Domingo, 08 de dezembro de 2019 Edição nº 14136 26/02/2015  










ROBERTO B. DA SILVA SÁ Anterior | Índice | Próxima

Velhos tachos

Para este artigo, não faltariam “bons” temas. A semana começou “fantástica”. O “Fantástico”/Globo, em 22/02, expôs o que todos os mato-grossenses já sabiam: por aqui, a corrupção também tem moradia.

Dias antes, outro “bom” tema foi mote do “Bom Dia Brasil”: os cortes de verbas do governo Dilma atingiram o MEC. Além das universidades, até o Pronatec, cantado em verso e muita prosa durante a campanha eleitoral, foi vítima. Logo, a Pátria, que já havia perdido as chuteiras na Copa, continuará assim...

Mas, mesmo com tantos “bons” temas, hoje, falarei de uns “Velhos tachos”: título de um dos poemas de Avoante do Cariri, cujo nome de certidão é Antônio Rodrigues Pimentel, a quem presto homenagem, uma vez que sua morte ocorrera em fevereiro (dia 07) de 2007.

Eis o poema:

“Aposentados vos contemplo, ó tachos,// Relíquias eloquentes de um passado!// Recendeis a heroísmo embalsamado,// Acrisolado em mil e um despachos.// Centrastes atenção e sapateado,// Escanchados sobre ígneos capachos,// Enquanto ao vosso bojo, erguia-se em cachos// A escuma pardacenta do melado.// Testemunhas da história urdidura// Que as lágrimas transmuta na fartura,// Luzis no báratro de um céu bem atro.// E, ao refogar doçura em dissabores,// Me segredais, de em meio aos bastidores,// Que a vida nada é mais do que um teatro.”

Este soneto de Avoante foi dedicado ao “Saguão do Teatro Universitário”. A essa referência, informo: os “velhos (e lindos) tachos” decoravam o foyer do Teatro da UFMT. Quando lá estavam, impossível não vê-los. Ao poeta, impossível não contemplá-los.

Por meio dessa contemplação, o leitor ganha uma “aula” magistral, pois aqueles “tachos”, hoje “aposentados”, ao servirem de “relíquias eloquentes de um passado”, acionam profundas e doloridas reflexões advindas do período colonial.

Dessa lembrança, sabemos que os tachos eram um dos componentes na vida dos engenhos. Desses espaços, além de outros, alguns signos são-lhes naturalizados: a casa-de-engenho ou moita (fábrica), a casa-grande (onde residiam os proprietários das fazendas) e a senzala, onde eram amontoados os escravos e tudo mais que pertencesse à propriedade.

No tocante à função, de tudo se fazia nos tachos: da “escuma pardacenta do melado” (caldo-de-cana ou garapa) à feijoada. Por conta dessa abrangência, os tachos, personificados por Avoante, tornaram-se “testemunhas da história urdidura”.

E porque eram manuseados pelos escravos podiam, como nada e/ou ninguém, “falar” de tantas lágrimas derramadas por conta do árduo trabalho, mescladas à saudade das terras africanas, de onde os escravos eram retirados à força. Podiam dizer, por meio de imagem tão antitética quanto paradoxal, como era o processo de “...refogar doçura em dissabores”. Podiam segredar ao eu-poético “Que a vida nada é mais do que um teatro”, cuja cena final nem sempre é happy end a todas as personagens que nela atuam.

Pois bem. Depois da reforma do Teatro da UFMT, os tachos de bronze, inseridos em seu foyer por Fernando Pace, idealizador da primeira decoração daquele local de relevante importância à cultura, não voltaram ao espaço original no dia da reinauguração.

Pouco antes de fechar este artigo falei com a reitora, Lúcia Cavalli, e com o maestro Fabrício Carvalho, responsável pela cultura na UFMT. Respeitosamente fui convidado para ajudar a pensar no retorno desse bem simbólico ao foyer do Teatro Universitário.

Avoante e Pace sentir-se-iam honrados com a preservação, que possibilitará ao público continuar pensando sobre sua própria história.



* ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

rbventur26@yahoo.com.br



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