Segunda feira, 19 de agosto de 2019 Edição nº 14805 23/08/2017  










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Morre ex-governador Pedro Pedrossian

Pedrossian, que governou Mato Grosso de 1966 a 1971, quando o estado não era dividido, depois foi governador de Mato Grosso do Sul

GCOM
No último mês de março o governador Pedro Taques visitou Pedrossian em Campo Grande
EDUARDO GOMES
Da Reportagem

Aos 89 anos Pedro Pedrossian perdeu a luta pela vida. Na madrugada de ontem, em sua casa em Campo Grande (MS), seu sono se estendeu à eternidade. Com seu adeus Mato Grosso e Mato Grosso do Sul perderam seu maior homem público. Seu legado enquanto administrador é grande em ambos os lados da divisa dos dois estados; na militância deixou exemplo da responsável ousadia visionária que teima em não ser assumida pela classe política na terra onde ficaram suas pegadas de governante competente, legislador combativo e de político muito além de seu tempo. Foi o último governador eleito em Mato Grosso antes da divisão territorial ocorrida em 11 de outubro de 1977.

Por volta das 3h30, quando deixou de respirar, Pedrossian já não mais enxergava nem caminhava, lutava contra o diabetes e, além disso, enfrentava problemas cardíacos e com a obesidade mórbida. Deixou a viúva Maria Aparecida, seis filhos, netos e bisnetos. Filho de Rosa e João Pedro Pedrossian, casal pobre de origem armênia, nasceu na casa de sua família em Miranda (MS), em pleno Pantanal, ao lado dos trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), da qual mais tarde, após cursar a Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo, seria engenheiro civil e diretor.

Descrever sua trajetória na vida pública é deparar-se com uma das mais importantes páginas políticas do Centro-Oeste. Pedrossian governou os dois estados e foi senador por Mato Grosso do Sul. Político hábil, nunca se deixou levar por partido e sempre se filiava a outro quando o cenário lhe cobrava mudanças ou dependia da mesma para se manter no poder ou conquista-lo; isso o levou ao PSD, Arena, PTB, PSDB, PST, PDT, PDS e ao PMN. Parte de suas memórias está no livro de sua autoria “Pedro Pedrossian – O Pescador de Sonhos”, publicado em 2006.

O maior feito político de Pedrossian foi sua eleição ao governo pelo PSD em 1965 concorrendo com o pecuarista e banqueiro Lúdio Coelho (UDN), ambos moradores na região que mais tarde seria Mato Grosso do Sul. Quem acompanhou aquele momento diz que nunca houve uma eleição com tanto dinheiro derramado por voto em Mato Grosso. Pobre, Pedrossian enfrentou um adversário rico e disposto a gastar o que fosse possível para se eleger; a característica da disputa o levou a criar o bordão “O tostão contra o milhão”. Além de vencer o pleito Pedrossian contribuiu para a eleição de seu vice, o advogado cuiabano e escritor membro da Academia Mato-grossense de Letras, Lenine Póvoas (PTB), pois à época não havia eleição de chapa majoritária, mas sim do governador e do vice individualmente.

O médico cuiabano Gabriel Novis Neves, ex-secretário de Educação em seu governo, observa que Pedrossian venceu por margem apertada em Cuiabá e que sua vitória foi sacramentada pela expressiva votação que lhe deu o povo de Corumbá (MS).

A participação de Novis Neves na equipe de Pedrossian revela sua faceta humanística. O médico revela que antes do mandato de Pedrossian uma secretaria do governo abrangia Saúde, Educação, Esporte e Lazer. À época havia em Cuiabá a Colônia dos Alienados do Coxipó, no bairro do mesmo nome. Nela eram mantidos de forma desumana os pacientes com problemas mentais, “muitos acorrentados”, acrescenta Novis Neves. Pedrossian a conheceu e pediu ao secretário Clóvis Pitaluga de Moura, que indicasse alguém para administrá-la, pois ele queria humaniza-la. A escolha recaiu sobre Novis Neves. Em pouco tempo a Colônia foi rebatizada ganhando o nome de Hospital Adalto Botelho e Pedrossian acompanhava de perto o que ali acontecia. A chegada de Novis Neves à secretaria foi escolha do governador. “Pedrossian ia embarcar em Várzea Grande e no caminho viu um enfrentamento de estudantes com a polícia. Ele não gostou daquilo e mandou que publicassem minha nomeação para secretário de Educação, sem meu conhecimento”.

