Quarta feira, 26 de novembro de 2014 Edição nº 13541 03/03/2013  










RUBENS DE MENDONÇA: Anterior | Índice | Próxima

Historiador sem rival de Cuiabá e de Mato Grosso

A Cidade Vive dos que vivem e viveram nela

Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá

A humanidade conti-nua alimentando a polêmica: qual é, de fato, a rainha das ciências? Uns torcem pela matemática e outros pela história. Enquanto a inteligência humana continua fervilhando, cada um defendendo o seu ponto de vista, há uma expressão atribuída a Charles de Secondat de La Brede, o Barão de Montesquieu: “Viver na ignorância do que aconteceu antes de nascermos é viver para sempre na ignorância, pois qual é o valor da vida humana se não a relacionarmos com o passado que a história guardou para nós?”.

Trazendo a sentença para o contexto regional não é difícil a assertiva de que ninguém, absolutamente ninguém, ousará discorrer sobre a história de Mato Grosso sem recorrer a Estevão e Rubens de Mendonça e a Virgílio Corrêa Filho.

Fora desses três nomes consagrados vamos encontrar, mais recentemente, Moisés Mendes Martins Junior, Elizabeth Madureira Siqueira e Alfredo da Mota Menezes. Mas também eles, historiadores contemporâneos de nomeada, foram beber nas fontes inesgotáveis de Estevão, Rubens e Virgílio.

Perdoem-me se radicalizo, mas não dá para sair fora dessas fontes. Os que tentaram (ou tentarem!) iniciarão no nada e terminarão em lugar nenhum.

- Achava que não deveria focalizar nesta coluna os grandes vultos, tradicionalmente assim reconhecidos. Mas me contaram que disseram pelas esquinas ser Rubens de Mendonça apenas um nome emprestado a uma avenida. Ah! dá licença! Tomo, pois, o espaço, reservado a personagens mais modestos da nossa história, mas igualmente notáveis, para me ocupar do saudoso Rubinho, o maior e mais completo historiador de Cuiabá e de Mato Grosso.

Para consolidar o projeto fui atrás da Procuradora Federal Adélia Maria Badre Mendonça de Deus, filha única de Rubens e Ivone.

Fã incondicional do pai, guardadora de todos os seus segredos, ela está aposentada na Universidade Federal de Mato Grosso e prepara um grande projeto, o maior de sua vida: festejar, com todas as pompas possíveis, o centenário de nascimento de Rubens de Mendonça.

A partir de 2014, no mês de julho, ela quer realizar eventos mensais que terão desfecho no dia 27 de julho de 2015, por ocasião do centenário, e inauguração de busto em praça pública.

É uma empreitada e tanto que deverá recrutar as atenções da Academia Mato-grossense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, do Governo do Estado, da Prefeitura Municipal de Cuiabá, da UFMT, Unemat, UNIC e tantas outras instituições ligadas aos movimentos culturais. A oportunidade será única, sem dúvida, para homenagearmos Rubens de Mendonça o grande herói que escreveu, sobretudo, as histórias de Cuiabá e Mato Grosso.

Espirituoso e brincalhão, Rubens de Mendonça nasceu em Cuiabá no dia 27 de julho de 1915 e faleceu, vítima de um câncer na laringe, provocado pelo tabagismo, no dia 03 de abril de 1983, aos 68 anos.

Filho de Estevão de Mendonça e de D. Etelvina Caldas de Mendonça, Rubinho, como era chamado na intimidade, foi poeta, escritor, jornalista profissional e, principalmente, historiador. Não vamos publicar a relação de suas obras por falta de espaço.



DC Ilustrado: Conte-nos Adélia, da formação da família de seu pai.

Adélia: Papai namorou minha mãe durante 15 anos e foram casados durante 28 anos: de 27 de julho de 1954 a 03 de abril de 1983, quando faleceu. Da união com minha mãe Ivone Badre de Mendonça, o casal trouxe ao mundo uma única filha que sou eu. Casei-me com o economista Miguel Luiz de Deus e tivemos Monica e Marina e ainda o Felipe, nosso neto.



DC Ilustrado: Há uma curiosidade enorme dentre as pessoas que conheceram seu pai. Por que ele, que nunca gostou de briga e nunca foi metido a valentão, não tirava o revólver 38 da cintura?

Adélia: Olha, Evaldo, a história que eu sei é que foi o meu tio Generoso de Mendonça, um homem valente e que gostava de briga, quem ensinou papai a andar armado. Mas não é do meu conhecimento que ele tenha sacado a arma contra qualquer pessoa. Papai não era do tipo de procurar encrencas. Era, porém, um inveterado gozador. Às vezes as suas trovas incomodavam ou ofendiam aquelas pessoas mais sensíveis. Mas o papai logo apagava o incêndio. Ele era sarcástico, irônico, brincalhão mas não alimentava o desejo de ofender. Veja você: um dos personagens mais frequentes nas quadrinhas de papai era o nosso amigo e vizinho Titito, genro do saudoso governador Garcia Neto e ex-Prefeito de Cuiabá. Pois bem: o Manoel Antônio (Titito), sempre foi um grande amigo e admirador do Rubens de Mendonça. Mas havia quem se incomodasse...



DC Ilustrado:Por exemplo?

