Terça feira, 20 de agosto de 2019 Edição nº 14977 16/05/2018  










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Kimberly Harrington e dilemas femininos

Descompasso real entre maternidade e trabalho vira piada em novo livro

FERNANDA MENA
Da Folhapress - São Paulo

"Eu tenho dois filhos e sofro a pressão velada de fingir que eles não existem quando eu estou numa reunião por telefone."

Essa é uma das muitas tiradas sarcásticas e divertidas que a escritora e roteirista norte-americana Kimberly Harrington usa para descrever os dilemas da mulher contemporânea sobre maternidade e vida profissional.

Ela está no livro "Amateur Hour: Motherhood in Essays and Swear Words" (coisa de amador: maternidade em ensaios e xingamentos, Harper Perennial, R$ 38 em ebook na livrariacultura.com.br), recém-lançado nos EUA.

Harrington, mãe de um casal de adolescentes, faz uma abordagem franca e contundente da chamada "maternidade real", em que ideias de satisfação e harmonia são temperadas por medos, frustrações e noites maldormidas.

"O título do livro remete à ideia de alguém que não sabe o que está fazendo, o que nos pareceu adequado tanto para a parentalidade em geral como para a maternidade especificamente", explica Harrington, por telefone, à reportagem

A obra ganhou atenção antes mesmo de seu lançamento ao ter trechos publicados no The New York Times e na revista New Yorker.

"Achei que estava escrevendo sobre mim, de maneira aberta e honesta, quase vulnerável. Mas o tamanho da repercussão me fez perceber que havia tocado em pontos muito além da minha experiência pessoal", afirma.

Para ela, a maternidade é uma espécie de retorno à puberdade: repleta de inseguranças e vulnerabilidades.

"Eu estava tão bem resolvida nos meus 30 anos, quando tive meu primeiro filho, e foi humilhante ver minha confiança ruir diante de uma criança que me mostrava como a ideia de ter tudo sob controle tinha virado uma farsa!"

Harrington lembra que passou a encarar o mundo como ameaça ao filho: tomadas, bacias de água, uvas inteiras, quinas de mesas.

Sensação semelhante bateu à porta da roteirista e colunista da Folha de S.Paulo Tati Bernardi, junto com a chegada de sua primeira filha, três meses atrás.

"Ando sofrendo muito de medos. Que ela fique doente, gripada, tenha dor, fique triste, engasgue etc. E isso é terrível. Eu nunca mais tive paz e sinto muita falta de dormir por dez horas seguidas."

Os ensaios de Harrington abordam essa montanha-russa emocional com especial atenção para o desarranjo entre filhos e trabalho. Segundo ela, ser mãe é um trabalho em tempo integral ainda que você já tenha um emprego formal em tempo integral.

"Você nunca vai encontrar alguém mais eficiente do que uma mãe. Ao mesmo tempo, olham para ela como se os filhos a tornassem menos eficiente", afirma. "Só que ninguém pensa isso sobre homens que são pais! É muito irritante!"

Ela avalia que a força do debate sobre assédio, fomentado por campanhas como #MeToo e Time's Up, abriu caminho para que mulheres questionassem "como as coisas funcionam" em outras áreas.

"Se um negócio foi criado por um homem, terá sido desenhado para funcionar para homens, e não para mães. Faz sentido. Até porque as mães não faziam parte da força de trabalho até relativamente pouco tempo atrás", afirma.

Para a jornalista Barbara Soalheiro, 37, que criou sua empresa, a Mesa e Cadeira, em 2013 -no mesmo ano em que nasceu o primeiro de seus três filhos-, parte do problema se deve ao fato de as mulheres esconderem a maternidade das vidas profissionais.

"Sempre tive a sensação de que as mulheres precisavam provar sua competência, e que parte dessa fragilidade tinha a ver com o fato de algumas serem mães."

Ela cita o livro da executiva do Facebook Sheryl Sandberg, "Faça Acontecer" (Companhia das Letras, R$ 44,90), em que ela conta que costumava sair mais cedo do trabalho, mas não dizia que o fazia para buscar os filhos na escola porque se sentia constrangida.

"Acho que o caminho é justamente o contrário porque existe uma equação que não fecha e sobrecarrega as mulheres", diz ela. "Muita gente me vê trabalhando até de madrugada e se surpreende quando descobre que tenho três filhos. Mas ninguém fica surpreso quando meu marido conta que é pai de três."

