Segunda feira, 21 de maio de 2018 Edição nº 14916 15/02/2018  










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Louvre procura herdeiros de obras roubadas

Museu francês exibe e devolve a descendentes peças levadas por nazistas durante a Segunda Guerra

FERNANDO EICHENBERG
Especial de Paris

O Museu do Louvre acolherá nesta segunda-feira uma cerimônia rara: a restituição de um quadro certificado como espoliado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. O tríptico “A Crucificação”, atribuído ao pintor renascentista flamengo Joachim Patinir (1480-1524), será entregue pelas mãos da ministra da Cultura francesa, Françoise Nyssen, aos descendentes de Henry e Hertha Bromberg.

Em 1938, perseguido pelo regime nazista, o casal de judeus alemães se instalou em Paris. No ano seguinte, viu-se obrigado a se separar da tela para financiar sua viagem de exílio nos Estados Unidos com os quatro filhos. O novo proprietário revendeu o quadro a um emissário nazista encarregado de constituir acervo para o gigantesco museu que Hitler ambicionava construir em Linz, sua cidade natal, na Áustria.

Após a guerra, em 1950, considerada como arte espoliada, “A Crucificação” foi destinada ao Museu do Louvre. Classificada como MNR (na tradução, Museus Nacionais Recuperação), sigla conferida às obras pilhadas pelos nazistas à espera de restituição, a tela estava até então sob a guarda do museu Crozatier, em Puy-en-Velay, sudeste da França.

O evento terá um significado especial, pois será seguido de uma visita às duas salas do Louvre dedicadas exclusivamente a obras MNR, inauguradas em dezembro. Ao lado da galeria Rubens, uma das mais frequentadas do museu, o espaço, com 31 quadros, foi criado como forma de atrair a atenção do público para a questão das obras confiscadas pelos nazistas, explica Sébastien Allard, diretor do departamento de Pinturas do Louvre.

"A ideia com estas salas visa à difusão da informação e à sensibilização do público. Aqui, o visitante recebe também a indicação, por meio de um painel na entrada, do site Rose-Valland (base de dados das mais de duas mil obras MNR sob custódia dos museus franceses). E há um aspecto também memorial sobre o que se passou na Segunda Guerra em relação à espoliação", conta.

Nas galerias do museu, há obras MNR de Eugène Delacroix, Théodore Géricault e François Boucher. Nas duas salas recentemente inauguradas, estão expostas telas como “La Source du Lison”, de Théodore Rousseau, “Portraits des demoiselles Duval”, de Jacques-Augustin Pajou, e “Portrait de l’artiste en cuirasse coiffé d’un béret à plume”, de Pieter Potter.

"Temos vários quadros aqui nestas salas que foram confiscados ou comprados por Ribbentrop, ministro das Relações Exteriores da Alemanha nazista, como este Pajou", aponta Vincent Delieuvin, conservador do Louvre. "É um pouco assustador para nós, amantes da arte, pensar que por trás destas obras existe este terrível personagem. Mas, hoje, isso faz parte da história destes quadros", disse.

Para a historiadora especializada na espoliação de arte pelos nazistas e ex-senadora ecologista Corinne Bouchoux, a iniciativa do Louvre é bem-vinda, embora tardia.

"É tarde, é verdade, mas tendo em vista a lentidão que houve na França, é importante que se fale disso. Por muito tempo, talvez por má consciência em relação ao governo de Vichy e a forma como policiais franceses ajudaram na deportação de judeus, por falta de vontade dos museus e por negligência, pouco se fez na França em relação às restituições. Mas, hoje, se avança nesta questão, e vejo um maior interesse dos jovens e do grande público pelo tema. O obstáculo é mais prático, financeiro, do que político", afirma.

Como parlamentar, Bouchoux fez várias proposições para impulsionar o trabalho de pesquisa para descobrir as famílias judias a quem pertenciam os quadros. Seu sonho é que cada museu com obras MNR organize uma exposição, e que conservadores e genealogistas, auxiliados por estudantes voluntários, dediquem-se a procurar as origens familiares por trás de cada obra.

PERÍODO DE AMBIVALÊNCIA - Para Jean-Jacques Neuer, advogado internacional especializado em questões de arte, a exposição no Louvre não vai, obviamente, reparar o crime contra a Humanidade cometido pelos nazistas, mas revela a disposição do governo e das instituições em promover uma atitude proativa para a restituição das obras.

"Nem sempre foi o caso. Houve um período de ambivalência. Para os conservadores, restituir uma obra exposta nas paredes de seu museu é algo sempre doloroso. Nem sempre mostraram uma real vontade de fazê-lo. Mas isso é passado. Hoje, penso que o governo francês procura ativamente restituir estas obras", ressalta Neuer.

NA PAREDE DA MEMÓRIA - Além das 31 telas expostas no espaço exclusivo para obras espoliadas durante a ocupação nazista, o Louvre apresenta 76 outros destes quadros em suas salas permanentes. Entre 1940 e 1945, cerca de cem mil bens, incluindo numerosas obras de arte, foram pilhados pelos nazistas ou vendidos sob coerção e transferidos para a Alemanha.

A criação da Comissão de Recuperação Artística, em 1944, possibilitou o retorno para a França de mais de 61 mil objetos, dos quais 45 mil foram restituídos a seus antigos proprietários ou descendentes. Cerca de 13 mil bens não reclamados foram vendidos em leilões, e outros 2.143 registrados em inventários especiais. O Louvre abriga 1.752 obras de arte espoliadas, sendo 807 correspondentes a pinturas. Apenas 296 delas são conservadas no local. As demais foram distribuídas em outros museus do país.

Hoje, um grupo de trabalho, formado pelo Ministério da Cultura em conjunto com a Comissão de Indenização das Vítimas da Espoliação, está encarregado de rastrear a origem das obras e identificar seus proprietários no momento da espoliação, para poder restituí-las aos respectivos herdeiros.



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