Segunda feira, 18 de novembro de 2019 Edição nº 13829 23/02/2014  










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Parto em casa: Humanização do Nascimento

Antônio Padilha Carvalho*
Especial para o Diário de Cuiabá

Anos atrás, assisti o filme “Treze homens e um novo segredo”, e gravei a seguinte fala de um dos personagens: “Eu não quero as dores do parto, eu só quero o bebê!” Parece-nos que essa fala coaduna perfeitamente com a ideia da grande maioria das mulheres do planeta quando o assunto é o parto.

As profissionais da saúde Simone Diniz e Ana Cristina Duarte, no seu festejado livro: “Parto normal ou Cesárea?, afirmam categoricamente que o século XX trouxe importantes avanços na assistência médica à parturiente, tais como o uso seguro de anestésicos e a cesárea, possibilitando, assim, um impacto enorme na segurança e sobrevivência de mães e bebês. O uso abusivo da tecnologia pode, porém, em muitos casos, aumentar os riscos e o sofrimento da mulher e, portanto, não ser benéfico para as necessidades biológicas, emocionais e sociais da parturiente.

As mulheres e seus familiares precisam ser devidamente informados sobre os tipos de parto à sua disposição, de maneira que esse momento possa ser o mais seguro, confortável e feliz para todos os envolvidos.

Defende-se, assim, o direito por parte da mulher de decidir como prefere dar à luz. Essa decisão tem por objetivo garantir que a futura mãe tenha privacidade, conforto e segurança no parto, e que não passe, sem necessidade, por procedimentos invasivos, dolorosos e potencialmente arriscados.

O que é parto humanizado? Eleonora de Moraes, psicóloga e doutora em Ribeirão Preto-SP, responde: “Uma importante questão a ser esclarecida é que o termo ‘parto humanizado’ não pode ser entendido como um “tipo de parto”, onde alguns detalhes externos o definem como tal, como o uso da água ou a posição, a intensidade da luz, a presença do acompanhante ou qualquer outra variável. A humanização do parto é um processo e não um produto que nos é entregue pronto.

O termo “humanização” carrega em si interpretações diversas. A qualidade de “humano” em nossa cultura quase sempre se refere à ideia arraigada na moral cristã de ser bom, dócil, empático, amável e de ajudar o próximo. Nesse contexto, retirar a mulher de seu “sofrimento” e “acelerar” o parto através de medicações e de manobras técnicas ou cirúrgicas é uma tarefa nobre da medicina obstétrica e assim vem sendo cumprida.

A qualidade de humano que se quer aqui revelar envolve os processos inerentes ao ser humano, os processos pertinentes ao ciclo vital e a gama de sentimentos e transformações que a acompanham. O processo de nascimento, as passagens para a vida adolescente e adulta, a vivência da gravidez, do parto, da maternidade, da dor, da morte e da separação são experiências que inevitavelmente acompanham a existência humana e por isso devem ser consideradas e respeitadas no desenrolar de um evento natural e completo como é o parto.

Muitas e muitas mulheres, ao relatarem seus partos via cesariana, mostram a frustração de não terem parido naturalmente, com as próprias forças, os seus filhos. Querem e precisam vivenciar o nascimento de seus filhos de forma ativa, participativa, inteira. Viver os processos naturais e humanos por inteiro muitas vezes envolve dor, incômodo, conflito, medo. Mas são estes mesmos os “portais” para a transição, para o crescimento, para o desenvolvimento e amadurecimento humano.

A humanização proposta pela ‘humanização do parto’ entende gestação e o parto como eventos fisiológicos perfeitos (onde apenas 15% a 20% das gestantes apresentam adoecimento neste período, necessitando cuidados especiais), cabendo à obstetrícia apenas acompanhar o processo e não interferir, buscando ‘aperfeiçoá-lo’.

Humanizar é acreditar na fisiologia da gestação e do parto. Humanizar é respeitar esta fisiologia, e apenas acompanhá-la. Humanizar é perceber, refletir e respeitar os diversos aspectos culturais, individuais, psíquicos e emocionais da mulher e de sua família. Humanizar é devolver o protagonismo do parto à mulher.

É garantir-lhe o direito de conhecimento e escolha.

Marilia Largura, residente em Brasília, parteira há mais de 40 anos e com mais de 5.000 partos assistidos, garante: O parto em casa preenche de maneira particular as necessidades psicológicas e sociais. Permite a participação e a presença ativa do pai ou companheiro, não como mero espectador, mas como agente construtor do nascimento do seu filho.

