Quinta feira, 22 de agosto de 2019 Edição nº 14945 28/03/2018  










RENATO DE PAIVA PEREIRAAnterior | Índice | Próxima

Inglês sem sotaque

Pintada com capricho na parte de trás de um luxuoso carro importado, leio uma frase sugestiva: “Ora que melhora”. Através do vidro noto que há um rosário pendurado no retrovisor interno. Este detalhe (o rosário) me informa que o dono do automóvel não é evangélico, pois os protestantes não costumam usar terços ou rosários durante suas orações. Entretanto essa informação me confunde um pouco, pois sendo o motorista católico como o objeto do retrovisor indica, ele usaria rezar e não orar. Embora os dois verbos indiquem quase o mesmo ato, um é usado pelos católicos, o outro, pelos crentes. Pode ser que o imperativo de orar tenha predominado por exigência da rima.

Mas qual será a mensagem que esse dono de tão vistoso carro quer passar? O mais provável é que queira chamar a atenção para seu Land Rover, afirmando que orando muito conseguiu comprá-lo e que outros poderiam também conseguir, bastando agir como ele.

A frase do imodesto cristão (católico ou crente) parece uma versão mais “elitizada” do “Foi presente de Deus”, mais usada nos fiats e chevetes combalidos que nos modernos carros de trezentos mil reais.

Por enquanto vamos deixar rodando pela cidade o homem do carro chique para contar um caso, aparentemente sem relação com este, acontecido no casamento de uma contraparente minha.

Não obstante o casório em questão tenha ocorrido aqui no País e todos os convidados fossem brasileiros, a noiva fez o discurso de saudação em inglês. Explicou para a plateia extasiada com tanta “erudição”, que tinha mais facilidade em expressar-se nessa língua. O detalhe é que ela foi criada no interior de Minas e somente na adolescência passou algum tempo nos Estados Unidos, tornando-se um desses raros casos, que a despeito da exposição tardia a novo idioma, criou mais familiaridade com ele que com a língua materna. Um professor presente no evento comentou admirado que ela falava um inglês perfeito sem nenhum sotaque.

Para explicar o comportamento do primeiro caso (o do carro legendado) temos uma palavra que vem a calhar. Trata-se de novo-rico sempre utilizada para referir-se a pessoas que tendo enriquecido rapidamente não tiveram tempo de dar uma envernizada nos modos e por isso vivem cometendo gafes, exibindo grotescamente os bens que possuem.

O que move este novo-rico é a necessidade de ser aceito pelas “elites” e a posse de bens é o documento exigido para ser aceito nos salões da “nobreza”. Principalmente porque a maioria dos frequentadores desses salões entrou lá com o mesmo passaporte.

Novo-rico é um tipo antigo na sociedade. Ésquilo, o dramaturgo grego de mais ou menos 500 anos antes de Cristo, colocou na boca de Clitemnestra, na Trilogia de Orestes: "Os novos ricos, no dia seguinte ao de uma colheita inesperada, são insolentes e duríssimos com seus escravos".

Pois é, basta uma "colheita inesperada", uvas ou trigo na antiguidade; soja ou algodão, hoje; ou a posse de um vistoso carro de luxo, para despertar o "novo-riquismo”.

Para o segundo caso (o da minha contraparente e similares) sugiro o neologismo “novo-culto”, que poderia designar o plebeu que se acha sábio porque fala, sem sotaque, a língua dos “nobres”. Aliás, falar inglês sem sotaque é condição indispensável, conforme garante o pensador Roberto Campos, para espião estrangeiro e imigrante clandestino.

A semelhança entre os dois casos é que o inglês dela, inoportunamente exibido, equivale ao brilhante Land Rover com sua estranha legenda.



* RENATO DE PAIVA PEREIRA – empresário e escritor

renato@hotelgranodara.com.br

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