Terça feira, 23 de abril de 2019 Edição nº 14913 08/02/2018  










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José Ramos Tinhorão comemora 90 anos em meio ao Carnaval

Ele é o mais ácido crítico cultural brasileiro. “Tom Jobim pensava que fazia música brasileira mas fazia música americana" - diz

CARLOS BOZZO JUNIRO
Da Folhapress

"Um bolo ou uma coroa de flores." Esses são os presentes que, segundo José Ramos Tinhorão, os convidados poderiam lhe levar durante a festa pública de seus 90 anos, a realizar-se no sábado (10).

"Um cara com 90 anos deveria estar morto, rapaz", diz rindo o jornalista e pesquisador à reportagem.

A roda de samba em pleno sábado de Carnaval vai acontecer no bar que Tinhorão costuma frequentar na Vila Buarque, bairro da região central de São Paulo.

Na sexta (9), na mesma rua desse centro que é o torrão de adoção desse santista, ele participa de um bate-papo com os jornalistas Assis Ângelo e Elizabeth Lorenzotti, autora do livro "Tinhorão: o Legendário" (Imprensa Oficial), sua biografia autorizada.

Mas, como a data dos anos é esta quarta (7), de presente entra no ar uma série de vídeos em que ele fala de sua vida e de sua trajetória.

Produzidos pelo Instituto Moreira Salles -que desde 2001 conserva seus monumentais acervos sobre música brasileira-, os 39 filmetes vão ao ar no canal de YouTube da instituição (youtube.com/imoreirasalles).

Os acervos são a expressão física -em 11.044 fonogramas de discos de 78 rotações, 3.932 discos de 33 rpm, 31.455 partituras impressas, 6.979 livros, 7.918 fotos e uma hemeroteca com mais de 30 mil itens- desse "analfabeto musical, mas com memória de elefante", como ele se qualifica em um dos vídeos.

VENENO - O nome de Tinhorão -que na verdade é um apelido, emprestado de uma planta ornamental venenosa- é indissociável da pesquisa histórica sobre a música como expressão cultural no país.

É por isso que, no sábado, o autor de mais de 30 livros, como "Os Sons dos Negros no Brasil" e "As Origens da Canção Urbana", será celebrado com a execução de muitos sambas autênticos.

"O pessoal que vai lá descobre coisas que fico admirado. Em minha homenagem, tocam muitas músicas do Ismael Silva, por exemplo, que são maravilhosas. Músicas que nem eu lembro de ter ouvido", diz o crítico, sentado num banco de parque.

É que sua mulher, a professora aposentada Maria Rosa Vieira, proibiu-o de deixar entrar "qualquer pessoa" no apartamento, sempre na região central, que o casal divide com 12 gatos. "Minha mulher sabe o nome de cada um deles, mas eu não."

Nome que ele não esquece é o de Tom Jobim. O músico foi alvo de algumas das controversas declarações que o jornalista proferiu sem dó.

(Mas, aproveitando, não é verdade que o apelido venenoso venha de sua língua ferina -ele é fruto de uma associação de ideias de um chefe seu no "Diário Carioca", onde trabalhou nos anos 1950, que esquecera seu vegetal sobrenome "Ramos".)

O folclore envolvendo Tinhorão e o compositor de "Águas de Março" diz até que Jobim cultivava um pé de tinhorão para nele poder urinar. "Não acredito", diz o pesquisador, "ele era um cara muito educado".

"Tenho admiração pela figura do Tom, mas não posso dizer que era um grande compositor. Tenho pena de não poder ter sido amigo do Tom, porque ele era um bom sujeito, coitado. Só que pensava que fazia música brasileira e fazia música americana."

A coleção de desafetos tem outros altos quilates. Chico Buarque, por exemplo, já quis lhe desferir uns sopapos.

"Foi o único que teve esse tipo de reação." E completa: "Mas, é claro, o artista tem uma sensibilidade muito à flor da pele e não gosta de ser criticado. Não importa que quem o critique tenha razão. É muito natural que me odeiem, não tenho bronca nenhuma."

E a língua, ele mostra, continua afiada para detonar conceitos. Por exemplo, MPB. "Se você me mostrar que ainda existe...". "Carnaval": "É uma grande festa, mas suas formas institucionais, como as escolas de samba, são uma grande bobagem".

"Contudo, o povo está saindo na rua e isso é interessante, porque não tem nada de fantasia ou uniforme com todo mundo igual, cada um sai do jeito que quer. Isso é que é Carnaval! Porque Carnaval é subversão da realidade!"

Crítica Tinhorão diz que não existe. "Primeiro, não existem críticos de música popular ou crítica sobre música popular. Existe o cara que dá notícia e louva conjuntos estrangeiros, que nunca vêm ao Brasil, mas que, quando vêm, ganham página inteira dos cadernos culturais."

E os nomes da música brasileira hoje? Ao ouvir "Anitta", é implacável: "Parece que é uma pessoa que canta". "Pabllo Vittar": "Outro que parece um cara que canta". "Jojo Todynho", talvez? "Ah, aquela do peitão? Pois é, dessa eu conheço o peitão."

Se a arte é uma representação da realidade social, sua reação imediata a esses nomes faz pensar: o que ele teria a dizer da realidade?

"Essa música, que não é música popular brasileira, reflete bem a realidade social. As pessoas estão vivendo de salário mínimo, rapaz."

"Para que haja uma cultura popular, no sentido de dar a ela uma solenidade, é preciso que esse popular tenha também uma cultura particular. Mas a cultura de quem? Do peitão da mulher, de quem o cara ouve no rádio? Não dá nem para ser contra; a um ser esvaziado de conteúdo humano corresponde um ser esvaziado de conteúdo artístico."



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