Sexta feira, 28 de fevereiro de 2020 Edição nº 13976 22/08/2014  










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Morte e Vida Osmarina

Há exatos 60 anos, o eterno mestre pernambucano João Cabral de Melo Neto escrevia um poema em redondilha maior que marcaria em definitivo sua obra imortal: “O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias”. À luz da Literatura Brasileira surgia “Morte e Vida Severina”, ainda sob o luto fechado de um povo comovido pelo suicídio do presidente da República, Getúlio Vargas. Era o início de uma nova era na política nacional, fosse para bem, fosse para mal.

À alvorada daquela quarta-feira, 13 de agosto de 2014, o cenário político-eleitoral brasileiro parecia determinar um norte faltando uma semana para o início da propaganda obrigatória em cadeia de rádio e tevê: a candidatura à reeleição da presidente Dilma Rousseff seria coroada pelos 12 minutos diários de muito marketing sobre o zero elevado ao quadrado de sua gestão; o senador tucano Aécio Neves tentando levar o pleito ao segundo turno para um embate cara-a-cara com a petista; e a suposta terceira via construída por um casamento improvável entre o socialista (quase) desconhecido Eduardo Campos e a ambientalista (quase) popular Marina Silva.

A mensagem deixada, horas antes, por Eduardo Campos na edição do principal telejornal do país poderia ser apenas mais um clichê de campanha, quem sabe?, até antevendo que seu nome só seria realmente forte nas eleições de 2018. O lugar comum revelou-se, na verdade, a derradeira frase pública a ser entoada feito lema maior de uma nação: “Não vamos desistir do Brasil”.

Muito bem disse o cientista político Murillo de Aragão, presidente da Arko Advice, sobre o universo político ser imponderável: “Até quem faz previsões e acerta, mente. Porque o futuro é imprevisível”. Eis que o crepúsculo daquele 13 de agosto teria outros tons: um trágico acidente aéreo ceifou a vida de Eduardo Campos. Da perplexidade à comoção generalizada, como é próprio aos países cuja fé está arraigada à cultura e à vida em sociedade, o outrora (quase) desconhecido socialista tornou-se santo súbito, mártir imediato. Em 24 horas migrou dos reles 8% nas pesquisas a principal cabo eleitoral do país faltando menos de dois meses para a verdade das urnas.

Como num espetáculo tautológico, a morte volta a dar vida a Marina Silva. Em 1988, quando o covarde assassinato de Chico Mendes em Xapuri comoveu o país e o mundo, Marina se tornava a vereadora mais votada de Rio Branco. Logo em 1990, repetiu a maior votação para uma cadeira de deputada estadual na Assembleia Legislativa do Acre. No ano seguinte venceria a morte após contaminação por metais pesados, resultado da vida como seringueira na Floresta Amazônica e do tratamento contra leishmaniose e várias hepatites e malárias.

Trajetória meteórica e com votação histórica, tornou-se a mais jovem senadora da República em 1994. Ministra de Estado durante o governo Lula, por questões políticas e alguma incompetência executiva, viu morrer seus principais projetos e ideais enquanto petista, culminando em sua lacrimejante saída do partido e uma bem-sucedida candidatura à Presidência em 2010, quando capitalizou impressionantes 20 milhões de votos pelo pequeno PV.

Ao refugiar-se no silêncio da neutralidade política, parecia destinada ao ostracismo, legado de um meme ultrapassado. Reinventou-se e, com boa dose egocêntrica, partiu à criação de um partido para chamar de seu: a Rede Sustentabilidade, abatida pela poderosa máquina de destruição governista nos limites do Tribunal Superior Eleitoral, que negou-lhe registro ante outros fisiológicos deferidos. A morte dava-lhe vida nova: o surpreendente convite para ingressar no PSB e integrar uma chapa presidencial ao lado do então governador pernambucano Eduardo Campos. O movimento foi chamado de “o casamento do ano”, mas 2014 chegou e a candidatura Eduardo-Marina não decolou. Veio, então, o trágico 13 de agosto.

Mais de meio século depois dos versos inesquecíveis de João Cabral de Melo Neto, surge uma mulher a entoar nova redondilha: “Como há muitos Ideais com mães chamadas Marina, fiquei sendo o Ideal da Maria Osmarina, do finado Eduardo da gente nordestina”. Morte e vida voltam a determinar o futuro da acreana Maria Osmarina Marina Silva, ungida herdeira e sucessora do maior cabo eleitoral da atualidade, cuja morte trágica transformou dramaticamente o cenário político e, como nunca antes em sua história, estendeu-lhe o tapete à rampa frontal do Palácio do Planalto.

*HELDER CALDEIRA é escritor e jornalista.

www.heldercaldeira.com.br/helder@heldercaldeira.com.br



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