Terça feira, 19 de novembro de 2019 Edição nº 14726 04/05/2017  










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Aviso Importante

EDUARDO MAHON
Especial para o DC Ilustrado

Na mesa do café da manhã, Magal encontrou um cartão ao lado dos ovos mexidos – cuidado com o dia 21 de março, era o que dizia. Só isso, sem mais nem menos. Que merda é essa?, perguntou à mulher. O que? Isso aqui, ora! Ela também não sabia do que se tratava. Chegou agora?, quis saber. Magal fez uma cara de perplexidade, mas seguiu respirando calmo. Estava aqui na mesa, Isadora, para de brincadeira! A mulher manjou que a cisma do marido era pra valer. Jurou de pé junto: não é brincadeira, por Deus! Ela, muito religiosa, não pecaria se não fosse estritamente verdade. O jeito foi Magal ir pro batente sem entender. No dia seguint e, no mesmo lugar, outro bilhete, dessa vez com texto novo: não saia de casa no dia 21 de março. Magal, estupefato com o acontecimento, fuçou no bilhete de cima abaixo. De fato, a letra não era da mulher. Entraram aqui em casa, Isadora! Ela conferiu as janelas. A porta estava com ferrolho passado. Não era possível. Quem iria subir doze andares naquele prédio sem sacada? Se não foi pela porta, não sei mais por onde foi, Magal argumentava. O chaveiro foi chamado na hora do almoço. A mulher acompanhou o serviço: fechadura tetra, ferrolho novo, olho mágico, maçaneta que não abre pelo lado de fora e, para finalizar as manobras de segurança, sininho instalado no alizar. Quero ver se esse filho da puta continua com essa marmota!, vociferou Magal que já estava ficando cabreiro com o caso. Ele desconfiava de Juvenal, um colega de trabalho dos mais brincalhões. A vida do indivíduo era passar trote nos camaradas. Certa vez, disse a uma secretária que tinha câncer, granjeou a pena da sujeita para leva-la a um restaurante e dar uma esticada no motel. Depois, desmentiu. Nem o tabefe na cara corrigiu Juvenal. Com o segundo bilhete, Magal ficou desconfiado que aquilo eram coisas do espírito de porco do escritório e virou a cara para ele antecipando a culpa. Na manhã seguinte, correu para a cozinha como se esperasse a nova missiva. Não deu outra. Estava lá, sobre a mesa para quatro cadeiras outro quadradinho de papel: proteja a sua mulher no dia 21 de março. Aí está, Isadora! Isso tem a ver contigo. Agora me explica já essa sabotagem!, gritou o marido enfurecido. Ela chorou. Mais de medo do que Magal estava pensando dela do que propriamente da invasão noturna ao apartamento. Eu não sei! Não sei, já disse!, soluçava. Condoí ;do com o desespero da mulher, ele a tomou nos braços – também não é para ficar assim, minha filha. E pensaram juntos no mais importante: como é que alguém passara pela fechadura dupla, ferrolho e sininho que colocaram na porta de mogno maciço? Naquele dia, Magal faltou pela primeira vez ao serviço. Comprou grades para a janela da sala e ele mesmo parafusou aquela barafunda para se certificar que ninguém poderia entrar no apartamento, nem se fosse o Homem-Aranha. Para reforçar a segurança, fez um calço de papelão na porta que travava ao menor movimento. Na madrugada, Magal nem dormiu direito. Antes de raiar o dia, levantou-se primeiro que a patroa. Na mesinha, estava um novo bilhete: não abra a porta de casa no dia 21 de março. Ele sentou numa das cadeirinhas da cozinha e chorou sozinho. Desesperou-se com a sucessão de fatos estrambólicos. Não p regava o olho de noite. Isadora nem mexeu na cama. Ele, por sua vez, não era sonâmbulo. A letra não batia com a de nenhum conhecido. A porta conservava a volta dupla da chave, o ferrolho no lugar, o calço imóvel. A janela não dava sinais de nenhum arrombamento. Puta merda!, disse em voz baixa. Na véspera do dia fatídico, por via das dúvidas, Magal ficou em casa. Trancou-se por dentro com a mulher e não deixou nem a faxineira entrar. Não quis conversar por interfone com o zelador que iria trocar o botijão de gás. Sentia-se marcado com uma das pragas do Egito. Ao amanhecer do dia 21 de março, encontrou outro papelucho no lugar de sempre. Ele não teve coragem de abrir. Queimou o bilhete na boca do fogão em que fazia o café.

Eduardo Mahon é escritor, membro da Academia Mato-Grossense de Letras e sócio correspondente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.



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