Pedrossian e Novis Neves cultivaram boa relação de amizade ao longo dos anos. Sobre o amigo governador o médico diz, “ainda que lhe jogassem nos ombros todo e qualquer defeito ele continuaria limpo e honrado pelas três universidades que criou, sendo uma delas a nossa Universidade Federal de Mato Grosso”, conclui.

O deputado federal e presidente do PMDB de Mato Grosso, Carlos Bezerra, destaca que “Pedrossian ganhou (a eleição de 1965) no palanque, com seu discurso contra as oligarquias e contra o compadrio”. Bezerra diz que ele modernizou a política de Mato Grosso.

Bezerra revela um fato interessante sobre os bastidores da política. A oposição a Pedrossian, liderada pelo deputado Augusto Mário Vieira (UDN), pediu seu impeachment “e na noite da véspera da votação os deputados dormiram no 16º Batalhão de Caçadores (agora 44º BIMtz). À época Bezerra presidia a Associação Cuiabana dos Estudantes Secundários e mobilizou sua entidade contra a degola do governador. Enquanto os parlamentares se reviravam nos lençóis ele e seus companheiros rodaram no mimeógrafo um manifesto esclarecedor sobre os fatos. Na madrugada o distribuíram debaixo das portas em Cuiabá e Várzea Grande. Tão logo o dia amanheceu o povo lotou a frente da Assembleia na Avenida Getúlio Vargas e a queda de Pedrossian foi evitada.

Nos bastidores sobre a queda de braço de Augusto Mário com Pedrossian comenta-se que o deputado preparou um calhamaço de documentos contra ele e o entregou aos militares em Brasília. No contra-ataque o governador teria levantado pagamentos de salários a professores fantasmas, que seriam recebidos por seu procurador Augusto Mário. Além disso, Pedrossian teria comprado um anel de brilhante em Poxoréo e seria um diamante muito valioso, capaz de virar a cabeça de toda mulher, principalmente da primeira-dama do Brasil, dona Yolanda Costa e Silva que era citada enquanto madame que convivia em rodas de intelectuais, artistas e milionários. O desfecho foi a cassação de Augusto Mário em 4 de fevereiro de 1969 pelo Conselho de Segurança Nacional, por ordem do presidente Costa e Silva. Junto com ele foram cassados 91 deputados, dos quais três de Mato Grosso: João Chama, Sebastião Nunes da Cunha e Ney Ângelo, e dois prefeitos de outros estados.

Quando adolescente Osvaldo Sobrinho deixou o Sul de Mato Grosso, agora Mato Grosso do Sul e veio para Cuiabá em busca de matrícula escolar. Professor, advogado e empresário, Sobrinho milita politicamente e exerceu mandatos de deputado estadual e federal, vice-governador e no Senado. “Indiscutivelmente ele deu um corte vertical na trivialidade de Mato Grosso ao enfrentar e vencer as grandes oligarquias que havia aqui”, observa. Sobrinho acrescenta que Pedrossian à época era jovem, muito ligado aos meios sociais e que tinha grandes ideias. “Ele montou um secretariado brilhante, de primeira linha, com visão futurista e formado por gente de fora”, resume.

ADEUS – O corpo de Pedrossian foi velado no Centro de Convenção Rubens Gil de Camilo, no Parque dos Poderes em Campo Grande. O sepultamento às 16 horas, no Cemitério Parque das Primaveras, naquela cidade, foi acompanhado por parentes, amigos e políticos, inclusive o governador Pedro Taques e o ex-governador Júlio Campos.

Os governos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul decretaram luto oficial por três, e o mesmo fez o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.

Em nota o governador Pedro Taques disse que “(Pedrossian) teve um papel importante para que houvesse apenas uma divisão territorial e não uma divisão de povos. Foi um estadista”. Também em nota os ex-governadores Júlio Campos e Jayme Campos se manifestaram. Jayme destacou que “(Pedrossian) era um verdadeiro visionário. Imaginem no final da década de 1960 criar a UFMT, oito anos antes da divisão de Mato Grosso... Todos sentiam nele o compromisso com as reais necessidades do Estado e da população”. Júlio citou que seu pai, Fiote Campos, foi correligionário de Pedrossian, “Sempre trabalhamos politicamente para ele, pois era um hábil gestor e durante seus mandatos soube definir estratégias que permitiram a Mato Grosso crescer e se tornar a potência que é hoje em termos de agronegócio”.



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