Para a vice-presidente de marketing, inovação e sustentabilidade da Natura -e mãe de três filhos-, Andrea Alvares, 46, é muito importante deixar claro na empresa que ela vai trabalhar de casa para ficar com os filhos ou sair mais cedo por conta deles.

"Acho que quem ocupa posição de liderança como eu tem o papel de dar o exemplo desse comportamento."

COMPARTILHAR CUIDADOS

Para a executiva, "seja por hábito, inércia ou cultura, as mães assumem fatia maior que seus companheiros no cuidado com os filhos, acumulando funções que se mostram insustentáveis no tempo".

Harrington ilustra esse ponto ao ironizar o modo como ela e o marido chegam em casa. No caminho da porta até o banheiro, ela junta brinquedos espalhados pelo chão, realoca coisas fora de lugar, assoa o nariz da filha e tira o jantar da geladeira.

"Meu marido simplesmente entra e, passando por cima das coisas pelo caminho, vai ao banheiro. Fim", ri ela.

Para a autora, em muitos casos (mas não no exemplo da entrada do marido, ela deixa claro), a postura da mulher promove esse descompasso.

Isso porque algumas mães tendem a achar que só elas conseguem fazer certas coisas e, por isso, não conseguem pedir ajuda. "Elas precisam se perguntar: 'Eu quero que meu marido faça ou quero dizer a ele como fazer?' Não dá pra ter as duas coisas."

Alvares admite que só quando se divorciou que conseguiu criar um arranjo mais igualitário com o marido.

"Eu passei a ver meu ex-marido fazendo várias coisas que eu achava que ele não faria sozinho, e consegui mudar a forma como eu mesma distribuía responsabilidades", admite.

A médica mineira Júlia Rocha, 35, mãe há pouco mais de um ano, vive situação oposta.

"Trabalho 56 horas por semana, e meu marido trabalha em casa, então ele faz o que esperavam que eu fizesse", relata. "Ainda que eu seja bem resolvida com esse arranjo, quando chego em casa e percebo que perdi tantas horas de intimidade com a criança, corro para compensar."

INIMIGOS DA MATERNIDADE - Em seu livro, Harrington aponta que as mães vivem em constante expectativa de serem perfeitas, mesmo que estejam "mais perdidas e vulneráveis" do que nunca.

"É impossível fazer tudo com perfeição, ainda que as pessoas nas redes sociais criem a ilusão de que são mães perfeitas e profissionais perfeitas ao mesmo tempo", diz. "É tudo simplesmente falso!"

A cineasta Carolina Jabor, 42, conseguiu desviar deste conto de fadas. "Eu não acredito nessa idealização da mulher que é bem-sucedida, malha, cria bem os filhos, que seria uma escravidão."

Ela conta ter levado o primeiro de seus dois filhos a sets de filmagem para dar conta do trabalho. "Era o walkie-talkie numa mão e o meu filho no peito", lembra.

"Hoje, se estou trabalhando, aviso: 'Vocês vão ter de ficar carentes. Mas eu volto logo'. Ao mesmo tempo, quando estou com eles, não respondo email e tento deixar o smartphone de lado -ele pode atrapalhar muito a vida pessoal, e meus filhos me cobram que fique longe do aparelho. Senão começo a trabalhar."

Para a advogada Eleonora Coelho, 44, uma das maiores especialistas em arbitragem do país e mãe de dois, a maternidade exigiu flexibilidade no arranjo de trabalho, o que a fez deixar um dos maiores escritórios do Brasil, que não topou sua proposta, ainda que ela não implicasse em menor trabalho.

"Depois da maternidade, você não fica batendo papo ou fazendo social. Foca no que precisa fazer, e faz bem feito. Mas existe um viés inconsciente, e a mulher tem de trabalhar mais e ser mais competente que o homem para ser reconhecida como ele."

Hoje dona do seu próprio escritório, Coelho mantém uma sala de trabalho em casa, fechada por uma porta de vidro. "Aprendi a não fazer conferências em vídeo porque algum filho sempre bate à porta com algo que diz ser urgente, e eu fico tentando responder com mímicas", diverte-se. "A gente tem que se virar."



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