Segunda feira, 19 de agosto de 2019 Edição nº 14726 04/05/2017  










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Dirceu defende PT e quer guinada à esquerda

MARCELO GODOY
Da Agência Estado - São Paulo

Dias antes de ter a prisão revogada, José Dirceu escreveu do cárcere uma carta de 14 páginas à qual o jornal O Estado de S. Paulo teve acesso. Comparou os delatores que o acusam a "cachorros da ditadura", defendeu uma virada à esquerda do PT, criticou o Ministério Público Federal, a Polícia Federal e a ação do juiz Sérgio Moro. Qualificou como golpistas o governo Temer e a mídia. E, diante do risco de Lula não ser candidato em 2018, em razão dos processos em que é réu na Operação Lava Jato, o petista escreveu: "Darão outro golpe, condenarão e prenderão Lula? Serão capazes dessa violência e ilegalidade? Veremos".

PRISÃO

O ex-ministro descreveu sua rotina no cárcere. Sua cela de três metros de largura por seis de comprimento tem três camas. O antigo condestável da República, cujos cabelos aparados expõem sua calva, escreveu durante os dias 30 de março, 4, 5 e 6 de abril. "É muito triste para nós que convivemos com ele desde a luta pela redemocratização vê-lo preso. No fim, tudo aquilo que se podia imaginar de pior na forma de eles agirem, de manter o poder a todo custo, se mostrou verdade e real. E isso é muito pesaroso", afirmou o vice-presidente do PSDB, Alberto Goldman.

Apesar do que pensam seus adversários políticos, o petista escreveu na carta que espera ser absolvido. "Se há juízes em Brasília sairei da prisão e serei absolvido. Trata-se de um processo político, sumário, de exceção." E criticou as decisões de Moro. "Na prática, eu estou condenado à prisão perpétua. Basta somar as penas - 32 anos e 1 mês que, mesmo unificados, como determinou o juiz, são 25 anos e 6 meses. Como não se autoriza a progressão penal sem a reparação do dano, serei obrigado a cumprir a pena em regime fechado. Toda a pena."

POLÍTICA

Em sua carta, Dirceu afirmou que Dilma Rousseff "foi deposta por um golpe". "Não há justificativa para a ruptura do pacto constitucional de 1988. Hoje a verdade vem à tona: um presidente repudiado por 80% dos brasileiros, um programa de reformas que é uma regressão social e política, um Congresso em pânico e uma mídia que assiste ao fracasso de sua guerra midiática contra o PT, Lula e o governo Dilma."

Para ele, a médio prazo a "Justiça e a democracia se restabelecerão" no País. O futuro de Lula, de Dilma, do PT "não está decidido", e os petistas devem protestar e "acreditar".

Em sua carta, Dirceu traça uma estratégia para o PT. "Nada será como antes e não voltaremos a repetir os erros. Seguramente, voltaremos com um giro à esquerda para fazer as reformas que não fizemos na renda, riqueza, poder, a tributária, a bancária, a urbana e a política. Não se iludam vocês e os nossos. Não há caminho de volta. Quem rompeu o pacto que assuma as consequências." Para ele, nada impede que o partido apoie, se for o caso, a candidatura de Ciro Gomes (PDT) em 2018. "Devemos nos unir no 1.º ou, seguramente, no 2.º turno."

Dirceu defendeu ainda a anistia ao chamado caixa 2. "Sou favorável à Justiça, ao respeito à lei e à Constituição, à igualdade perante a lei. Não se pode aplaudir a anistia a centenas de bilhões de reais remetidos ilegalmente ao exterior por centenas de cidadãos, crime de sonegação e de evasão de divisas, de corrupção e lavagem e, não só se opor, mas se 'escandalizar' e se 'indignar' por puro farisaísmo à anistia do chamado caixa 2, como bem destacou o ministro Gilmar Mendes", escreveu.

JUSTIÇA

Por fim, o petista afirmou que juízes e promotores devem obediência à lei, em vez de "interpretar e legislar como aconteceu hoje em Curitiba". "Juízes e promotores têm lado, ideologia, são aliados de forças políticas e econômicas que deram o golpe. Foram transformados em celebridades."

E conclui: "É preciso aprovar a Lei de Abuso de Autoridade, rejeitar as 10 medidas (contra a corrupção) e submeter o Ministério Público Federal à lei. Abrir a caixa-preta de seus vencimentos, vantagens e privilégios, colocar o MPF sob controle externo e devolver à PF a sua função constitucional de polícia judiciária da União".



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