Terça feira, 23 de abril de 2019 Edição nº 14920 21/02/2018  










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Livro enfoca onipresença de desaparecidos

Escritor argentino faz romance nos anos de chumbo em "O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva"

SYLVIA COLOMBO
Da Folhapress – Buenos Aires, Argentina

Em "O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva", um jovem volta da Europa, depois de oito anos, para o interior da Argentina, onde seu pai está internado.

Nos dias em que a família espera sua recuperação, ele começa a mexer nos arquivos do pai. Descobre que, como jornalista, ele havia coberto com especial interesse o assassinato de um homem.

A princípio, o jovem desconhece a razão de o pai se mostrar tão obcecado com o destino de um empregado de um clube local. Logo, porém, descobre que o morto era irmão de uma "desaparecida", vítima da repressão da última ditadura militar (1976-1983).

Em conversa com a reportagem, o argentino residente em Madri Patricio Pron, 42, conta por que crê que todos seus compatriotas de hoje são filhos dos "desaparecidos", ainda que seus pais estejam vivos. E esta foi a história que quis contar neste romance, lançado agora no Brasil.



Folhapress - Os brasileiros ainda não o conhecem. Esse é o romance ideal para entrar em sua obra, por ser tão pessoal?

PATRICIO PRON - É um bom resumo dos temas que me interessam e que aparecem nos meus livros, assim como das técnicas narrativas que emprego. Portanto, sim, ainda que "No Derrames Tus Lágrimas por Nadie que Viva en Estas Calles", "El Libro Tachado" e "Nosotros Caminamos en Sueños" o completem.

Mais do que um romance, também acho que esse livro é um posicionamento em torno aos acontecimentos trágicos do passado recente argentino.



Folhapress - Sente-se certo ceticismo em como você menciona a luta da geração de seus pais. Ao mesmo tempo, também alguma culpa, por você não ter lutado a batalha deles. Está de acordo com essa definição?

PP - Eu não diria ceticismo, mas uma perplexidade diante da enorme entrega da geração de meus pais e do quão perto esteve de transformar a sociedade. Há admiração mas também questionamento na minha atitude diante deles. Além de um senso de responsabilidade que vem do fato de que as mudanças que eles queriam fazer não ocorreram.

Aqui há algo importante, uma espécie de mandato, que, no meu caso, tem como resultado uma certa forma de ver a literatura, uma maneira especial de pensar a relação entre as palavras e o mundo.



Folhapress - Crê que os desaparecidos, que no imaginário argentino não estão nem mortos nem vivos, respondem por características da sociedade de hoje?

PP - Sim. Todos os argentinos nascidos um pouco depois de, digamos, 1973, somos filhos de desaparecidos, no sentido de que crescemos em uma sociedade cujas desigualdades e vícios são o resultado do fato de que o projeto político dos nossos pais fracassou.

Por outro lado, a ausência do desaparecido permeia a sociedade, o que faz com que ele "esteja" ao mesmo tempo em todo lado. Alguns podem ver isso como uma tragédia, mas eu penso mais como um mandato para os que vivem.



Folhapress - É comovedora a passagem em que o narrador passeia por sua cidade natal e se vê como um observador, quando antes era um personagem do cotidiano. É assim que você se sente ao voltar?

PP - Cada visita é diferente, já que o país se vê diferente e eu também. Sinto uma mistura de estranhamento e familiaridade, o narrador desse romance navega nesse sentimento.



Folhapress - Em seu novo livro de contos, "Lo Que Está y No se Usa Nos Fulminará", voltam a aparecer temas argentinos. Ter se afastado da Argentina o transformou num escritor?

PP - Nesse livro eu revisito vários assuntos argentinos. Aliás, o título inicial era para ser "Mundo Argentino", que era também uma publicação dos anos 1940 que sempre me pareceu uma boa maneira de definir a convicção de alguns argentinos de que seu país seria o centro do mundo, ou todo o mundo que valha a pena conhecer.

Se eu tivesse ficado na Argentina creio que também seria escritor, mas de um outro tipo, talvez mais interessado numa agenda da atualidade, algo que me interessa pouco.



O ESPÍRITO DOS MEUS PAIS CONTINUA A SUBIR NA CHUVA

AUTOR Patricio Pron

TRADUÇÃO Gustavo Pacheco

EDITORA Todavia

QUANTO R$ 44,90 (160 págs.)



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