Domingo, 25 de agosto de 2019 Edição nº 14952 07/04/2018  










SÉRGIO CINTRAAnterior | Índice | Próxima

Casa cuiabana

Se você não conhece, precisa conhecer uma Casa Cuiabana. Já não existem muitas, mas ainda as há. Lembro-me de uma na qual morei, lá pelos anos setenta do século passado. Paredes largas de adobe, janelas grandes, com parapeito e abrindo pra rua, telhado com telhas de barro um nadinha desiguais e sem forro (nada como aquele borrifo d’água no rosto em dia de chuva). Apesar do terreno imenso e largo, a casa era comprida e tinha um grande corredor entre os quartos. Banho, invariavelmente, na beira do tanque (talvez a maioria já não saiba que “tanque” ou “depósito” era um reservatório de água feito ao nível do chão). Quintais sem muro; porém, sabíamos onde terminava o nosso e começava o quintal do vizinho...

Casa Cuiabana, quanta saudade de ti com teu pote de água fresca; com teus santos, quase íntimos, guardados no nincho (oratório); com tua cozinha sem desigualdades e repleta delícias alegres. A saudade de ti, Casa Cuiabana, não é apenas de tua sala de visitas austera e quase nunca profanada pelos pés do menino; mas dos dias em que o vizinho era quase um parente e tinha nome, voz, sorria e olhava com ternura...

Casa Cuiabana do Quilombo, da Goiabeira de Baixo, do Terceiro de Dentro, do Porto, do Baú Sereno, do Pito Aceso, da Ana Poupino, do Araés, da Praça da Mandioca, do Tanque dos Bugres, do São Gonçalo Beira-Rio, da minha Cuiabá de antanho, hoje, és a testemunha de uma outra Cuiabá que desaparece: a Cuiabá das cadeiras na calçada, da praça Alencastro; da cata de ouro nas ladeiras, em dia de chuva; do Cine Tropical; da troca de Gibi na porta do cinema; do bar Internacional; de jogar bolita na rua; do Big Chopp (do seo Alberto); de ir tomar banho, escondido das mães, na praia do Pari; do Grande Hotel; de (impunemente e sem culpa), só com pelote e funda, fazer um banquete (farofa de rolinha)...

Casa Cuiabana, agora, vives com as janelas permanentemente fechadas; espremida entre prédios, quase que envergonhada de ser uma Casa Cuiabana; tuas cadeiras fugiram das calçadas e tuas mangueiras gritam pelos sabiás emudecidos pelas buzinas e ronco dos motores; uma a uma, dia a dia, pereces, casa cuiabana, dando lugar ao novo e ao progresso (penso que jamais compreenderei o progresso que mata...)

Casa Cuiabana, mesmo que desapareças completamente; tua alma não. Não porque tua alma são teus filhos que teimam em ter à boca um “bamo entrá, a casa é seu”, que insistem naquele sorriso silencioso, quando tilintam, em copo próprio, a colherinha do guaraná de ralar, que persistem em manter os braços sempre abertos, que faz questão do bem receber, fazendo disso apenas o mais importante...

Casa Cuiabana, neste oito de abril, ficaste, como tua Cuiabá, um pouco mais antiga; porém, nunca velha. Se real ou se somente uma lembrança de tua gente, não faz diferença. Mesmo quando não existires mais; ainda haverá um filho teu que, ao ouvir alguém bater à porta, vá logo dizendo: - Entra, aqui tem um banco ou, se preferir, uma rede. Se acomode que já vem um guaraná ralado...

Obs.: A crônica em tela é, antes de tudo, um protesto contra o descaso do poder público com o que resta do nosso patrimônio arquitetônico e cultural.



* SÉRGIO CINTRA é professor de Redação e é servidor da Assembleia Legislativa de Mato Grosso



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