Quinta feira, 21 de março de 2019 Edição nº 13952 25/07/2014  










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Suassuna esteve em Cuiabá há oito anos

Maior intelectual da cultura popular brasileira veio abrilhantar saudosa Literamérica. Esta é singela homenagem

Lorenzo Falcão
Do www.tyrannusmelancholicus.com.br

Uma conversa de quase uma hora no Hotel Paiaguás privilegiou alguns poucos jornalistas e outros tantos curiosos que foram à coletiva de Ariano Suassuna.

O escritor paraibano estava desde sábado em Cuiabá para participar da Literamérica, no Espaço Universitário, sob a coordenação da Unemat – Universidade do Estado de Mato Grosso. Veio para engrandecer o evento com a sua famosa “aula espetáculo”.

Descontraído e bem humorado, o mestre da literatura brasileira abriu-se durante a entrevista. “Peço que vocês não me perguntem muito, porque naturalmente já falo demais...”. É a primeira coisa que ele diz assim que se senta numa salinha reservada para a entrevista.

Sua voz sai baixa, com esforço. Ele não pode nem deve falar muito, porque tem a aula-espetáculo à noite. Gravadores são ligados, fotógrafos disparam e, milagre, em se tratando de uma celebridade como esta, apenas um cinegrafista. Alguém tem a feliz ideia de propor que nos aproximemos mais da mesa onde ele está sentado. Excelente. A entrevista assume ar de conversa entre amigos. E quem não quer ser amigo de Ariano Suassuna?

E ele vai falando. Nem são necessárias muitas perguntas. Fala da vida, da sua trajetória, de cultura popular, erudição e conta alguns ‘causos’. Esparrama seu conhecimento, sua vasta cultura. Tudo isso sempre entremeado com comentários engraçados e às vezes com uma leve ironia, o que provoca risos diversas vezes. Seu amor pelas artes e o prazer em compartilhar o conhecimento são características marcantes da personalidade deste verdadeiro ícone da cultura brasileira.

Ariano, que é sempre muito assediado pela imprensa e público, em geral, explicou sua vocação literária lembrando que escreveu o seu primeiro conto aos 12 anos. Um texto baseado num fato verídico. Assim o fez, sem perceber. Essa situação, aliás, é algo que tem sido recorrente em sua vida. Vivencia fatos e arremeda-os de forma fantasiosa. Outra vertente em sua criação é a releitura de clássicos da literatura. Assim, os amores impossíveis, os improváveis, brigas de famílias etc, costumam habitar sua literatura. Uma hora é Tristão e Isolda, noutra Romeu e Julieta.

Declara-se um defensor das artes e da cultura brasileira, mas abomina o rótulo da xenofobia. Explica que a base de nossa cultura popular é oriunda das manifestações do índio, do negro e do europeu pobre.

Registra que o fato de ter assumido a postura de defensor da cultura popular brasileira tem lhe valido muitas críticas e acusações injustas. Explica que o fato de defender nossas manifestações jamais significará a execração dos artistas mundiais. Assume uma dívida colossal para com os grandes gênios das artes.

Começa a rir. Lembra-se de um jantar na sede da “Folha de São Paulo” com um grande grupo de jornalistas que o interpelava. “Todas as vezes em que eu ia comer... vinha uma pergunta. E eles iam comendo, já que cada hora um perguntava... e eu ali com fome e tendo que responder a todas as perguntas”, conta, sorrindo.

O escritor emociona-se quando é indagado se sua escrita é uma forma de atenuar, de se “vingar” do assassinato de seu pai, um episódio que marcou a sua vida. Ele não chega a negar, porém, avisa que a história tem sido como que sublimada. Confessa-se católico, daqueles que rezam todas as noites junto com a esposa. Hora de pedir a Deus que lhe ensine o caminho do perdão, que não descobriu ainda. Mas percebe-se no seu olhar, carregado pelos sentimentos do mundo e brilhantes pela luz da inteligência, que o escritor tem uma alma generosa que transcende os sentimentos vis. Ariano parece não ser deste mundo.

E já que sua literatura bebe tanto da fonte da realidade — e ele mesmo se assume como um ator a auto interpretar-se o tempo inteiro, talvez esse nordestino magro, meio espichado e com uma fama injusta de aperreado, seja “o personagem”. Nele é difícil saber onde termina a ficção e onde começa a realidade. Onde começa o erudito e se encerra o popular. Onde está a resposta e como é que fica a pergunta.



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