Segunda feira, 25 de setembro de 2017 Edição nº 13496 06/01/2013  










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Entre as singularidades do surrealismo

Papo com poeta colombiano Armando Romero, tendo como alvo principal o surrealismo é o que se apresenta hoje nas linhas do colaborador

Floriano Peixoto*
Especial para o Diário de Cuiabá

Armando Romero (Colômbia, 1944) é poeta, ensaísta e narrador. Autor de Un día entre las cruces (1995), La piel por la piel (1997) e Lenguas de Juego – Divertimentos sobre temas conocidos (1998). Segundo nosso colaborador, o poeta e ensaísta Floriano Martins: “A partir de nosso encontro em Cincinnati (Ohio, Estados Unidos), no inverno de 2010, começamos a preparar este diálogo, guiados pelo desejo de armar um livro a partir de nossa vivência surrealista. Este é seu capítulo inicial.” Este diálogo integra um extenso volume, painel abrangente do surrealismo em todo o continente americano, de autoria do próprio Floriano Martins.

Floriano Martins: O tema do Surrealismo me parece que ainda contém um sem-número de perspectivas por explorar. Uma delas, por exemplo, é a que diz respeito à compreensão que artistas e intelectuais têm acerca da realidade cotidiana, as forças que movem nossa vida. Recordemos Breton ao dizer em um discurso em 1922 que desejava tanto – até então, pelo menos – uma revolução sangrenta, como se fosse esta a maneira com que poderíamos nos libertar de toda forma de opressão. Porém o que se passa é que o controle da revolução implica uma nova forma de opressão, e melhor o havia compreendido René Daumal, ao dizer que em toda sociedade o povo é o que mais compreende a dialética, porque não a observa de uma perspectiva intelectual, mas sim que a vive intensamente. Não quero aqui me referir unicamente ao erro da aproximação do Surrealismo com o comunismo, mas sim tocar em um ponto que me parece ter um alto grau de equívoco e de permanente recorrência entre os artistas de todas as partes – aqui já não importa sejam surrealistas ou não –, que é o abismo que poucos conseguem evitar entre a realidade concreta e sua idealização. O Surrealismo, justamente por haver proposto uma subversão na leitura do tema, seguramente poderia ter dado uma contribuição maior ao mesmo, o que acabou não ocorrendo. O que achas de começarmos este nosso diálogo por aqui, falando das coisas cotidianas que entraram na poesia e na plástica surrealista, porém que não conseguiram de todo entrar na dimensão humana, no caráter da maior parte dos artistas e poetas do Surrealismo? Há em tudo isso uma contradição, ou é natural que assim ocorra entre criadores e vida real?

Armando Romero: O mais terrível desta contradição é que a observamos hoje mesmo entre os intelectuais, sejam poetas ou artistas plásticos, que preconizam uma ideia de estabelecimento de repúblicas socialistas ou revolucionárias, onde o que se esperaria é uma ampla liberdade, porém onde o que se consegue é silêncio diante do poder e da repressão. Agora, se tratamos do Surrealismo, não creio que os problemas surjam dos Manifestos ou das proposições de Breton e seus amigos, mas sim da prática surrealista, onde a liderança passou a ser mais importante que o pensamento. Então o problema é a desobediência, porém não às leias caducas da sociedade como se queria, mas sim às ideias de mudar a vida, mudar o mundo. Foram bem poucos os poetas surrealistas que conseguiram mudar a vida no sentido estrito da palavra. Artaud, Daumal, Desnos…? Embora eu creia que não é necessário chegar à loucura ou à mística ou ao sonho hipnótico, para encontrar uma mudança na vida. Essa mudança, essa transformação, também pode ser encontrada na vida de todos os dias, de modo a não cair nas mentiras de qualquer tipo de sociedade que não esteja baseada no amor, na liberdade e na poesia. E essa é ainda a ilusão de uma realidade outra, que não temos frente a frente. Por isso, aqueles poetas que queremos nos subtrair dessas sociedades marcadas por qualquer tipo de poder, seja de esquerda ou direita, vivemos o eterno exílio em nosso mundo interior, onde o sonho se realiza dando vida e carne a nossos fantasmas, compondo paisagens onde prima o amor louco, e onde a relação com o mundo se faz através de vasos comunicantes, no alto nível da vida. Creio que às torres de guerra e poder, há que opor as torres de marfim, ou a catacumba, como queria o próprio Breton. A liberdade nos cai bem por dentro, já que por fora prima apenas a submissão.