Dar à luz como desejamos, onde e com quem queremos é um direito fundamental. Para as mulheres com saúde, o parto em casa é uma opção entre outras e que pode ser considerada por muitos “como uma loucura”. Entretanto, a sociedade foi condicionada a assim pensar de algumas décadas para cá. Até os anos 50, a maioria das mulheres dava a luz em casa, no aconchego do lar.

A possibilidade de escolher o local do parto é extremamente importante. A situação de monopólio da assistência ao parto pelos hospitais e maternidades que ocorre na atualidade jamais beneficia o consumidor, muito pelo contrário. Em um contexto onde existe possibilidade de escolha, cada lugar deve oferecer condições de segurança e de auxílio semelhante ao outro. Em países como o Canadá, certas opções oferecidas em alguns hospitais maternidades apareceram para concorrer ao conforto e à liberdade proporcionadas pelo parto em casa.

O verdadeiro sentido do nascimento foi se perdendo pouco a pouco nos meandros das regras e condutas institucionais. A liberdade que a casa proporciona ao casal durante o trabalho de parto permite a ele reencontrar o verdadeiro sentido desse acontecimento e realizá-lo da forma que mais lhe convém. Mulheres sadias decidem dar à luz em suas casas e casais ousam cuidar de seus filhinhos segundo seu instinto, afetuosamente, acompanhados de profissionais “observadores” que deixam que os pais definam suas necessidades e prioridades.

Um número reduzido de médicos assiste partos em casa, mas são as parteiras em sua grande maioria que acompanham os casais nessa escolha.

As mulheres que decidem dar à luz em casa são frequentemente objeto de pressões injustas de efeitos profundamente negativos. Muitas vezes são obrigadas a esconder o fato de familiares e amigos. Sei mesmo do caso de uma parturiente que foi ameaçada pelos vizinhos que chegaram ao absurdo de chamar a polícia.

O desaparecimento do parto em casa (como está acontecendo em muitas regiões brasileiras) rompe uma grande cadeia formada por mulheres que, no decorrer dos tempos, puseram seus filhos no mundo em seu próprio lar, provando com esse fato que o parto é um ato natural.

A questão: Por que dar à luz em casa? Deveria ser precedida por uma pergunta não menos importante: Por que dar à luz no hospital?

Nenhum estudo demonstrou que dar à luz no hospital contribuiu para melhorar a condição da mulher sadia. Existem, sim, fatos que comprovam que a saúde da mãe e da criança pode melhorar e muito com uma boa alimentação, com a qualidade do saneamento básico (esgoto, água e instalações sanitárias), com melhores condições de vida em geral, com a descoberta de métodos contraceptivos isentos de efeitos secundários e o aperfeiçoamento das leis de proteção à mulher.

A partir dos anos 50, um grande movimento de hospitalização se expandiu em todas as áreas da saúde. Como a classe médica acredita que qualquer parto oferece sempre uma margem de risco, o nascimento não teve como escapar a essa nova tendência.

O controle da medicina sobre os nascimentos se apoia sobre o desejo dos pais de fazer o melhor para seus filhos e sobre a ignorância desses pais em relação ao fato em si (todo o processo da gravidez, parto e puerpério). Essa ignorância é mantida por aqueles que têm interesse em permanecer os “experts” na assistência à mulher grávida, aos quais todos devem obedecer. Essa forma de controle que nunca aconteceu antes é possível porque tem suas raízes no medo que é tão velho como a humanidade. O medo do nascimento, semelhante ao medo eterno e universal da morte.

Os argumentos contra o parto em casa são os mais variados. Um dos mais expressivos é o de que em casa a infecção por micróbios patogênicos é muito maior, quando, na realidade se sabe que um dos grandes riscos que o bebê corre nos dias de hoje é o de contrair a infecção hospitalar.

As infecções por stafilococos jamais ocorreram nas casas, enquanto são muito frequentes nos hospitais, trazendo sérias consequências para o bebê. Tomamos conhecimento através dos jornais de episódios recentes nos quais quase uma centena de recém-nascidos perderam a vida em virtude de epidemias nas maternidades. Nem sempre as notícias são publicadas, e as mortes continuam a ocorrer silenciosamente e sem alardes jornalísticos.

O médico garante no hospital o parto perfeito e o bebê perfeito. “... Não se preocupe, mãe, nós nos ocuparemos de tudo”. A ideia do nascimento no hospital, em um local onde a equipe de saúde “se ocupa de tudo” pode dar a falsa impressão de que o casal não tem também uma parte de responsabilidade no ato do nascimento.

