Domingo, 15 de julho de 2018 Edição nº 14962 21/04/2018  










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Cirurgias devolvem visão a milhares

Caravana da Transformação mistura ação social com política de saúde pública atendendo principalmente a faixa etária da terceira idade

DINALTE MIRANDA/DC
Dona Nair Martin: “estou igual passarinho; ganhei asas pra voar”.
EDUARDO GOMES
Da Reportagem

Imagine como seria enxergar algo através do fundo de uma garrafa de Coca Cola. Em muitos casos, é assim com quem tem catarata, principalmente quando a opacidade do cristalino é quase total, o que limita muito a visão. Essa situação, que aflige milhares, principalmente na terceira idade, nunca foi enfrentada em Mato Grosso como problema de saúde pública, mas esse enfoque mudou depois que o governo estadual criou a Caravana da Transformação. Em 12 edições nos polos regionais foram realizadas 47 mil operações de cataratas. Em curso na Arena Pantanal, em Cuiabá, desde 16 deste abril, a 13ª edição da Caravana aumentará esse número para mais de 60 mil cirurgias. Dona Nair Martin, está entre os atendidos pelos oftalmologistas que em média realizam diariamente entre novecentos e 1.000 procedimentos cirúrgicos.

Aos 66 anos, dona Nair Martin vivia o dilema da “visão curta”, como diz, num mundo dominado pelas imagens turvas iguais àquelas vistas pelo fundo da garrafa do famoso refrigerante. Ontem, depois de um curto período de espera entre a triagem e a operação no olho esquerdo, voltou para casa no periférico bairro Doutor Fábio com uma “leve ardência na visão” – consequência da cirurgia. Na bolsa a tiracolo, o colírio refrescante que a oftalmologista lhe deu com a prescrição para uso.

Estatisticamente a cirurgia de dona Nair Martin é mero registro, mas para ela, seus três filhos, seis netos e sete bisnetos, “é uma bênção”, na medida em que lhe devolve a visão e consequentemente permite que retome a vida normal, que estava comprometida há quase 10 anos pela catarata.

Paulista de Pereira Barreto, dona Nair Martin reside em Cuiabá há 40 anos. Fora do mercado de trabalho ela recebe mensalmente do governo federal um salário mínimo a título de auxílio por idade. Feliz com a cirurgia? – pergunto. Emocionada, mas com a voz firme, responde, “estou igual passarinho; ganhei asas pra voar”.

Ontem, entre os atendidos, seo Cecílio Paulo Ribeiro, 61, residente em Rosário Oeste e pescador ligado à Colônia de Pesca Z-13, daquele município, que operou o olho esquerdo. E dona Neuza de Queiroz Silva, 69, moradora na comunidade Barreirinho, município de Santo Antônio de Leverger, que fez cirurgia no olho direito.

A organização da Caravana elimina filas. O perfil dos atendidos, caracterizado pela calma e paciência na terceira idade contribui com gerenciamento do evento. Sem correria e em silêncio, moradores de Cuiabá, Várzea Grande, Nova Brasilândia Rosário Oeste, Jangada, Nobres, Planalto da Serra, Barão de Melgaço, Poconé, Acorizal, Chapada dos Guimarães, Nossa Senhora do Livramento e Santo Antônio do Leverger passaram pelos boxes cirúrgicos ontem.

Na quinta-feira, 18, nos boxes da Caravana, foram realizadas 714 operações e a meta é ambiciosa: 15 mil entre 19 deste mês a 10 de maio, que é a data do encerramento do atendimento. Ontem, os organizadores esperavam que esse número fosse além de 800, a julgar pelas triagens com cirurgias agendadas para aquela data.

No intenso vaivém na Arena Pantanal, onde a Caravana atende, seo Guilherme Zucarato, 63, acompanhava o primo Givaldo Zucarato, 69, morador em Várzea Grande. Seo Givaldo ainda não havia agendado a data e horário para operar a catarata no olho direito, que o incomoda “não sei de quando”.

Criado na zona rural, sem nenhum contato com médico, seo Givaldo disse com uma ponta de orgulho, “nunca entrei num hospital”, mas mesmo assim não conseguia esconder o nervosismo. Ele se amparava no parente, que o tranquilizava. Seo Guilherme foi um dos atendidos com cirurgia de catarata na terceira edição da Caravana, que aconteceu em novembro de 2016 na cidade de Canarana. “Foi uma tranquilidade e não demorou nem 10 minutos”, comentou seo Guilherme.

Seo Guilherme estava de passagem por Cuiabá, indo para Canarana, depois de uma visita a parentes na cidade paranaense de Guarapuava. “Fiquei sabendo que o primo iria operar e vim até aqui (na Arena Pantanal) para acompanhá-lo, porque ele está nervoso”, resumiu.

NÚMEROS – Operação de catarata é o carro-chefe da Caravana, pelo volume e o alcance do atendimento, mas ela também tem outros serviços nas áreas da saúde e cidadania, como expedição de documentos.

Mesmo em se tratando de cirurgia simples, que não exige internação, na rede hospitalar particular seu custo gira em torno de R$ 7 mil, montante que não pode ser desembolsado pela população de baixa renda. Em Mato Grosso é grande o número de pessoas que enfrentam esse problema e um parâmetro para essa avaliação é a quantidade já atendida (incluindo os triados para a etapa em curso), que supera 62 mil, o que corresponde a 2% da população mato-grossense ou a um número de habitantes superior ao da cidade de Primavera do Leste.

Com a meta de zerar ou se aproximar desse índice, o governo estadual idealizou a Caravana, que inverte o caminho do morador nas pequenas e médias cidades ao médico, o que é mais cômodo e reduz o tempo para a cirurgia e o pós-operatório, pois elimina longas viagens.

Idealizador e entusiasta da Caravana o governador Pedro Taques observa que fora dela o atendimento feito até agora demoraria meio século, claro que para igual número de pacientes, mas não para os que ora recebem atendimento – por sua faixa etária e o tempo de espera para tanto.

Comodidade e rapidez são dois pontos positivos da Caravana, mas há outros: o custo cirúrgico é balizado pela Tabela SUS, de R$ 742, algo em torno de 10% do valor que se paga por igual procedimento na rede hospitalar privada.

A Caravana prossegue. Todos os dias ônibus das prefeituras do Vale do Rio Cuiabá desembarcam centenas de homens e mulheres em busca de atendimento, principalmente atrás da cirurgia de catarata, que para eles é libertadora, na medida em que lhes devolve a boa visão que tanta falta faz. Quando retornam aos seus lugares de origem, os motoristas desses veículos levam passageiros que realizaram o sonho de novamente poderem ver com nitidez as faces dos seus, as cores do mundo, o colorido da vida.



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