Segunda feira, 23 de outubro de 2017 Edição nº 14758 20/06/2017  










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Morre Aecim Tocantins, aos 94 anos

Aecim Tocantins cresceu e pautou sua vida sem cruzar a imaginária linha que separa o certo do errado

EDUARDO GOMES
Da Reportagem

Odorico Ribeiro dos Santos Tocantins, além de telegrafista, representava o Marechal Rondon em Cuiabá. Odorico era amigo do grande militar e o recebia em sua morada, onde a hospitalidade se completava com o gesto generoso de seu filho ainda criança Aecim Tocantins engraxando a bota do visitante com folhas de papoulas, já que à época não havia graxa para calçados no mercado cuiabano.

Buscando exemplos no pai e se espelhando em Rondon - o grande vulto nacional –, Aecim Tocantins cresceu e pautou sua vida sem cruzar a imaginária linha que separa o certo do errado. De convicta formação católica e perfil humanista, abraçou a profissão de professor e contabilista, e entrou na vida pública.

O relógio biológico é implacável com todos. Na madrugada do domingo desta semana, aos 94 anos, em Cuiabá, sua terra, o Professor Aecim Tocantins fechou os olhos para sempre. Seu adeus abre uma lacuna na reserva moral da política mato-grossense. De seu legado ficam os exemplos por sua obra na esfera pública, filantropia e em defesa do profissional da Contabilidade. Na esfera familiar fica a saudade de sua viúva, Célia Corrêa Tocantins – dona Celita; seus filhos Mário Luís e Maria Alice; seus genros, Wilson e Flávia; e de seus netos Guilherme, Gustavo, Dante e Aramis. O vazio do adeus definitivo é compartilhado pela legião de amigos que constituiu ao longo da vida.

Semeador de grandes conquistas para sua Cuiabá, o Professor Aecim Tocantins exerceu dois mandatos de vereador, presidiu a Câmara Municipal, foi vice-prefeito e prefeito, secretário de Estado, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, fundou e presidiu o Conselho Regional de Contabilidade de Mato Grosso; publicou livros e integrou o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. Participou da criação da Faculdade de Filosofia de Cuiabá e foi professor da Universidade Federal de Mato Grosso.

Ao seu vasto currículo é preciso acrescentar com destaque duas de suas atuações: enquanto benemérito da Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá e membro da Comissão Especial de Divisão do Estado, em 1977.

Durante décadas o Professor Aecim Tocantins foi colaborador da Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá e chegou à sua presidência. Aquele hospital filantrópico sempre ocupou espaço em sua agenda e no seu coração. Dona Celita destaca que o marido dedicava boa parte do dia aos seus compromissos com sua administração.

O escritor e historiador Ivan Echeverria, companheiro de longa data do Professor Aecim Tocantins, revela uma passagem interessante de seu amigo quando esse integrava o Conselho Fiscal da Santa Casa. Echeverria cita que certa vez o presidente da instituição enviou o balanço da prestação de contas para que o Professor Aecim Tocantins o assinasse, mas diferentemente do que esperava o dirigente, o conselheiro devolveu a documentação e pediu que ela lhe fosse novamente endereçada, mas com a documentação contábil para que pudesse analisá-la. Somente depois de ler o conteúdo e sugerir correções, ele botou sua chancela no balanço.

A divisão territorial de Mato Grosso para a criação de Mato Grosso do Sul era vista como conquista em Campo Grande e como motivo de preocupação em Cuiabá. Enquanto os futuros vizinhos ao Sul se preparavam para administrar o novo Estado, os remanescentes se perdiam na tentativa de evitarem o seccionamento. Quando o ato foi consumado pelo presidente Ernesto Geisel cada Estado criou uma comissão para que acompanhasse a divisão patrimonial dos veículos, equipamentos rodoviários e outros componentes do inventário a ser rateado. O governador Garcia Neto nomeou o Professor Aecim Tocantins representante de seu Estado.

A firme atuação do Professor Aecim Tocantins na divisão dos bens patrimoniais assegurou direitos mato-grossenses e evitou que parte do acervo fosse indevidamente destinada ao novo Estado. Seu genro, Wilson Cabral, observa que o representante de Mato Grosso do Sul não pôde comparecer a algumas reuniões e que naquelas oportunidades se fez representar por seu colega mato-grossense, por acreditar nele.

O Professor Aecim Tocantins tinha origem partidária na extinta UDN e era respeitado pelos companheiros e adversários do período em que disputou mandatos. Mesmo afastado dos palanques, ele nunca se distanciou da política. Sempre no período eleitoral sua casa ficava repleta de políticos em busca de conselhos. Ele costumava dizer aos visitantes que sua idade era avançada e que não fazia mais política, mas nunca seus visitantes saíam sem uma dica ao pé do ouvido dita por alguém que sabia o que estava falando.

Figura respeitada, referência moral e citado como exemplo pela classe política, o Professor Aecim Tocantins sempre encontrava tempo para uma boa prosa com amigos no Senadinho. O Senadinho é um ponto na Rua Cândido Mariano, ao lado da antiga Residência Oficial dos Governadores, onde antigos líderes políticos se reúnem para discutir política.

Maria Alice destaca a religiosidade do pai, que em todos os eventos públicos ou em família sempre fazia orações católicas; ela vai além e diz que o Professor Aecim Tocantins era tradicionalista, mas sem prejuízo em sua relação com migrantes ou adeptos de outros credos: cita que seu marido, Wilson Cabral, é goiano e que seu pai o tinha enquanto filho. Flávia reforça a fala da cunhada citando que o sogro lhe dispensava tratamento de filha. Mário Luís tenta se espelhar no patriarca; ele revela que sua babá, dona Hermelinda, trabalhou em sua casa desde quando era bebê e depois se aposentou. A aposentadoria não a afastou dos Tocantins: ela continua morando com a família, que a considera como um de seus membros. “Paciente – acrescenta Mário Luís – meu pai esperava por ela para que todos nós almoçássemos juntos”, resume.

Um dos maiores ginásios poliesportivos do Brasil lhe rende homenagem. Construído no bairro Verdão, ao lado da Arena Pantanal, o Ginásio Poliesportivo Professor Aecim Tocantins é duplo motivo de orgulho para Cuiabá: por sua imponência e pelo nome que ostenta.

O ciclo da vida do Professor Aecim Tocantins iniciado em 8 de junho de 1923 chegou ao fim. Em sua trajetória constituiu família, semeou exemplos e contribuiu para o desenvolvimento da sua terra. Seu inventário é um legado moral que precisa ser respeitado e copiado por todos, principalmente pela classe política.



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· Fui oficie boy senhor Aecim Tocantis,  - Hélio Augusto Gomes
· Com a incorporação do Partido Popular (P  - Adalberto Ferreira da Silva




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