Sexta feira, 26 de abril de 2019 Edição nº 14930 07/03/2018  










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Hermès usa detalhes à perfeição em Paris

Hermès, a mais francesa de todas as grifes, não fugiu do seu estilo baseado no uniforme de montaria

PEDRO DINIZ
Da Folhapress - Paris

É na reta final de sua semana de moda que Paris faz jus ao status que tem. As modelos, de rostos vistos e revistos, já não parecem sempre as mesmas quando as grifes arrebatam com detalhismo, precisão e uma simplicidade rara em meio ao varejão de tendências.

Hermès, a mais francesa de todas as grifes, não fugiu do seu estilo baseado no uniforme de montaria. Também não cedeu à imagem dos anos 1980 reeditada por tantas marcas nessa temporada de outono-inverno 2018-2019.

Pedrarias, kilts e cores fluorescentes? Não; a estilista Nadège Vanhee-Cybulski prefere a calmaria de um passeio no fim do dia, no qual mulheres usam casacos acolchoados com detalhes de selaria, calças cigarrete combinadas a golas rulê arrematadas com colares de diamantes e ponchos jogados sobre as bolsas.

É a imagem de beleza displicente que agrada aos olhos da designer da Hermès, que, embora seja discípula do minimalismo, continua algo desprendida do olhar rígido da alfaiataria e descolada do preto combinado ao preto.

A cartela da estilista é uma combinação de noite e luz do fim de tarde. O azul profundo combina com tons de laranja do crepúsculo que identifica a Hermès. Há contraste entre o verde-musgo da vegetação e o marrom das folhas mortas.

A coleção apresentada em Paris é um passeio pelo campo, por jardins de inverno que a grife montou na área externa de uma escola secundária.

São os detalhes que importam, os penduricalhos e aviamentos que só uma olhada em lente de aumento revela.

A exemplo dos fechos metálicos em desenho de pirâmide, símbolos que remetem às coleiras de cachorro colecionadas no início do século 20 por Charles-Émile Hermès (1871-1951) e logo transformadas nos braceletes mais famosos entre fashionistas à época.

Completam a linguagem "romântico-agressiva" cunhada pela estilista saias lápis com fivelas, tecidos de pelo que confundem os olhos como se fossem veludo e bordados que simulam correntes.

FLORES

Esse romantismo poderoso, que em nada tem a ver com doçura e bons modos, é linha e agulha do estilista italiano Pierpaolo Piccioli. Na Valentino, grife com a melhor evolução do calendário desde que o designer assumiu sozinho as coleções, as flores são o coração dos looks apresentados.

Flores no inverno? Não é tão simples quanto parece. O desafio foi destrinchá-las tanto em forma quanto em movimento, extrair suas curvas para desenhar silhuetas, diluir suas cores desde quando explodem em colorido para depois morrerem, pretas, murchas, descamadas.

Escalas de branco, rosa, azul, verde, amarelo e vinho se misturaram na passarela, esta preenchida no início e no fim pela ausência de luz.

Próximo do corte e dos materiais vistos em sua passarela de alta-costura, em janeiro, o estilista demonstra domínio singular de matemática.

Os ombros são construídos como camadas de pétalas, túnicas em "A", como flores desabrochadas, e bordas arredondas para simular as linhas de uma margarida.

No painel de referências colado no backstage, viam-se imagens de Audrey Hepburn (1929-93). A representação da mulher romantizada por camadas de tecido e um capuz suntuoso adornam parte dos looks de sua passarela.

Há traços de alfaiataria, expostos em conjuntos de calça, blusa e casaco, mas cuja imagem guardava a limpeza doce pretendida pelo estilista.

Rígida, mas solta. Domada, mas selvagem. As passarelas evocam contrastes da personalidade feminina e traduzem muitas mulheres em um único substantivo: liberdade.



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