Essa ideia coloca o pai e a mãe do bebê em uma atitude passiva, na qual a colaboração deles parece impossível e muitas vezes indesejável. Essa filosofia teve como resultado a multiplicação incontrolável de intervenções inúteis e o desespero de muitos casais que, lesados, procuram os responsáveis pelas imperfeições que foram obrigados a aceitar e conviver, às vezes pelo resto da vida.

É surpreendente que suspeitas sejam levantadas sobre os nascimentos que ocorrem nas casas e não se faça o mesmo sobre o que está acontecendo nos hospitais. Entretanto, riscos existem e são numerosos.

O primeiro contato do bebê com o nosso mundo dentro do ambiente hospitalar se faz na maioria das vezes em meio à indiferença, tensão e nervosismo. Pessoas que não mantêm laços afetivos com a família e, portanto, estranhas, recebem o bebê, o manipulam, levam de cá para lá, como se ele fosse uma “coisa”, um objeto, não um ser profundamente sensível e sujeito às influências do meio.

Seus gritos parecem dizer: “Leve-me de volta para os braços de minha mãe ou então para os braços de alguém que tenha amor por mim”.

Enquanto o bebê grita e esperneia, mede-se a sua estatura, pesa-se, tira-se as impressões plantares, aplica-se uma injeção no músculo, aspira-se as mucosidades com fortes aparelhos elétricos de sucção, tudo em nome de uma ciência, de uma tecnologia jamais reavaliada.

Existe demasiada confiança na aparelhagem especializada que não é capaz de avaliar e de tomar decisões. O primeiro aconchego do bebê com a mãe, o primeiro olhar para os pais, o tempo de espera para o primeiro contato e conhecimento mútuo não entra em cogitação. A pressa é a “senhora absoluta” da situação. É preciso mandar a mãe para a cama, limpar a sala e os instrumentos, terminar tudo rapidamente.

Os efeitos perversos da tecnologia são numerosos. Uma intervenção não justificada desencadeia frequentemente muitas outras, cada uma com seus efeitos negativos e posteriormente perigosos para a saúde da mãe e do seu bebê.

Laura Padilha, que é enfermeira obstetra (parteira), doula e mestranda pela Faculdade de Enfermagem da UFMT em Cuiabá, recentemente publicou um artigo aqui no “Diário de Cuiabá” intitulado “A antiga-nova forma de nascer” onde assevera com propriedade: “Antigamente, há aproximadamente 50 anos atrás, o parto era um evento familiar, domiciliar, esperado, natural... Nesse contexto, havia muitas crendices e mortalidade materna- infantil".

Com o avanço tecnológico, ao passar dos anos, o parto foi transferido do ambiente domiciliar para o hospitalar, e o que era normal “virou cesariana”. O parto se transformou em um evento médico, fora do ambiente do convívio da família e totalmente planejado. Começamos a brincar de Deus, escolhendo o dia em que as crianças deveriam vir ao mundo.

A cultura da cesariana “virou tão normal” em nossa sociedade que se você pergunta a uma gestante, ainda no início da gravidez, se ela já pensou a forma que seu filho irá nascer, ela diz: “Cesarea, lógico!”.

Não é à toa que a taxa de cesariana no Brasil no setor privado é de 84%, segundo os dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Mulheres submetidas a cesarianas tem maior índice de morbi-mortalidade dos que as que pariram normalmente. Porém, com o passar dos anos, os índices de mortalidade materna-infantil diminuíram, e isso não se deve a utilização da cesariana, mas aos avanços no cuidado obstétrico, principalmente pela presença da assistência médica no momento do parto. Em contrapartida, aumentaram os índices de obesos e diabéticos, que estudos apontam como fator potencial a predisposição, a cesariana.

Mas o que muitas mulheres estão fazendo ao redor do Brasil e do mundo através da informação é impressionante! Através do empoderamento, elas se conscientizam, se tornam donas do seus partos e promovem o ritual mais bonito do mundo: a mulher que se torna mãe por meio de uma nova vida”.

Algumas mulheres acham que precisam de drogas medicamentosas para ajudá-las a ser mãe; Algumas mulheres querem apagar e acordar com o filho de lado; Algumas mulheres de hoje desejam receber todos os benefícios que a tecnologia oferece.

As mulheres conscientes não precisam de drogas para ser mãe; As mulheres corajosas não querem dormir para acordar com o filho de lado; As mulheres atualizadas desejam participar de todo processo do parto que trará para o planeta um novo ser.



*Antônio Padilha de Carvalho é professor, palestrante; Especialista em Educação e Filosofia; Membro da Academia Maçônica de Ciências, Letras e Artes (AMCLA) da COMAB (Confederação Maçônica do Brasil) e colaborador do DC.



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