Sexta feira, 21 de julho de 2017 Edição nº 14777 15/07/2017  










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Educação financeira para a vida adulta

Um terço dos jovens brasileiros admite não ter controle sobre as finanças. Veja como se planejar

Da Reportagem

Ajustar as finanças, planejar os gastos e projetar os próximos investimentos são tarefas duras para qualquer um – principalmente em um momento em que a crise financeira obriga a apertar os cintos e a situação do país não permite muitas previsões. Agora, imagine fazer isso pela primeira vez na vida. Disciplina financeira não é fácil para ninguém, mas, para quem está recém entrando na fase de independência econômica, pode ser ainda mais complicado.

De acordo com a última pesquisa sobre o assunto do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), de dezembro de 2016, um terço dos jovens brasileiros (32,2%) admitia não ter qualquer controle sobre suas finanças. A justificativa mais usada era a falta de hábito, em 22% dos casos. Para o professor de Economia da UFMT Ernani Lúcio Pinto de Souza, o descontrole financeiro é uma epidemia nacional, que se explica pela ausência da cultura econômica:

“O descontrole é resultado do não hábito da visão do futuro. Em vista da renda baixa, as pessoas preferem o consumo imediato e essa visão de futuro tem a ver com renda. Mas isso é uma mudança de futuro que temos que fazer esforço para que a poupança seja um item do orçamento doméstico e não um resíduo que se sobrar tem, caso contrário, amém. Mas, dizer que esse descontrole é uma epidemia, acredito que é forçar a barra. Prefiro dizer que nós vivemos numa necessidade de consumo tendo em vista que os salários são relativamente baixos, como dizem os economistas, de país de renda média. Hora, mas até quando vamos viver com essa renda média. Nós, temos que fazer um esforço e aumentar esse salário através de mais salário com produtividade”.

Entre os especialistas, como Ernani Souza, o pontapé inicial é uma unanimidade: colocar no papel o dinheiro que entra e o que sai. Manter a disciplina financeira sem uma noção básica dos ganhos e dos gastos mensais é praticamente impossível, mas um caderno já resolve o problema. O ideal – avalia o professor – é que o dinheiro do mês cubra os gastos e tenha uma folga para investimentos – guardar, seja quanto for, já é fazer mais do que a maioria: outra pesquisa, também da CNDL e do SPC Brasil, mostra que somente 41% dos brasileiros terminam o mês com dinheiro sobrando. O restante fica devendo ou empata.

A partir daí, é importante analisar quais gastos estão fora da realidade financeira. Em geral, jovens que saem da casa dos pais têm dificuldade em baixar o padrão de vida, uma necessidade imprescindível para quem vai morar sozinho. Quem tinha plano top de TV a cabo, associação em clube e serviço de faxineira dificilmente vai conseguir manter isso sem o dinheiro dos pais – sob pena de acumular dívidas que podem se tornar uma bola de neve lá na frente.

“É muito comum acontecer um estrago financeiro no início da vida independente. Porque ninguém quer baixar o padrão de vida, o acesso ao crédito é fácil, e o brasileiro tem o estilo de vida consumista. Isso pode acabar sendo perigoso”, avalia o educador financeiro Adriano Severo, professor de Economia da Fundatec, que ainda sugere: “O ideal é não comprometer o orçamento dos próximos meses. Lembrar que, se fizer uma compra em 10 vezes agora, vai acabar de pagar na metade do ano que vem. Será que a parcela ainda vai caber no orçamento?”.

CORTAR - Pode-se dizer que todo brasileiro nasce com a habilidade de se virar em situações adversas entranhada no DNA. É o caso da professora Luana Eckert, 25 anos, que, em meio à crise financeira que vive o país – a mais grave que sua geração já viu –, decidiu se casar e comprar um apartamento com o empresário Guilherme Eckert, 27 anos. Para alcançar o objetivo, ela contou com o controle financeiro do agora marido e diminuiu os gastos.

Quando se conheceram, ela tinha 19 anos, e o jeito que deram para sair das casas dos pais foi ir morar no apartamento de um avô dele – situação que não era a ideal para o casal recém-formado. A partir de uma planilha, em que os dois calcularam seus gastos e ganhos, decidiram que era o momento de trocar as saídas no fim de semana por um filme na televisão. No lugar dos jantares em restaurantes, entrou a comida caseira. Assim, em fevereiro deste ano, eles conseguiram aprovação em um financiamento e realizaram o sonho da casa própria.

“Quando colocamos tudo no papel, vimos que, se quiséssemos comprar o apartamento, não dava para manter o padrão em quase nada. Decidimos que era hora de abrir mão de certas coisas para chegar àquele objetivo. Diminuímos o plano da academia, desistimos de trocar de carro, fomos atrás de apartamentos em outros bairros”, enumera a professora, para sentenciar em seguida: “Cada um tem suas vontades, suas preferências e, individualmente, vai decidir de onde é melhor cortar. Mas cortar é inevitável”.



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