisel e João Figueiredo, com muita força nas mídias sociais e na imprensa. Não somente pela formação militar, que não permite braços cruzados diante da fúria inimiga, mas principalmente pela ameaça que resultou em 1964 agravada pela corrupção e as vantagens aos três poderes em todas as suas esferas, a caserna pode acender a luz sair às ruas e tomar o poder aplaudido e nos braços do povo, que está de saco cheio, desencantado.

A minoria irritante quer instalar um governo comunista e fechar o estreito caminho por onde o Estado Brasileiro busca o desenvolvimento e a paz social, mesmo no mar de lama em que nos encontramos. Esse inferiorizado número de cidadãos tem visão monocular: enxerga os erros dos que pensam de outro modo, mas não Não sei até quando as Forças Armadas permanecerão caladas, no escuro. Avalio que se quebrarem o silêncio em nome da salvaguarda nacional novamente ouviremos – 54 anos depois de 1964 - a mesma canção da esperança, da moralização e do amor pátrio nessa terra ameaçada por pensamento retrógado, democracia à parte.



EDUARDO GOMES DE ANDRADE é jornalista

eduardo@diariodecuiaba.com.br



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