Domingo, 19 de maio de 2019 Edição nº 9916 08/04/2001  










COBERTURA POLÍTICAAnterior | Índice | Próxima

Jornalismo das grandes concessões

JOSÉ ANTÕNIO PALHANO
Do Observatório da Imprensa

Enterrada a CPI da Corrupção, cabe um rescaldo da atuação da imprensa brasileira no natimorto episódio. Para tanto, basta um rasgo que seja de humildade para reconhecer o óbvio ululante (nada mais histórico e preciso que invocar Nelson Rodrigues em tempos de um Congresso pornográfico): jamais, em momento algum, nós, jornalistas, conseguimos passar ao público a crônica exata dos acontecimentos que agora se esvaem no aborto patrocinado pelo governo. Pelo menos com a isenção e o controle de nervos necessários à elaboração de uma informação segura e desinfetada do passionalismo vigente.

Naufrágio semelhante obriga-nos a encontrar causas e origens que extrapolem do velho e cansativo maniqueísmo que regula e delimita espaços onde evoluem "contrários" e "chapas-brancas". Até porque tal divisão, por mais real que seja, foi desde sempre olimpicamente desprezada pelos agentes etiológicos do que se convencionou chamar de crise política. A coisa, que só poderia mesmo redundar num portentoso vácuo de informação, é mais embaixo. Onde faz um estrago danado que só vendo por conta de imperdoáveis concessões que andamos a patrocinar sob supostas e sacrossantas prerrogativas rezadeiras do pleno e soberano exercício da profissão, conforme se segue:



Primeira Grande Concessão

Mergulhamos de cabeça na pantanosa idéia de tratar Jader Barbalho conforme critérios exclusivamente morais. Deu-se então que a unanimidade resultante – reveladora de um indivíduo abaixo de qualquer suspeita – serviu apenas para instituir um diversionismo que foi de extraordinária valia para o senador (sem prejuízo para a irrecuperabilidade da sua reputação pessoal), a quem coube apenas traçar uma estratégia capaz de aparar golpes que, ao fim e ao cabo, poderiam ser traduzidos para o público externo, ou pelo menos parte considerável deste, como mera implicância. Malgrado a baixa estima que grassa entre nós feito a aftosa no Velho Mundo, ninguém chega à presidência do Senado sobrevivendo incólume à irrecusável acusação de apropriação indébita sem que seja um razoável manipulador.

Fôssemos os jornalistas menos sôfregos, ansiosos e, principalmente, refratários à adoção de artes circenses terceirizadas na conta da tal "prática democrática", chegaríamos a conclusões tão diversas quanto bem mais graves. Trata-se pura e simplesmente da impotência em interpretar Jader Barbalho como um espécime irreversivelmente inadaptável à mesma "prática democrática". Assim, não foi seu colega Antonio Carlos Magalhães quem levantou messianicamente a capa preta que encobria seu passado sujo. Foi a democracia quem cumpriu tal papel. Em outras palavras, não fosse a circunstância ACM, haveríamos de chegar a um dia no qual suas picaretagens viriam à tona de qualquer outra maneira. Cumpre-nos chorar inconsolavelmente, de broxa na mão, por não conseguirmos fazer a nossa parte – convencer a opinião pública da premente e cívica necessidade de evacuar Barbalho – depois que a democracia fez a sua.

Parênteses: estamos dispensados de reconhecer em Antonio Carlos Magalhães qualquer atributo pessoal que seja capaz de lhe emprestar a auréola de um herói que se oferece em sacrifício em nome da democracia ora exposta a terríveis ataques especulativos executados por salteadores de ocasião. Se o senador baiano o fez inspirado em ódios, contrariedades e travos amargos, no fundo foi levado a cometer monumentais erros de estratégia em virtude de sucumbir às variações e solavancos do jogo democrático que haveria de lhe sugar poder – jogo ao qual, com o tempo, se revelou também inadaptável.

As diferenças entre ele e o senador paraense são profundas o suficiente para nos alertar que tiradinhas do tipo "são farinhas do mesmo saco" se prestam apenas para conversas fiadas de botequim, nunca para jornalistas sérios. A redemocratização pega ACM como um remanescente do coronelismo tradicional carregado de uma "cultura" que lhe permitiu atuar efetivamente no campo social, embora restrita aos limites geográficos da Bahia. Já Barbalho pertence a outra fornada, mais recente, configurando-se como uma variável política infinitamente mais fria, objetiva e perigosa, obcecada e estimulada pela idéia de que avançar sobre o patrimônio público é um fim em si mesmo. Chega agora ao topo, deixando para trás mestres e seguidores que sucumbiram pelo caminho, seja porque foram cassados, seja por mera incompetência.

Enfim, resta-nos reconhecer que o Estado de Direito a que nos propusemos não dispõe de ferramentas adequadas para desalojá-lo. Além de informarmos mal, não logramos, como formadores de opinião, levantar as arquibancadas contra esta obscena conjuntura.



Segunda Grande Concessão

Nossa pernóstica e irresponsável concordância frente a uma gigantesca confusão na qual coabitam, muitas vezes na mesma página, colunistas indignados e moderados com editoriais nem tanto, onde a necessidade de "sobrevivência" empresarial leva direto à aplicação permanente de compressas quentes. Que o opinionismo assinado eventualmente divirja das idéias do patrão é até saudável. Quando o processo se revela uma pletora terrível de informações e conceitos que se entrechocam, conseguimos apenas confundir espetacularmente o leitor. Dá-se aqui uma falência múltipla da estrutura jornalística, na qual a profusão de notícias e opiniões pode ser comparada a certas instâncias clínicas patológicas, onde a depleção de algumas substâncias aliada ao aumento de outras produz, por exemplo, coagulação intravascular disseminada (CID), que se fez recentemente em Covas.

Aí não adianta nada fingir espanto com ibopes e datafolhas que sinalizam para a melhora dos índices presidenciais em época tão "imprópria". Não passa de condenável e sorrateira atitude carimbar a alma do distinto leitor com impublicáveis pecados que estariam ora induzindo-o a manifestar indiferença com a podridão em curso. Em suma, acabamos de receber duríssima lição segundo a qual retórica, eloqüência e supostas independências editoriais não fazem nem cócegas entre a corja. Soberba desmedida, esnobamos o triste exemplo protagonizado pela nossa esquerda, que desde os primórdios está roxa e rouca de tanto se indignar, patinando no mesmo lugar e emprestando indispensável suporte institucional a Jader Barbalho e companhia.

Se a situação é grave, já dá pelo menos para fazer o nosso mea culpa. Informamos pessimamente, donde resta um leitor perplexo e confuso. Até por instinto de sobrevivência, ele prefere deixar tudo como está na expectativa de que o cheiro fique mais suportável.

E quem quiser que conte outra.



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