Sexta feira, 22 de fevereiro de 2019 Edição nº 14972 09/05/2018  










AUREMÁCIO CARVALHOAnterior | Índice | Próxima

O salvador da pátria

Sem dúvida alguma, o atual cenário político brasileiro no que se refere às eleições de 2018, é amplamente confuso, caótico, e imprevisível. Na se vislumbra uma luz ao final do túnel, ou melhor, nem sequer, o final do túnel. Tudo é possível, desde um radical de Direita - Bolsonaro até, acreditem, a volta de Collor; ou quem sabe, a asséptica, incolor Marina Silva. Lula está inelegível e preso - por mais que seus seguidores falem em perseguição política, todas as instâncias judiciais pensam diferente-TRF-4, STJ e STF; até o momento não viram ilegalidade flagrante nas sentenças do juiz Sérgio Moro e aumentada pelos desembargadores do TRF-4.

No fundo, o que o brasileiro quer e espera é o aparecimento de um “salvador da pátria”, um mágico, um David Copperfield que fará sumir a “estátua da liberdade” das mazelas e corrupção brasileiras. Aliás, a história política está cheia de salvadores da pátria: Lenin, Stalin- o carrasco da Rússia; Hitler, Getúlio Vargas, Collor; e os que estão aparecendo hoje no Brasil: Bolsonaro, Joaquim Barbosa; Meirelles; Temer, etc. O eleitor não sabe votar? “Os políticos são isso aí! os políticos conversam, brigam em debate, eles ficam dando risada do povo, roubam dinheiro e nós ficamos com a cara de pateta e ainda vamos votar neles. Por mim, eu votava tudo em branco. Tudo...!

Deixava pra ver o que acontecia. ”– disse um eleitor em pesquisa eleitoral. Geralmente, o eleitor decide em função do “produto” apresentado pelos marqueteiros: cenários deslumbrantes, sorridentes e bem maquiados, promessas da arca de Noé; lagrimas familiares - “veio do nada; retirante, venceu... como você”. Mas, pode dar num mensalão, Lava Jato ou impedimento. Ideias, planos para o país, políticas públicas... depois da eleição, a gente informa... O eleitor quer camisa de futebol; consulta médica, tijolo, show... assim, ao final, recebe o que comprou. O perfil do eleitorado brasileiro tem mudado ao longo da últimas décadas. Em relação à escolaridade, 19,2% dos mais de 146 milhões de eleitores em 2014, concluíram o ensino médio. Em 2010, possuíam o mesmo grau de instrução 13% dos cidadãos de mais de 135 milhões de cadastrados.

O levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontou que cerca de 10 milhões de eleitores possuíam diploma de ensino superior, 6,9% do total – em 2010, 5,2 milhões haviam concluído a universidade, 3,8% do total; 4,8% eram analfabetos, e 10,6% apenas sabiam ler e escrever, em 2014. 52,3% eram mulheres e, 47,7% homens. Mesmo sendo maioria, as mulheres entram na “cota” dos 30% de candidatos, apenas para cumprir a lei, tratadas pelos partidos políticos, como os “movimentos sociais” fazem com seus militantes: mortadelas ou coxinhas - massa de manobra, não precisam pensar. Assim, não é difícil - segundo pesquisadores- conhecer o perfil do eleitor médio no Brasil: desinformado, desinteressado e pouco participativo. Não mais que 20% da população acompanha com frequência o noticiário político.

As explicações para essa constatação são diversas. Talvez a mais gritante seja o eterno descrédito dos governantes com seus governados, que desde a Colônia são vistos como elitistas, corruptos e despreparados. Por outro lado, parece haver uma cultura local preconceituosa com a classe política, tal que os cidadãos “de bem” não são atraídos para as atividades políticas, alimentando um ciclo vicioso de representantes de baixa qualidade, o chamado “baixo clero”, como dizia Nelson Rodrigues, “os padres de passeata”. Você, prezado eleitor, se lembra em quem votou na última eleição e, se eleito, sabe o que ele está fazendo? A exploração da ignorância e pobreza não tem partido, embora alguns são mais hábeis do que outros na arte da mentira e da manipulação.

No Brasil, após o restabelecimento do regime democrático - (1984), isso se tornou a regra geral. Mas se voltarmos um pouco na nossa história política não é difícil entender porque mesmo o governo militar, por exemplo, deu um peso maior para a representação política dos estados do norte e nordeste no intuito de, apesar da excepcionalidade da situação institucional do país à época, obter maior apoio no congresso nacional. Os eleitores “cativos” estão mais próximos do poder dos governos “pai dos pobres” do que de suas ideologias ou mesmo princípios. O Bolsa Família ou o “minha casa meu voto” falam mais alto do que a consciência política: “roubou, mas ajudou os pobres”. No pleito em que Dilma foi eleita a primeira vez, sucedendo Lula, nas caravanas ao nordeste e norte, um fato chamou a atenção da mídia e foi explicado por uma assessora do ex-presidente, relatou que, na época, uma grande parte do eleitorado da região chegava a acreditar que o Brasil “poderia deixar de existir” caso o ex-presidente encerrasse seu mandato.

E mais, estavam dispostos a votar em Dilma Rousseff porque entendiam que ela era a esposa do ex-presidente! Diante do espanto e incredulidade dos jornalistas, assessora fez um comentário dogmático: “estão vendo como vocês não conhecem o país onde vocês estão?” Parece que este desconhecimento continua até hoje, não só na mídia, mas no povo em geral. Diante das evidências que têm sido apresentadas pelas diversas investigações em curso no Brasil relacionadas à corrupção e também da trágica e caótica situação econômica e institucional na qual o país foi literalmente arrasado, é muitas vezes difícil de entender o porquê de vários personagens políticos ainda contarem com o apoio de eleitores cativos desinformados ou que se fazem tal; sem enxergar o abismo em que estamos. Daí, o recurso do salvador da pátria, o messias esperado.

Em 1989, foi ao ar a novela “O Salvador da Pátria”, em um momento importante da política brasileira, marcado pela volta das eleições diretas para Presidente. Deu Collor. Agora, temos outra: ”Deus Salve o Rei”. Vai dar quem? Lula, Bolsonaro; Ciro Gomes...? A democracia tem uma grande lição: exige que os que estão em melhores condições de cultura política - sem qualquer preconceito contra o eleitorado que temos - votem para resgatar os desprovidos, os menos favorecidos, os marginalizados eternos da história brasileira. O outro vota. O voto do outro quando permeado pela ignorância, revolta, indiferença, protesto, vai definir o destino de todos nós e não só do outro. Esse será o resultado, queiramos ou não. E com relação aos eleitores/as que têm acesso a informação e ao conhecimento, mas continuam a eleger/reeleger tantas figuras carimbadas da corrupção? Esses, talvez Freud ou algum outro guru possa explicar. “O pior analfabeto é o analfabeto político” - Humberto Eco - cientista político e filósofo italiano.



* AUREMÁCIO CARVALHO é advogado e sociólogo

auremacio.carvalho@hotmail.com



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