Quarta feira, 18 de outubro de 2017 Edição nº 14697 21/03/2017  










EDUARDO GOMESAnterior | Índice | Próxima

De portas

Ano de 1994. Com 12.600.697 bovinos e mergulhado em focos de febre aftosa Mato Grosso é um zero à esquerda no mercado mundial da carne. Paralelamente a esse cenário, Rondonópolis prepara a Exposul – uma das maiores exposições da pecuária nacional. O município sofre com a aftosa e um foco é notificado pelo Instituto de Defesa Agropecuária (Indea) ao lado da Exposul. Monta-se um abafa. Na condição de correspondente do Diário de Cuiabá procuro o Sindicato Rural - promotor da grande feira - que reage com uma declaração de guerra.

Sem sensacionalismo o Diário noticia o caso em manchete, editorial e charge, e em matérias subsequentes. Os textos sem alarmismo mostravam o problema, que não era generalizado e poderia ser superado.

A delegada do Ministério da Agricultura, Alzira Catunda, proibiu os leilões a campo e a cavalgada que abre a Exposul. O Indea instalou um cinturão sanitário em entorno do parque e pedilúvio nos portões; e reforçou a vacinação dos animais que o adentravam. Mesmo com esses cuidados expositores desistiram de participar do evento.

A cobertura do foco da aftosa ao lado da Exposul antecipou a criação da política sanitária animal mato-grossense por determinação do governador Jayme Campos. Ganhei inimigos no Sindicato Rural - não os cito porque alguns morreram e jamais acuso quem não pode se defender.

A seriedade jornalística há 23 anos contribuiu para que Mato Grosso virasse a página daquela doença de forte apelo econômico. Em resposta e como reforço no combate ganhamos o Fundo Emergencial da Febre Aftosa (Fefa), liderado pela Federação da Agricultura e Pecuária (Famato) e composto por membros da cadeia pecuária. A doença insistia e surgia aqui, ali e acolá, mas cada vez com menos intensidade. O último foco – esse clínico – foi notificado no município de Terra Nova do Norte em 16 de janeiro de 1996. Desde então foi banida do estado do maior rebanho nacional, que incluindo bubalinos é de 30 milhões de cabeças.

Não há analogia entre 1994 e o escândalo da Operação Carne Fraca da Polícia Federal. Porém, a análise dos benefícios com a solução do problema do ontem e dos impactos que acontecerão no amanhã, em breve nos mostrará o diferencial entre a serenidade e o fantasioso. Mato Grosso não está no escândalo, mas arcará com suas consequências.

Em 1994 o Diário tratou a aftosa como problema localizado a ser revertido. Mesmo assim enfrentou resistências de técnicos do Indea que tinham interesse no abafa, de sindicalistas e de pecuaristas que ao invés da vacinação derramavam querosene no cangote de seus bois em nome da crença de que tal prática se traduzisse em cobertura vacinal. O Jornal foi uma das vozes em defesa da qualidade sanitária do rebanho e do consequente fortalecimento de nossa economia. Para alcançarmos certificação da Organização Internacional de Epizootias (OIE) Mato Grosso travou muitas lutas e dentre seus líderes é preciso destacar Zeca de Ávila, que presidia a Famato.

Agora, com as exceções de praxe, a imprensa e as mídias sociais jogam a cadeia na pecuária na vala comum. A absurda luta de classes, o deboche, o azedume contra políticos e outros argumentos sem sustentação empurram um dos pilares econômicos do Brasil para o ralo.

O resultado da transparência responsável sobre a aftosa no ontem pode ser atestado direta e indiretamente. A balança comercial de 2016 registra que Mato Grosso exportou US$ 1,35 bilhão (FOB) em couro e carnes bovinas, suínas e de aves. A expansão da safrinha do milho foi puxada pela necessidade de se transformar proteína vegetal em proteína animal perto do local de terminação e abate. A carne mato-grossense está nos supermercados em todos os cantos do Brasil e também na Europa que era a grande vitrine cobiçada quando a aftosa rondou a Exposul. O ganho é amplo, principalmente na qualidade do produto, além, é claro, da receita com a exportação, o faturamento com o mercado brasileiro e o abastecimento doméstico. Saldo melhor, impossível.

Lamento a vulgarização que se tenta dar à indústria frigorífica e ao Serviço de Inspeção Federal (SIF), e a coletivização de fatos isolados. Espero que o episódio seja esclarecido e uma vez comprovado crime que os responsáveis sejam condenados. Torço pelo fim da pirotecnia e me preocupo com suas consequências econômicas e sociais. Não podemos esperar que o barulho de algo ainda invisível por se encontrar do outro lado da curva do tempo seja bom. Creio que não será fácil para o nosso ministro da Agricultura Blairo Maggi fazer a travessia nas águas revoltas da irresponsabilidade crítica. Temo que novamente Mato Grosso enfrente barreiras sanitárias como aconteceu quando foram notificados focos de aftosa em Porto Murtinho (MS), em 1998; e Monte Alegre (PA) e Careiro da Várzea (AM), ambos em 2004. Também temo que o ecolouquismo e os agentes do quanto pior melhor, botem mais fogo na satanização do agronegócio mato-grossense.

No ontem, em Mato Grosso Jayme Campos encontrou a saída. Torço por um gol de placa de Blairo. O Brasil está acima dos medíocres que intencionalmente ou não poderão fechar portas internacionais à nossa carne (incluindo Mato Grosso), abertas com dificuldade no passado.



* EDUARDO GOMES DE ANDRADE é jornalista

eduardo@diariodecuiaba.com.br



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