FM:Porém a liberdade há mesmo que arrancá-la de dentro, desentranhá-la como se fosse o melhor de cada um de nós, poetas ou não, isto não importa, porque o limite entre a liberdade e a submissão não pode ser dado pela criação artística. Um poema não pode garantir um mundo melhor para ninguém, nem mesmo para quem o escreve. A liberdade como “um nascimento perpétuo do espírito”, como queria Paul Éluard, sim, mas que se realize como tal, que seja algo além de simples liberdade de expressão ou exaltação retórica. O que se passou com o Surrealismo, no pior, é que tocou em muitas feridas, todas fundamentais para o desenvolvimento de um novo homem, porém não as conseguiu abrir com a veemência necessária, com um grau mais intenso de atuação, fazendo-as sangrar sem restrições, destroçando inclusive seus pudores mais cotidianos, que fizeram com que muitos não fossem além de uma fantasia da liberdade. É por isso que se deve voltar sempre à importância daqueles que trataram de brigar mais febrilmente com os temas da loucura, da hipnose e da mística, como mencionas acima. São categorias fundamentais que foram tratadas com essa força mágica de fundir vida e obra em casos como os de Ghérasin Luca, Georges Bataille, e o que bem recordas: Desnos, Daumal, Artaud. E assim em outras categorias, como o humor negro, a histeria, as doutrinas herméticas, o amor louco, o maravilhoso, onde podemos localizar muitos poetas e artistas importantes, o que nos estimula a pensar sobre as razões de certo fracasso do Surrealismo em termos dessa mesma relação proposta como ponto central do movimento, a relação não de todo impossível entre vida e obra.

AR:É bem interessante que tenhamos começado este nosso diálogo informal sobre o Surrealismo apontando algumas falhas de seus fazeres e afazeres. Como bem dizes, as falhas estão mais na forma como alguns dos poetas e pintores interpretaram sua liberdade criadora e vital, por vezes prescindindo de certos ditados que os identificavam como surrealistas. Porém essas falhas, que, como vimos, começam pela cabeça de Breton, não podem servir para qualificar ou desqualificar todo um movimento, que marcou com seu selo maior todas as vanguardas no século XX. Daí a sua grandeza e perpetuidade.

Agora, se refletimos acerca de Dada, ou seja, se é possível refletir sobre algo que nos exige a não-reflexão para sua compreensão, ou apreensão, vemos que Tzara e seus amigos de Zurique queriam atirar a última pedra e, certamente, a atiraram. Porém o fizeram tão longe que ainda hoje não podemos saber onde caiu. Muito pelo contrário, embora atirasse pedras o Surrealismo o fazia em relação a objetivos mais próximos, que não estavam mais distantes do que a casa do vizinho de Breton, o Café de Flore ou um bar em Montparnasse. E é por isso que ainda está conosco, não importa suas metamorfoses, das quais seria bom falássemos depois. Porque essas pedras, dirigidas contra uma sociedade marcada pelos desperdícios da lógica e da razão, que haviam levado o pensamento ocidental aos despropósitos econômicos da burguesia ou ao horror aspergido pela guerra, caem precisamente no alvo dos olhos dos europeus de começos do século passado. Mais adiante começarão a repercutir em nossas sociedades latino-americanas, quando estas deixam de ser sociedades semi-feudais para dar início a seu lento processo de industrialização. Daí seu valor até os dias de hoje. Porém se retomamos as críticas ao Surrealismo, vemos que seres tão distantes, poética e intelectualmente, como Ezra Pound e Pablo Neruda, coincidem em criar para o Surrealismo uma atmosfera de covardia, de poetas com espartilhos como senhoritas finas ou de fugitivos de uma realidade que eles querem encontrar como fonte iniludível para a poesia. Podemos ver que os problemas de crítica ao Surrealismo se entrecruzam entre os que defendiam uma realidade que necessitava modificar-se sem mudar totalmente, ver a si mesma com olhos lúcidos sem que fossem alucinados, e os que não entendiam a resistência das metáforas surrealistas para retirá-los das gavetas onde lhes haviam metido Descartes e seus amigos de pensamento lógico e racional. Recordo que um amigo poeta, muito dentro da corrente da poesia como razão e pensamento, um dia me disse que gostava muito de como eu havia terminado um de meus poemas em prosa, e queria saber como eu havia feito para chegar a esse verso final. Eu lhe disse que havia sido uma criação automática, que a verdade é que não havia pensado, mas sim que assim havia saído, sem muito esforço. Decepcionado, meu amigo poeta me disse que agora, ao conhecer sua estranha origem, esse verso havia perdido todo valor para ele.



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