Quarta feira, 24 de abril de 2019 Edição nº 14892 10/01/2018  










DOUTOR DO RASQUEADOAnterior | Índice | Próxima

Epifânio, o Deus de Arigó

Da Reportagem

Havia um homem trabalhador na Chapada. Sempre presente em todos os mutirões, garimpagem ou festas. Muito disposto, “pau pra toda obra”, só tinha um defeito: não resistia à famosa “branquinha” (cachaça); era pra lembrar ou esquecer; pra esfriar ou aquecer. Não lhe faltavam desculpas.

Epifânio (nome fictício) apreciava soltar bombas e fogos de artifício.

Sob o efeito do álcool, tornava-se valente e desbocado e não dispensava uma briga. E bradava em alta voz:

- “Eu sou homem aqui e debaixo d’água. Quem tiver coragem venha no meu mundo, pois sou Deus do arigó, sou onça de cabra ruim. O que tiver “nós come.” O que faltar, Sant’Ana intera.”

Os mais medrosos, velhos, crianças e forasteiros, nessas horas, corriam dele.

Epifânio morava num casebre à beira da mata, em pleno Parque da Quineira.

Muitas vezes, após violentas brigas, era recolhido no xilindró. Naqueles tempos, década de vinte, para se recuperar a liberdade, fazia-se necessário pagar a carceragem: cinquenta mil réis.

Certa vez, após amargar um fim de semana na cadeia, ao amanhecer de segunda-feira, ele doido para ingerir a “branquinha”, sacudiu as grades da cela, gritando pela presença do delegado:

- Por favor, me solte! Como faço para sair daqui?

- Bem, você já sabe do esquema. Quanto tem aí?

- Tenho setenta mil réis.

- Amigo, o que está pensando? Nós não temos troco, isso aqui não é boteco, é a cadeia!

- Tudo bem, saio assim mesmo. Os vinte mil restantes já ficam para quando eu voltar aqui nestes aposentos, na próxima semana. Comigo não tem miséria! Não vivo de vintém! Sou Deus do arigó!

Aconteceu um dia, durante uma pescaria, um trágico acidente: uma bomba explodiu na mão direita do Epifânio. Foi um grande transtorno, pois na Chapada não havia médico, só benzedores, parteiras e adivinhos!

Uma alma boa parece que estava adivinhando o perigo que aquele homem corria e garroteou o coto do antebraço com uma correia de couro cru, com o propósito de estancar a hemorragia. Providencialmente o colocou no lombo de um cavalo arriado logo ali.

Epifânio, em desespero, saiu esporeando com força o animal enquanto que, com a mão sadia, segurava o cabresto da montaria. Desceu rapidamente pela serra do Tope de Fita, que ele conhecia como a palma da mão. Então conseguiu chegar à Santa Casa de Misericórdia, onde recebeu os cuidados do Dr. Silvio Curvo, grande cirurgião da época e cavaleiro, como o Epifânio.

Meses depois, no armazém do Sr. Plácido, seu compadre, nosso herói voltou a ser frequentador assíduo do boteco e para ganhar uma dose, coçava o olho com o que restara do seu braço direito, comovendo o proprietário do estabelecimento que, misericordiosamente, lhe oferecia o tão cobiçado líquido.

Em todos os bares da cidade o Epifânio usava este mesmo truque para satisfazer o seu vício, de graça.

Os presentes sempre aconselhavam:

- Ô, “Seu” Epifânio, larga de beber ou perderá a outra mão.

Revoltado, ele retrucava:

- Seu conselho é muito bom, não dá lucro e nem prejuízo. Mas se conselho resolvesse, eu teria tudo que preciso. E o Deus do arigó ... não dormiria no xilindró...



JOÃO ELOY é cantor, compositor, historiador e poeta, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, médico aposentado e ex-professor da UFMT. E-mail: joaoeloycantor@hotmail.com



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