Adélia: Certa feita a D. Maria Aparecida Pedrossian, primeira dama do Estado, foi à nossa casa reclamar de uma quadra que o papai fez debochando do governador Pedro Pedrossian. Acabaram se acertando. E veja bem: papai era admirador do trabalho do governador Pedrossian. Tanto isso é verdade que, no governo Fragelli, também amigo dele, ele escreveu: De braços cruzados/De papo pro ar/Se o Pedro fez tudo/Pra que trabalhar?. Essa quadra foi publicada no jornal Equipe, do João Balão, e já foi republicada na sua coluna como se fosse do Moacir Costa e Silva.



DC Ilustrado: Dependendo do encontro, ao qual comparecia, ele levava uma quadrinha no bolso, não é verdade?

Adélia: É verdade. Ele dizia a uma das pessoas da roda “esqueceram isto aqui no meu bolso” e entregava a trovinha. Era só risada entre os presentes...Além das celebres trovinhas que ele dizia ter sido esquecida em seu bolso, era costume de papai indagar da pessoa que contava algum caso contendo assunto de natureza grave: “Se for mentira Senhor Divino pode furar seu olho?!”.E a pessoa se estivesse dizendo a verdade retrucava: pode até furar os dois, ou então, desconsertada e sem graça, pedia: vamos parar com essa brincadeira de furar olho. E todos constatavam que o fato narrado não era verdadeiro. Coisa de Rubinho que, até hoje, é seguida por muita gente. Aliás, alguns cuiabanos cultivam o hábito de perguntar: há sinceridade nisso?Senhor Divino pode furar seu olho se for mentira?



DC Ilustrado: Essas trovas, não serão publicadas?

Adélia: Às vezes penso em publicá-las. Mas tenho receio da recepção delas por parte de alguns dos focalizados. Nem todo mundo aprecia brincadeiras...



DC Ilustrado:Algumas pessoas criticam seu pai pela expressão “morre duas vezes quem morre em Cuiabá”. Qual é a sua explicação?

Adélia: Acho que papai referia-se ao nosso isolamento. Nós ficamos como território brasileiro, mas fomos abandonados pelos grandes centros. Mas, sinceramente, acho que meu avô e meu pai, não sou capaz de separar um do outro, foram pouco reconhecidos pelos nossos homens de letras. As pessoas de fora exaltam mais os Mendonça que os daqui, infelizmente. Com isso a cuiabania está acabando, por não valorizar a história regional. Chegam a classificar os trabalhos de Estevão e Rubens de Mendonça como artesanal. E como poderia ser diferente no tempo deles?!...



DC Ilustrado: Quantas obras o seu pai publicou?

Adélia: Papai publicou 65 títulos e deixou 18 obras inéditas. Todos eles estão catalogados na UFMT, metade doado e metade vendido. Foi um trabalho maravilhoso da ilustre professora Elizabeth Madureira Siqueira por quem tenho eterna gratidão. Não sei porque a Universidade não abre ao público o conhecimento desse material. Chega a ser algo intrigante!



DC Ilustrado: Alguma pessoa de modo especial pode ser apontada como grande parceiro?

Adélia: Evaldo, eu não queria citar nomes. Mas, já que você me provocou, o grande parceiro que sempre tive foi o nosso ex-Secretário de Cultura, Professor João Carlos Vicente Ferreira. Ele me ajudou muito a manter viva a lembrança do papai e do trabalho por ele realizado.



DC Ilustrado: Seu pai já foi colunista do Diário de Cuiabá, pois não?

Adélia: Realmente, a partir de 1974 ele começou a escrever no Diário de Cuiabá a série “Sermão aos peixes” que trazia a epígrafe Ridendo Castigat Mores (Sem rancor, sem azedumes/com algumas restrições/rindo castigo os costumes/através destes sermões)



DC Ilustrado: Seu pai alimentava alguma mágoa, tristeza ou coisa parecida?

Adélia: Mágoa ele nunca teve. Ressentimentos passageiros, logo jogados para escanteio ele tinha. Tristeza ele teve quando perdeu a mãe, vovó Etelvina.



DC Ilustrado:E as alegrias?

Adélia: Era receber os amigos, principalmente no dia do seu aniversário. Gostava muito de receber presentes e que elogiassem o uísque que servia. Papai gostava de acordar cedo para ler e escrever e depois ficar à janela vendo a cidade acordar.



Este é o epitáfio

que escolheu:

Tive na vida, tudo quanto quis,

Graças a Deus, foi boa minha vida!

Graças a Deus, eu sempre fui feliz!



Opiniões sobre



Rubens de Mendonça

“A afetação, o pedantismo retórico, o requinte demasiadamente apurado, nunca fizeram parte das suas obras, dos seus escritos históricos. Estilo direto e conciso. Desprezou o rebuscamento, tendo pena honesta”. (Benedito Pedro Dorileo – Ex-Reitor da UFMT e membro da Academia Mato-grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso)



“Pois é, como são as coisas, está vendo, Rubens! Você se engrandecendo mais e mais, ao nos deixar... e Cuiabá pequenecendo em seu adeus”. (Silva Freire – poeta, advogado, escritor, membro da Academia Mato-grossense de Letras)



“O retirar-se da vida pública não o levou à solidão e ao desconforto de diminuir-lhe os frequentadores da casa. Nem o desaparecimento prematuro tirou-o do convívio dos que lhe faziam, intelectual e socialmente, a corte. Rubens ficou como memória viva, dinâmica, ainda em ebulição e, de forma inconteste e incontestável, pode ser chamado Patrimônio desta cidade”. (Cel. Octhayde Jorge da Silva, membro da Academia Mato-grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso)



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· Parabéns Dr.Evaldo. Lindo texto...linda   - Beatrice Thommen Maciel

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