Sábado, 23 de fevereiro de 2019 Edição nº 14975 12/05/2018  










LIVRO/CRÍTICAAnterior | Índice | Próxima

Nu, à luz da poesia de uma jovem de 16 anos

As confissões da jovem poeta Helena Werneck dos Santos em seu primeiro livro

LUCINDA NOGUEIRA PERSONA
Especial para o DIÁRIO

Helena Werneck dos Santos surge para a literatura mato-grossense através do 2º Prêmio Mato Grosso de Literatura 2016, contemplada na categoria revelação, com seu livro Nu.

Já de início, num contexto surpreendente, descobrimos que a poeta, com o belo nome da heroína machadiana, conta apenas dezesseis anos de idade. E um livro de poemas nessa idade é o fiel testemunho de um legítimo pendor ou de uma real disposição que pode ser verificada também ao longo da leitura. De fato, as elaborações de Helena provocam, a cada trecho, um pausado espanto, pela adolescência dos tons ao lado de uma maturidade afetiva angustiada. Seria o caso de se dizer que na claridade juvenil perpassa a sombra da angústia.

O curtíssimo e sugestivo título, Nu, foi tomado por empréstimo do poema com o mesmo nome e contém confissões da jovem poeta, sem afetação nem disfarces. É pertinente convir que tal vocábulo possui reconhecida potência e um caráter múltiplo, trazendo em seu bojo infinitas convocações e devaneios. Desse termo serviu-se João Cabral de Melo Neto para escrever o poema “As formas do Nu”, com seu particular estilo e rigor construtivo.

Vencido o desafiante pórtico em que se constitui o nome do livro é necessário constar que o poema “Nu”, à luz da poesia, expõe um conflito em torno de um “poema sem tema”, um poema despojado de vários atributos e vestiduras, onde assistimos a um embate de opostos, quando o ser poético parece dissolver-se em certo cansaço para, logo em seguida transferir, possivelmente ao leitor ou seu interlocutor poético, a tarefa de usar a devida roupagem e adereços.

Esse legado de emoções da juventude e assuntos associados à vida comum da poeta traz à baila combinações de muito fôlego, elaborações sérias, divertidas, ternas e dramáticas. Desde o poema de abertura, as interações com o mundo são reveladas quando a poeta, em clima denso, comanda: ”Sirva-se do caos”, provavelmente em alusão à música “Sirva-se do caos / que causou” (City In Flames), para depois avançar autêntica e livre:

Livre

Como um pássaro negro,

Aquele que adormece em seu telhado,

E vigia seus passos.

As composições de Helena Werneck quase invariavelmente são fundadas no amor nessa estreia literária, tanto que nela encontramos, confessadamente, um poema intitulado “É que eu gosto de escrever sobre amor”, seja um amor que não pode ter, seja um “Amor morto”, sejam “Amores repentinos”.

Além dos sopros de Eros, os textos da autora destacam a amável postura da menina que caminha pela vida e conta o que acontece com o desprendimento, a pureza e a coragem próprios da juventude. Às vezes, chorando “Um mar inteiro” por alguém, conforme ocorre em “Mudança”. No referido poema, assistimos ao desenrolar de uma emoção (declarada no verso inicial) e que aos poucos vai oferecendo imagens metafóricas onde o pretenso ser orgânico é diluído na própria natureza e então se transforma, perdendo a carnação humana e adquirindo uma inusitada geografia, mostrando o poeta (alquimista em alto grau) no resgate e na resolução estética de um sentimento.

Com as marcas de uma legítima inspiração e arrojada inventividade, a autora realiza uma jornada em que põe em jogo divertidos recursos de linguagem, a exemplo de “Dores e alegrias”:

Todas minhas dores estão aqui:

Para vocês verem,

São como doces estragados expostos na vitrine,

São como velhas murchas vestindo biquíni,

No exercício da palavra, quando o protocolo amoroso ganha terreno, Helena Werneck projeta confidências de solidão através de imagens que espelham o eu poético e o ser amado num misto de irônico desespero e terna evocação, conforme expressa em “Tabaco”:

Se você some, eu perco o rumo

Se você volta, eu fumo

Fumo teus olhos de gueixa,

Fumo tua cara de sã,

Só não some de novo,

Que meu peito, feito rã,

Desatina a pular,

Por você

Sem você,

Na noite fria.

Frente ao mundo, a poeta exclama: “Quanta gente, / Já passou por mim” e se detém para refletir sobre a “Mãe solteira” que parece observar casualmente numa viagem. No campo da memória, sente saudades de um “Primo” e engenhosamente restaura a figura querida. Em outro momento, para demover alguém de um funesto desejo, ela escreve “12 tarefas para se fazer antes de morrer”.

Ao lado da precocidade e da fluência de seu pendor poético, Helena dá mostras de não ignorar as dificuldades da escrita e da árdua/arriscada condição do poeta na execução de seu ofício em “Alguns escritos doem”:

Escrever algumas coisas,

É como marcar o gado,

Gente,

Gente do céu!

Como dói, né...

Na mesma medida em que a palavra “dor” remete ao famoso poema de Fernando Pessoa, a afirmação da autora sobre “a dor que deveras sente” reporta ao que já precocemente compreende acerca do crucial processo da escrita, ou ainda, acerca do desamparo ao qual está exposto o operário da palavra.

Em Helena Werneck, a poesia nasce da contemplação amorosa de um universo imediato: urbano e familiar. Essa sensibilidade ao entorno humano, traço saliente ao longo do livro, aparece em “Pessoas na vida da gente”:

De onde você veio?

Chegou como um anseio

Como brisa em centeio,

E ficou.

Louvando essa belíssima imagem “brisa em centeio”, depositamos em dois verbos: “chegar” e “ficar”, as boas-vindas e os mais caros votos à jovem Helena Werneck, que chega com voz suave, otimista, cheia de vitalidade. Chega para remoçar o entusiasmo de que tanto necessitamos. Que ela fique/permaneça desvelando novos sonhos no território sempre novo da poesia.



*Lucinda Nogueira Persona é Professora e poeta. Cadeira n. 4 – AML.





Anterior | Índice | Próxima

Comentários Deixe aqui sua opinião sobre esse assunto




19:46 Lucimar Campos lança R$ 65 milhões em obras
19:45 Deputados decidem na segunda se votam por soltura de Savi
19:45 Manobra por reeleição deve criar embate jurídico
19:44 Silval é condenado a 14 anos de prisão
19:43 Bandidos assaltam Correios em Sinop


19:42 Servidores do socioeducativo entram hoje em greve
19:42 GCCO faz nova operação contra facção criminosa
19:40 Jayme não gosta da proposta de Mauro ser vice de Pivetta
19:40 BOA DISSONANTE
19:38 Garcia Neto – o estado-solução
Cuiabá
Min: 18°
Max: 36°

TOPO | PRIMEIRA PÁGINA | ÚLTIMAS NOTÍCIAS | POLÍTICA | ECONOMIA | CIDADES | POLÍCIA | ESPORTES
BRASIL | MUNDO | DC ILUSTRADO | CUIABÁ URGENTE | EDITORIAIS | ARTIGOS | AZUL | TEVÊ | E-MAIL
Diário de Cuiabá © 2018