Segunda feira, 17 de junho de 2019 Edição nº 13342 24/06/2012  










MÁRIO MARQUES DE ALMEIDAAnterior | Índice | Próxima

Golpe à la Paraguai

Não se fazem mais golpes de Estado como antigamente, com tanques nas ruas, fechamento do Congresso e imposição sobre o Judiciário, e, como não poderia deixar de ser nessas situações atípicas na vida institucional dos países, tendo ainda mordaça pesada sobre a Imprensa, pois que é totalmente inconciliável a deposição de presidente eleito com liberdades de opinião e o livre curso das informações. Nessas ocasiões, já o sabemos, a censura é inevitável!



Ah!, e antes que me esqueça, lembro que nas sedições e golpes clássicos, segundo ensinam os melhores manuais sobre o tema, volta e meia recorrente em nações africanas, dos confins da Ásia ou nas republiquetas latino-americanas, tem mais: fechamento de universidades, proibição de reunião seja lá pra discutir o que for, inclusive torneio de cuspe à distância, e muitas tropas nas ruas. E cadeias lotadas de presos políticos, geralmente civis.



Porém, esse receituário tradicional de deposição presidencial deixou de ser regra – pelo menos no Paraguai. É o que se constata com o afastamento do presidente de “los hermanos”, o ex-bispo Fernando Lugo, eleito democraticamente, mas despejado da Presidência da República, assim na base do vapt-vupt! E tudo isso feito a toque de caixa, sem a participação de aparato militar e bélico.



Eis, pois, a grande contribuição do Paraguai à causa golpista: fazer um golpe de Estado que contraria a praxe. Rápido e rasteiro!



Sem muitas delongas, Fernando Lugo foi cassado pelo Senado paraguaio em uma sessão que durou cerca de duas horas, realizada na última sexta-feira (22) e no mesmo dia, sem perda de tempo, seu vice-presidente assumiu o cargo. Rei morto, rei posto!



Em suma, todo o processo de deposição de Lugo, travestido de formalidade legal, não durou mais do que 24 horas, tendo começado na quinta-feira (21) com a Câmara dos Deputados denunciando-o por não estar desempenhando a contento suas funções – um conceito vago, valendo apenas aos olhos da maioria dos parlamentares que desaprovaram a atuação do presidente - e já no dia seguinte, conforme determina a Constituição paraguaia, ele foi julgado pelos senadores que cassaram o mandato presidencial de Lugo.



Sem nenhuma prova concreta de que o presidente da República tivesse cometido qualquer crime grave, desonroso, ultrajante, altamente lesivo à sua Pátria, apenas sob a justificativa que não estava “administrando bem” – se a moda pega por aqui, hein?! – Fernando Lugo perdeu o cargo.



O pretexto, a gota d’água, foi um conflito gerado por mandado de despejo de uma fazenda, que se transformou em confronto onde morreram 17 pessoas, entre policiais e ocupantes da propriedade. Em função desse episódio, Lugo exonerou o seu ministro do Interior e o comandante da polícia nacional, mas de nada valeram essas providências administrativas, que não aplacaram a sanha da maioria oposicionista da Câmara e do Senado de derrubá-lo do poder.



A justificativa para seu afastamento encontra respaldo esfarrapado em um dispositivo constitucional, porém, na realidade, ele foi apeado da Presidência por estar contrariando interesses políticos e econômicos, além do desejo de voltar ao comando daquele país de forças reacionárias – as mesmas que, por quase quatro décadas, deram sustentação à ditadura do “generalíssimo” Alfredo Strossner.



Mário Marques de Almeida é jornalista. www.paginaunica.com.br. E-mail: mario@paginaunica.com.br



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